Dentro é lugar longe

Dentro é lugar longe - flyer 1A tessitura de Dentro é lugar longe, texto dramatúrgico de Rudinei Borges (uma das mais proeminentes vozes da poesia e da dramaturgia contemporânea brasileira), é perpassada, sobretudo, por memórias da meninice. Lembranças de nascimento e morte são contadas compondo a metáfora da vida como estirada, estrada longa. Neste novo livro, pós Chão de terra batida (2009), o poeta acende fagulhas da vida como viagem, caminhada das distâncias, num itinerário em que malas vazias e abarrotadas são carregadas como presentificação de conquistas e de pelejas.

Em um texto de cortes secos, marcado pela brevidade da palavra, o autor desvela novos caminhos para a dramaturgia numa composição poética de raro alcance (um roteiro de repentes que lembra a fragmentação do filme A idade da terra de Glauber Rocha) e evoca sussurros de meninos da pintura de Cândido Portinari. Da fotografia de Antanas Sutkus e Henri Cartier-Bresson. Do cinema de François Truffaut. E da presença do menino na obra de grandes autores como Adélia Prado, Alberto Soffredini, Carlos Drummond, Cora Coralina, Dalcídio Jurandir, Guimarães Rosa, Herta Müller, Juan Ramón Jiménez, Manoel de Barros, Manuel Bandeira e Mário Quintana.

A palavra na dramaturgia de Rudinei Borges é artesanato poético, conjunção de vozes tantas, em que tempo e espaço são reinventados à mercê do jogo de narração. Neste sentido, é significativo notar que os narradores da peça sejam meninos à volta da fogueira, todos diante do chão imenso. Com isso, é difícil dizer, com alguma certeza, se está no passado ou no presente o fato narrado. Se estamos no espaço evocado pela memória ou se somos passageiros duma andança sem destino certeiro. Entretanto, é possível perceber logo de imediato, que é a lembrança a matéria árdua que compõe Dentro é lugar longe.

Já no início da peça, a menina de cabelos negros longos diz, meio à cantoria: “a gente vive para contar”. Contar é o modo que o ser humano criou de partilhar lembranças. “A gente vive para contar o que fez: não fez: o que viu: não viu: a gente vive para acocorar os pés sobre o chão e andar por azinhagas”, diz a menina.

 Dentro é lugar longe é o chamamento para um teatro que manifesta a completude da ação cênica no ordinário da existência humana. E é exatamente nesta ação de se debruçar sobre o corpus da vida ordinária que o ser humano lembra o que foi (e é) e se dispõe a narrar. São as coisas simples, movidas pelo tempo presente, que reavivam as lembranças do passado. Neste reavivar, pouco importa se são verdadeiras ou imaginadas as lembranças, porque, neste caso, – como afirma Manoel de Barros – só 10% é mentira, o resto é invenção.

Dentro é lugar longe é invenção-reinvenção da vida vivida/não vivida.

Alfredo Diaz, poeta