Dentro é lugar longe (2013)

Dentro é lugar longe

Dentro é lugar longe – Dramaturgia
(Cooperativa Paulista de teatro, 2013).
Autor: Rudinei Borges. 
Lançado em São Paulo em 2013.
A peça foi encenada pela Trupe Sinhá Zózima em 2013.

Clique e leia Dentro é lugar longe na íntegra. 

Crítica

Por Alfredo Diaz, poeta.

A tessitura de Dentro é lugar longe, texto dramatúrgico de Rudinei Borges (uma das mais proeminentes vozes da poesia e da dramaturgia contemporânea brasileira), é perpassada, sobretudo, por memórias da meninice. Lembranças de nascimento e morte são contadas compondo a metáfora da vida como estirada, estrada longa. Neste novo livro, pós Chão de terra batida(2009), o poeta acende fagulhas da vida como viagem, caminhada das distâncias, num itinerário em que malas vazias e abarrotadas são carregadas como presentificação de conquistas e de pelejas.

Em um texto de cortes secos, marcado pela brevidade da palavra, o autor desvela novos caminhos para a dramaturgia numa composição poética de raro alcance (um roteiro de repentes que lembra a fragmentação do filme A idade da terra de Glauber Rocha) e evoca sussurros de meninos da pintura de Cândido Portinari. Da fotografia de Antanas Sutkus e Henri Cartier-Bresson. Do cinema de François Truffaut. E da presença do menino na obra de grandes autores como Adélia Prado, Alberto Soffredini, Carlos Drummond, Cora Coralina, Dalcídio Jurandir, Guimarães Rosa,Herta Müller, Juan Ramón Jiménez, Manoel de Barros, Manuel Bandeira e Mário Quintana.

A palavra na dramaturgia de Rudinei Borges é artesanato poético, conjunção de vozes tantas, em que tempo e espaço são reinventados à mercê do jogo de narração. Neste sentido, é significativo notar que os narradores da peça sejam meninos à volta da fogueira, todos diante do chão imenso. Com isso, é difícil dizer, com alguma certeza, se está no passado ou no presente o fato narrado. Se estamos no espaço evocado pela memória ou se somos passageiros duma andança sem destino certeiro. Entretanto, é possível perceber logo de imediato, que é a lembrança a matéria árdua que compõe Dentro é lugar longe.

Já no início da peça, a menina de cabelos negros longos diz, meio à cantoria: “a gente vive para contar”. Contar é o modo que o ser humano criou de partilhar lembranças. “A gente vive para contar o que fez: não fez: o que viu: não viu: a gente vive para acocorar os pés sobre o chão e andar por azinhagas”, diz a menina.

 Dentro é lugar longe é o chamamento para um teatro que manifesta a completude da ação cênica no ordinário da existência humana. E é exatamente nesta ação de se debruçar sobre o corpus da vida ordinária que o ser humano lembra o que foi (e é) e se dispõe a narrar. São as coisas simples, movidas pelo tempo presente, que reavivam as lembranças do passado. Neste reavivar, pouco importa se são verdadeiras ou imaginadas as lembranças, porque, neste caso, – como afirma Manoel de Barros – só 10% é mentira, o resto é invenção.

Dentro é lugar longe é invenção-reinvenção da vida vivida/não vivida.

Dentro é lugar longe, de Rudinei Borges

Prólogo – Onde o sol nasce em fagulhas 

[Choro de menino que nasce]
[O menino toca gaita nas distâncias]
[As meninas acocoradas no chão imenso, à volta da fogueira, anunciam que vão contar histórias tantas: a procura pela terra d’onde vim: dentro]

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS

aqui:
o que vou dizer: é muncado de coisas: digo muncado: porque muncado é quantidade que não podemos calcular ao certo: não é como dizer um-mais-um é dois: porque um-mais-um nunca será três-ou-quatro-ou-cinco:
aqui:
o que vou dizer: é muncado de coisas: porque meu ofício é dizer: é contar: é debruçar olhos sobre estiradas: caminhada longa: mergulhar firme na tessitura da vida: & rezar-lhes o que vi:
vida
não tem começo
nem fim:
vida é só meio:
sempre-sempre
par-ti-da:
vez ou outra chegada:
vida é modo de acocarar-se no mundo: adentrar o mundo sem contrições: vida é coisa que a gente não sabe ao certo que é: mas

viver…:

