Tessitura

a voz que me tece
são linhas de anzóis quebrados
algodão amarelado dos lençóis
trigo esfarelado dos paióis
feito pão nas manhãs
milho debulhado por mãos de mulheres
– fagulhas do céu no fim do mundo

canções de roda e rezas
procissões de maio
novenas de natal
pastores de barro
presépio de palha e bambu
meninos
de bicicleta
com asas de isopor

são cordéis de náilon
e bandeiras de papel crepom
foices e facões adormecidos no celeiro
a casa e o terreiro tomados pelo vento

o pai
a mãe
e o menino colhendo no ventre
as primeiras arras do alvorecer

rudinei borges