Chão de terra batida

Meninos da Sétima Rua

Tenho saudades do que é breve
e vai para além dos barcos.
Esvai com a alvorada.

Saudades do menino cálido,
que se perdeu nos campos
entre o cais e o beco
e a tenra ilusão dos fósseis.

Saudades daquele menino:
amante das ruas,
andarilho das tardes.
O meu menino.
Eu mesmo.

Nascimento de Maria Fernanda

Não tenho razões
para ser
maior que o tempo.
Nem menor
que o instante vago.
Sou apenas o vento
e estou onde quero
como se não quisesse nada.

Nascimento de Thiago Gonçalves

Tenho que prenunciar o cais,
as mulheres grávidas,
o pasto e a cerca.
O ombro dos pais
quando é tempo de colheita.
A mão das mães
diante do fogão à lenha.

Tenho que prenunciar a tarde.

Catedral de Sant’Ana

Quem é livre
quando calam os sinos
e os candelabros?
Quando a manhã parte
levando os montes?

Ninguém é livre
quando não ama
a intensidade da chama.

Só é livre
a alma branda
quando a paixão doma
a carne
e as marés lentas
tocam cítaras.

O poeta

Parece estar mais próximo do outro mundo. Está. Quando dorme a profundeza do sono o poeta rompe a porta das coisas e vai às ilhas que ninguém conhece.

Vê na flor não o que a flor não é. Vê na flor o singelo encanto e furta das pétalas a luz do dia.

A lamparina acesa atravessa a madrugada. Junta o alfarrábio e o tinteiro à escrivaninha. Tece metáforas em silêncio como se contasse segredos a ninguém.

Consigo já não pode. Nem com os demais.
Chora aqueles que perderam a amada.
Sente na mão a dor das chagas,
porque nele todas as dores se encontram.

Nasce a poesia.
E o poeta devolve às pétalas
a luz do dia
tecida em palavras.

Canção das mães

Meu filho não é meu.
É do mundo.
Ele dorme no
meu colo
a viagem inteira.
como se fosse meu.

Logo irei soltá-lo
na estação.
Para onde irá
não sei.
Mas um dia
voltará.
E de novo no
meu colo
dormirá
o sono matinal.

Altar

Mãe rezava o rosário inteiro
antes de dormir.
E eu baixinho repetia
as palavras da mãe:
amar significa olhar para as coisas
sem sentir saudades delas.

O cemitério dos bichos

O fundo do quintal
era o cemitério dos bichos.
Quando morria gato e cachorro
era lá que a mãe enterrava.
Um dia morreu a nossa cadelinha
e não teve jeito: fiz promessa,
enxuguei lágrimas e rezei
para que Nossa Senhora
intercedesse por ela no céu.

A festa de São Lázaro

A tia fazia festa no dia de São Lázaro. Mandava trazer rezadeira a cavalo. Mandava chamar gente da vila. Parente da cidade. Toda a vizinhança chegava animada. Tinha bolo e garapa de cana. O povo cantava. O povo rezava. O povo ria. Um homem contava pela centésima vez como caçou uma onça pintada. Os outros ficavam calados. E uma mulher gorda de peitos caídos tirava uma sacola de dentro da saia e escondia fatias de bolo pra levar pros filhos.

Casa de farinha

Deus veio conhecer a casa de fazer farinha do vô. Sorte de Deus que virou amigo do vô. Agora Deus sempre leva farinha pro céu.

Auto do mato

Um dia vi Deus no meio do mato. Ele riu e fez um sinal com a mão para que eu chegasse bem perto dele. Eu deitei no colo de Deus e senti uma saudade forte dum tempo que não sei qual é.

Contei pra Deus que se eu não fosse menino queria ser um boto tucuxi pra ficar o dia todo brincando no rio. Mãe ralhou comigo. Disse que boto tucuxi não brinca o dia todo.

Deus me contou que se não fosse Deus queria ser uma aranha pra ficar o dia todo tecendo teias bonitas. Mãe ralhou com Deus. Disse que aranha não tece teias o dia todo.