[Suspensão]

sobre isto tenho minhas divagações: a gente vive para contar: para contar o que fez: não fez: o que viu: não viu: a gente vive para acocorar os pés sobre o chão & andar por azinhagas estreitas: largas: azinhagas que nem sabemos em que terras dão: é que
viver
é coisa que a gente só sabe quando finda: é alumiação de raridade desmedida: não creio que
viver
seja coisa para uns e outros não:
viver
não é coisa para poucos:
viver
é multidão: é amanhar dentro das coisas canteiros de jacintos: é correr mundo a dentro:

MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO

dentro
é terra imensa: terra vermelha: terra amarela:
dentro é mato de cipó enredado: cipoada: cipoal: dentro
é cipó-bravo: cipó-azougue: cipó-caboclo: cipó-bela-flor: cipó-café: cipó-chumbo: cipó-cravo: cipó-cruz: dentro é cipozinho-do-campo: cipó-violeta: cipó-trindade: cipó-tracuá: cipó-timbó: cipó-suma:
dentro é cipó-seco: cipó-mil-homens: cipó-jatubá: cipó-imbé: cipó-escada: cipó-do-reino: cipó-timbó: dentro é cipó-seda: cipó-de-sapo: cipó-de-são-joão: cipó-de-mucuna: cipó-de-leite: cipó-de-jabuti:
dentro é cipó-de-cobra: cipó-de-carijó: cipó-de-boi: cipó-de-beira-mar: cipó-d’alho: cipó-d’água: dentro é cipó-amargo: por isso é difícil saber onde dentro começa: onde dentro termina:
dentro é emanharado: dentro é lugar onde Deus e o cão vivem em peleja: dentro é menino acanhado aos pés do trapiche:
dentro é menino que espera barcos todas as tardes no cais: dentro é rua de asfalto esburacado em Itaquera: igrejinha da Conceição em Mauriti: igrejinha de Santa Rosa na Vicinal do 21: dentro é rosto de gente que lida: luta: labuta: escapa: dentro é valentia:

[Olha para o menino]

menino, para que onde você vai, menino?

dentro é passagem: travessia: dentro é coisa que a gente ainda não viu: dentro é coisa que vai nascer: estar por vir: dentro é o dia deitado em terra firme: é várzea:

dentro
é

lugar longe:

[Os meninos entoam cantiga de bendizer a chegada & receber a aurora]

Epílogo – Corpo ávido no coração do tempo

MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO

[Ventania]

[A menina caminha diante de malas surradas]

