at(irado)

quis dizer
que aqui vejo disparar nos meus olhos
sobrados da Rua São Sabino
casas de velhos portugueses
que chegaram
aqui
– tardiamente –
na década de 1970
vejo disparar asfalto remendado
retalho de seda
motocicletas e luzes (em pedaços) de automóveis
meninos na flor da idade
cobertos com capuz e moletom
em pleno calor
vejo o breu at(irado)
no céu cinza
sobre meu sexo
numa bermuda
o breu misturado
numa garrafa de aguardente de cana
e café quente numa xícara
vejo disparar filmes e discos e livros
e penso meio desajeitado
que vi ontem
Au revoir, le enfants
e
Hiroshima, mon amoure
e
ainda há outros tantos
filmes e discos e livros
e
a cidade inteira
para ver ouvir e ler
e
depois de dez anos
aqui
sei tão pouco das coisas

quis dizer
que cheguei (aqui) num dia chuvoso
e comprei logo de início um guarda-chuva
para atravessar o Viaduto do Chá e o Anhangabaú
e dei quase cego com o Teatro Municipal
e a Praça da República
só depois
veio a cachaça e a Roosevelt e o Arouche
porque longe a casa dos padres
flertava com pássaros na Rua Amâncio Klein
em Casa Blanca perto do Capão
ali na Estrada de Itapecerica
em Santo Amaro
onde às sextas-feiras
no Largo Treze
ia conversar com a gente da rua
e o povo do albergue em frente ao cemitério
foi ali mesmo na rua
num colchão puído
que vi morrer um homem
e outros tantos desconhecidos
foi ali mesmo na rua
que a agonia da cidade
se pôs entre a aorta e o útero
como pus
e foi me matando aos poucos
se podia deixar de morrer
não deixei
só depois
quando o sangue pulsava
no chão de terra
onde nasci

quis dizer
que guardei aquele guarda-chuva
de quando cheguei aqui
numa mala
que trouxe do norte do Brasil
duma viagem de três dias
pelo Rio Amazonas (de Santarém a Belém)
e mais dois dias
numa estrada (de Belém a São Paulo)
e àquela época nem sabia
que desci o país quase duma ponta a outra
sem tremeluzir entre campos feito um menino
que fugia afoito da casa dos pais
para morar na maior cidade do país
como se fosse grande coisa aquilo
não era
hoje o guarda-chuva continua inteiro
e abre e fecha preto como sempre

se passei fome?
se passei sede?
ainda tenho fome e sede
e vejo anjos caídos na Consolação
toda manhã de julho quando faz frio

quis dizer
que desci a Rua Augusta
bêbado de mim e de meninos iguais a Roberto Piva
pus goela abaixo uma dose de caos
para dormir e acordar e dormir outra vez
e rezar acalantos com José Celso Martinez Corrêa
uma noite no Bixiga e nunca mais voltar para a vida
porque a vida custava o riso daquele menino
que descia comigo a Avenida Nazaré rumo ao museu
a vida custava o riso daquele menino
que me mostrou livros roubados
de Rilke e Whitman e Apollinaire numa manhã de 2003
a vida custava o hálito de cerveja e menta daquele menino
o corpo moreno e magro e a boca seca daquele menino
a vida custava o sussurro frio que vinha daquela boca

quis dizer
que aqui encontrei Saathan
e passei a amá-lo como um cão sem dono
e vivi com ele quase sempre aos pés duma janela de vidro
debruçado sobre a Rua Cipriano Barata
num sobrado velho no Ipiranga
entre catástrofes na televisão e a vida vã lá fora
em êxtase como um místico um eremita
estrangeiro febril sem hora certa de voltar
para a casa de Nietzsche
aqui deixei escapar a fé
poruma fresta do nono andar
numa manhã de inverno forte
com chuva de granizo

quis dizer
que foi um copo de vento e vertigem
que me fez ficar aqui
dias e dias e dias e dias e dias e dias e dias
e me fez subtrair as horas mês a mês
enquanto cresciam edifícios
no meu ventre perdido
enquanto cresciam roseiras
nos túmulos de Oswald e Mário de Andrade
foi um copo de água de chuva e itubaína
um copo vazio sobre o balcão do bar
que me fez olhar a Avenida Sapopemba com mais amor
e escrever poemas sem títulos
num trem que vai para Guaianazes ou Calmon Viana
um trem lotado de trabalhadores cansados
numa quinta-feira fim de tarde

quis dizer
que estou aqui (ontem) agora
(e amanhã sempre-sempre)
num apartamento no centro
abarrotado de revistas e livros comprados em sebos
e compêndios sobre filosofia existencialista
e
depois de ler Sartre e Camus e Simone de Beauvoir
Notes sur le cinematografe de Robert Bresson
(e escritos de Sidnei Ferreira de Vares)
comerei qualquer coisa
qualquer poça dágua servirá para o banho
qualquer canto servirá de cama
qualquer esquina será vazão dum novo poema
qualquer rua me levará
outra vez para a mesma cidade
onde vivi por dez anos

 rudinei borges