Capelinha de Nossa Senhora das Graças

O padre alemão falava enrolado. As meninas rezavam a Ave-Maria em latim. Dona Benedita no alpendre da casa contemplava um beija-flor namorando a roseira. O menino vestido de anjo subia a ladeira da Passagem Dr. Nelson. O rapaz olhava o semblante da moça morena. O homem carpia o terreiro da capelinha. Uma mulher anunciava o fim do mundo. A outra paparicava o marido que veio do garimpo. Um homem de chapéu dizia que não gostava de árvore. A professora contava a história de Francisco Orellana, o desbravador do Rio Amazonas. O sacristão puxava o sino da catedral de Sant’Ana. O velho coronel imaginava atrocidades. Um menino vendia peixe. O outro pescava tucunaré. Uma menina do povo munduruku fazia colares com penas de arara. Um barco partia para Aveiro. A freira dava bolo para as crianças. Um homem descalço suava e chorava. Carregava uma cruz pesada.

E eu nem sabia o que era Sexta-feira da Paixão.

Encantamento

Foi uma árvore que me ensinou a falar paralelepípedo.

Árvore II

Árvore fala como gente ou é gente que fala como árvore? Não sei. Mas gosto muito de árvore, porque árvore ri de um jeito engraçado.

Acho que árvore tem cócegas.

Praça do Centenário

No norte do Brasil há casas de barro em ruas de barro. Um dia vi Deus empinando pipa.

O eldorado

Quando era menino queria ser dono dum barco que viajasse para todos os lugares do mundo até chegar ao eldorado. E dizia entusiasmado:

– Paula será tripulante. Beto capitão. Mãe vigiará dia e noite para alcançarmos o eldorado antes da nau de Pedro Álvares Cabral.

Buscava o eldorado como o paraíso. Mas já havia encontrado.

Moacir Dias

O vô tinha jeito de índio. Cabelo de índio. Cor de pele de índio. Mas o vô não sabia o que era oca e aldeia. Acho que o vô era uma mistura de índio com português.

O vô gostava de mato, dos mistérios do mato. Conhecia de longe paca, tatu, caititu, capivara. Já tinha visto onça e gato selvagem. Sabia nome de bicho que ninguém sabe, nome de árvore que ninguém sabe.

O vô também gostava de carpir, preparar a terra, plantar mandioca. Gostava de ver o mandiocal crescer ao redor da casa de barro. Tempos depois o vô arrancava a raiz, deixava a mandioca virar puba e colocava a massa num forno à lenha. Era assim que o vô fazia farinha.

Dava vontade de ter fome sempre.

A mãe

A mãe era mulher bonita. Tinha os olhos morenos, a alma morena. Tinha um jeito engraçado de sentir perfume nas coisas, de arrumar a casa, de lavar as roupas, de rezar pros mortos, de rezar pros vivos, de contar histórias do tempo da bisa.

A mãe tinha um jeito de chorar de repente, de amar de repente. Um jeito de arar a terra, de plantar erva cidreira, capim santo, mastruz, hortelã. Um modo de fazer chá pra dor de barriga, xarope pra gripe.

A mãe tinha um jeito de olhar pras coisas que eu não entendia.

A cacimba

A vó tinha um quintal grande. Quintal tomado de árvore: pé de ingá, jambo, mangueira: casa de curió, marimbondo, periquito. No fundo do quintal, perto da cerca que dava com a casa da Dona Paula (uma negra risonha e brava), a vó mandou fazer uma cacimba. Dentro da terra úmida ficavam escondidas minas quietinhas e a água da cacimba era clara, fria. Deixava todo mundo arrepiado. Mas das minas saiam muçuns, bicho estranho. Eu tinha medo daquilo. Devia ser coisa do outro mundo. Coisa que aparece só em sonho. Coisa encantada. Mas eu não gostava de muçum. Nem pra fazer judiação. Nem pra levar nas aulas de ciências. A vó também mandou fazer um jirau e as mulheres do bairro iam lavar as roupas do marido, dos filhos e do patrão. Aparecia roupa de toda parte. Roupa feia e bonita. Roupa rasgada e remendada. Foi lá que a mãe lavou a minha camisa da primeira comunhão. A toalha vermelha de mesa que eu achava bonita – a mãe colocava no natal. Eram tardes inteiras ali. Eu sentava debaixo das árvores e quando a mãe chamava ia com um balde tirar água da cacimba pra colocar numa bacia velha de alumínio.

Foi naquela cacimba que eu li pela primeira vez Fernando Pessoa.

Poemas publicados no livro Chão de terra batida (All Print Editora, 2009).