Sete dias
é tempo
suficiente
para olhar marés & âncoras e barcos que partem do cais & nunca mais voltam. É tempo suficiente para olhar o mundo & se despir
do mundo
como quem se despe dos raios do sol e dos males do mundo.
Sete dias é tempo suficiente para perceber que o mundo não é mar de rosas.
Mas em sete dias
é possível plantar jacintos & colher jacintos.
Porque sete dias é tempo
suficiente para colher acalantos dos olhos da mãe & do pai. É tempo suficiente para lembrar-esquecer. Perder-ganhar. Sete dias é tempo suficiente para enveredar-se pelo breu & pela luz. E deitar-se no chão imenso. Sentir no chão imenso
raízes fundas de árvores que crescem pelo pasto. Ver brotar do chão plantações de arroz & trigo. Ver o milho ser colhido, cozido, assado, posto à mesa à noite. Sete dias é tempo suficiente para colher o barro, tecer tijolos & construir casas. Desenhar alicerces, alpendres, varandas, salas, telhados, portas, janelas, fechaduras, escadas, ruas, quintais, sótãos, cabanas & porões. Sete dias é tempo suficiente para amar-odiar. Acreditar-desacreditar. Adentrar a carne febril das tardes. Desnudar avenidas & becos.
Pôr abaixo a cidade como quem desvela ranhuras com a planta dos pés. Sete dias ou dois dias ou cinco dias ou um dia é tempo suficiente para entender que o tempo é caos em forma de vento.
Que estaremos sempre acordados no fim do dia, quando o sol se fragmenta em vermelhidão no céu, quando a escuridão se põe sobre o corpo das gentes e os sinos tocam & os pássaros rezam a passagem das horas. Sete dias não é muito nem pouco. São somente sete dias que se perdem como outros sete dias que estão por vir. Ou não.
Sete dias não é coisa a que possamos ter apego. Sete dias é tempo suficiente para não fazer absolutamente nada. Ou só olhar o campo que se compõe retilíneo pelo espaço & passeia longínquo defronte de nossos olhos. Sete dias é tempo suficiente para aclararmos ao mundo que não estamos aqui por razão alguma: para viver apenas. & viver não é coisa que possamos aclarar. Sete dias é tempo suficiente para isto & outras vazões tantas. Porque sete dias é tempo suficiente inclusive para que se diga: não, não quero ficar aqui. Não quero viver. Sete dias é tempo suficiente inclusive para partir. E nunca mais voltar.

[A Menina de cabelos negros longos olha para a Menina com voile acocorada no chão imenso e entrega a chave que carrega num cordão pendurado no pescoço]

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS

olhe para fora: as janelas estão abertas: mesmo as cortinas de voile permitem adentrar pedaços de luz na casa: a cidade imensa arde em chamas e as fagulhas dormem nos olhos entristecidas: temos outras lembranças tantas para contar: ficaríamos aqui uma noite: um dia e mais uma noite e ainda teríamos histórias: [Suspensão] tudo está guardado nesta chave que carreguei no peito durante anos: porque o que tenho para contar arde-dorme-acorda dentro de mim como âncora dum barco pronto para navegar num rio afoito: o que tenho para contar é alegre-triste: voz que vem e parte para os campos de erva doce/erva amarga: é vozearia que se consome em silêncio numa estrada que vai a lugar nenhum: é dor/pranto/agonia: sussurro de Deus e dos homens: sussurro de mulheres de vestidos longos e brancos que lavam roupas em córregos: fio miúdo d’água: [Suspensão] o que tenho para contar é parte de mim e do mundo: ranhura em muralha antiga: portão que abre e fecha e esmorece com a ferrugem dos tempos: o que tenho para contar é segredo: mas quando eu contar continuará sendo secreto: sagaz como o breu e a tarde: sagaz como pingos que se espalham com a chuva e o vento: [Suspensão] não tenho segredo algum: [Suspensão] mentira: tenho todos os segredos: não digo dos meus segredos porque não posso e não quero: vivo-morro com meus segredos: e canto o acalanto das mães que choram escondidas no quarto escuro: o meu porão é canto de andorinha: as minhas cicatrizes estão expostas como rugas coladas ao rosto: tenho medo e sede: quero um copo d’água: um chá: quero um pouco de veneno e açúcar: tenho vontade de morrer às vezes: tenho vontade de viver sempre-sempre: a verdade – vos digo: nem tudo se conta: há lembranças tantas que trancamos num baú sem chaves: o nome disso é passado: acorde adormecido nos tímpanos: pássaro que some no céu entre nuvens: a minha multidão de fantasmas é veloz: há rostos e mais rostos: não esqueço nenhum: nem o mais velho nem o mais novo: não conto aquilo que dói: [Suspensão] veja: longe: naquela janela: há alguém ali que guarda um segredo: [Suspensão] uma vez olhei firme os olhos dum menino que sentava todas as manhãs num banco diante do cais entre barcos: uma vez olhei firme o menino e disse a ele:

CORO

[Olham para o menino]

Conta-me o teu segredo.

[Ao longe o menino escreve uma carta]

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS

o menino desviou o olhar: caminhou pelas terras: demorou anos noutros lugares: foi embora: tempos depois o menino retornou ao cais e trouxe esta carta que diz:

MENINO

[Abre a carta] o meu segredo é que um dia – diante do cais – olhei firme a correnteza do rio/era noite/vi-me com lágrimas nos olhos/olhei firme a correnteza do rio/quis jogar-me na correnteza/quis jogar fora minha vida & meus sonhos/quis morrer/o meu segredo é que não há um só dia em que não pense em morrer/mas por covardia ou coragem nunca atentei contra a minha vida/por covardia ou coragem continuo com os dias encravados no corpo/& vivo/e nalgum lugar/quando adentro os rodeios mais distantes desta casa/& abro baús & malas tantas/com esta chave miúda/uma espécie de esperança-menina/como uma andorinha/vem para dentro de mim/& me faz viver sempre-sempre/pelo chão imenso [Fecha a carta]

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS

foi isto que escreveu o menino: [Senta-se e escreve uma carta] e é isto que escrevo agora: por covardia ou coragem não conto o meu segredo: não mostro a marca acocorada no meu corpo de ponta a ponta por baixo do voile: por covardia ou coragem não digo coisas outras: lembranças outras da menina que se debruçava na janela & olhava o movimento da rua como quem olha distante o movimento da vida: [Suspensão] o que você lembra antes de dormir?: o que você lembra ao acordar?: o que você não quer lembrar?: [Olha o menino] acorda, filho: acorda, filho: acorda: o mundo é coisa tão antiga:

[Som de riso de meninos]

MENINO

[Olha as distâncias]

Menina, olha.

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS

Que é? Não vejo nada.

MENINO

Aqui

[Toca o peito com a mão]

Aqui é a terra de onde vim. [Olha para todas as meninas] Agora eu conto: o menino nasceu.
Aqui
dentro
o menino crescerá livre pelos campos. Poderá plantar e colher. Poderá apanhar, nas fazendas, todas as mangas do mundo.
Aqui
dentro
o menino deitará com a peleja & vencerá a labuta. Aqui [Toca o peito com a mão] as terras não são partidas. Não há cercas de arame farpado. Não há senhor. Não há escravos. & os córregos vão cheios d’água em direção aos rios. & os rios vão cheios d’água em direção ao mar. O nome desta terra é Travessia.

[Os meninos contemplam o chão imenso, a menina com lamparina no oratório se compadece do menino e anuncia tempos novos]

MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO

Sou cria duma terra: Travessia. De sol latente, menina-menina, terra distante, ao norte do norte de tudo: cafundó. Uma terra: Mauriti. Uma terra: Itaituba. Uma terra: Aracaré. Uma terra: lugar nenhum: de casas juntas, casas baixas, telhas (de barro) e calçadas grandes. Quintal ao fundo. Terreiro à frente. Terreiro imenso. Sou cria duma terra de poços fundos, gangorras-tantas. Carregávamos água em potes (de barro) a manhã inteira. Água para germinar o mar dentro da sala, da cozinha, da panela de pressão. E colocávamos sal na água doce. Sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal em colheres de pau. Só assim o mar cresceria. Só assim o sertão viraria mar. Mar de peixes e areias e algas e ondas. E barcos que partem para o Ceará. Belém do Pará. Barcos (azuzins-azuzins) que voltam-vão no Solimões, no Rio São Francisco, no Mar Morto, no Mar Vermelho, no Rio Nilo, no Missipi. Sou cria duma terra de ladainhas, de Cícero-padre-mestre, secura, fundura: volteadura das valentias. Sou de repente, porque o mundo é de repente, porque o sertão é de repente, porque o mar é de repente, porque o coração é de repente. Sou bocejo que se transforma em vento e acocora (dentro de si) a tempestade. Sou tempestade das marés, das cordilheiras e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou. [Suspensão] É manhazinha. [Fala como se conversasse com alguém] Já vou, mãezinha, já vou buscar água no poço, encher pote d’água, colocar sal n’água até água virar-mar. Espera não, mãezinha. Já vou. E vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou. Vou varrer terreiro até o dia escurecer. [Suspensão] Nossa Senhora nunca que ia deixar a gente sofrer. Tanto. Nossa Senhora vem me visitar toda manhazinha. Hoje mesmo Nossa Senhora trouxe dos campos esta rosa. [Coloca a rosa entre os cabelos] Foi Deus que mandou esta rosa para que eu colocasse nos cabelos e bonita corresse pelos campos agora mesmo. [Suspensão] Quando menina queria saber se Deus tinha barba longa, se morava numa casa grande, se era bravo. Queria saber se Deus era andorinha. Queria saber se Deus sabia voar. [Suspensão] Deus ainda não aprendeu a voar. [Suspensão] Aprendi a voar aos treze anos.

[A menina com cântaros diante do poço aparece, ao longe. Aos poucos se aproxima dos outros meninos]

Aprendi a voar nos campos, em tempos de festa de São João. Aprendi a voar com andorinhas do campo que se espalhavam pelo mundéu, nas árvores, no céu, nas nuvens. Ganhei asas de anjo. Asas de alva penugem como a brancura do algodão. Foi quando olhei o mar pela primeira vez. Voei sobre mar e sertão. Vi ao longe Mauriti pequenina. A casa de minha mãe, de minha avó, a torre da igreja matriz, caminhões que partem para a Bahia, ônibus que partem para Minas Gerais, estradas que dão em Passos, barcos que vão para Cametá. Caminhos dentro da mata que dão em Fumal, Buritizinho, São Paulo, Belterra, Trairão, Jacareacanga, São Luis do Tapajós, Boim, São Caetano do Sul, Cachoeira Porteira, Itaquera, Barreiras e Aldeia Sai-Cinza. Nunca mais deixei de voar. Tornei-me bicho voante. Rasante de fagulhas nos olhos do deserto. [Suspensão] Não sou mais gente. Sou andorinha.

[O menino olha a terra imensa. Contempla, ao longe, as quatro meninas no chão imenso, ao redor da fogueira]

MENINO

É assim que termino: começando. Com os olhos cheios de poeira, feito uma estrada. Certo de que lhes disse do meu ofício com inteireza. O meu ofício é contar. É que contar é estrada árdua onde a gente caminha e segue e retorna e chega e não chega. Eu sei: aqui dentro é a terra de onde vim. Por isso, digo sempre-sempre:

[Olha para a Menina com lamparina no oratório]

Menina, segue a estirada. Toma estas estrelas e espalha estas estrelas pelo céu destas terras. Assim estas terras serão tomadas de claridão sempre-sempre. Não haverá mais opressão. Menina, olhe: Segue pelos campos. Segue por azinhagas tantas. A saudade fica em algum lugar do corpo.

[O menino tira poeira do bolso & assopra]

Na palma da mão. É que a gente sente saudades do que já foi, do que aconteceu longe, noutras paragens. A gente sente saudades porque lembra, guarda no peito coisas tantas. É preciso uma chavezinha.

[Mostra a chavezinha]

Basta girá-la & de repente, defronte, reencontramos cheiros, terreiros, gestos, cantigas de ninar, brincadeiras de todo o tempo. Uma reza, uma ave-maria, um padre-nosso.

[Sussurra]

Deus é criatura tão bonita.

Olhe lá nos campos: o pai, a mãe & os irmãos do menino caminham para um lugar longe. Eu vos digo que lugar é este: dentro. & eu parto para dentro do mundão com o que guardo: saudades. Com o que sou: lembranças. Com o que tenho nos bolsos: memórias. & vou nesta viagem com os olhos na janela, rezando acalantos: Menina, não esquece este “bendito”: é preciso viver coisas pequeninas da vida. Esta é a chave. [Entrega a mala para uma das meninas] Grande é o mundão. Vida é andorinha: bicho pequenininho. [O menino parte, à volta da fogueira, pelo chão imenso & grita ao longe] Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho.

[O menino, ao longe, toca gaita]

[Choro de menino que nasce]

[Breu]

[Fim]

 Rudinei Borges