Chão de terra batida

Livro curioso [por Affonso Romano de Sant’Anna, poeta e crítico literário]

Trouxe livros de jovens autores para ler: um deles muito curioso – Rudinei Borges, autor do livro Chão de terra batida. Ele saiu lá de Itaituba/Pará e sobreviveu a um curso de Filosofia. [Friburgo, RJ – 28 de novembro 2009]

Um testamento [por Juliana Galdino, atriz – São Paulo]

O livro Chão de terra batida é um intenso depoimento. Um testemunho que pode já ser – sem pretensão de ser – um testamento.

Os avós [por Iná Camargo, filósofa e professora aposentada da USP – São Paulo]

Li o livro Chão de terra batida de Rudinei Borges e fiquei muito impressionada. Gostei principalmente dos textos que se referem aos avós.

O rigor de quem procura a palavra exata  [por Carlos Alberto Rodrigues Pereira, crítico de literatura – São Paulo]

Os poemas de Chão de terra batida possuem uma propriedade peculiar: conseguem nos impregnar da mesma nostalgia de seu autor, como se odores, sabores e outras sensações que percorrem o livro se integrassem às lembranças de cada leitor. Epifanias que eclodem de cenas cotidianas revelam um universo repleto de singelas riquezas, para o qual somos transportados, por força do claro estilo de Rudinei Borges. A propósito deste estilo, o rigor de quem procura a palavra exata e a simplicidade derivada da opção por prescindir de efeitos vazios se encontram em medidas precisas na escrita de Rudinei, o que nos faz crer estarmos diante de um poeta destinado a se consolidar entre os melhores.

Os sabores da infância [por Felipe Garcia de Medeiros, poeta – Rio Grande do Norte]

Chão de terra batida é um microcosmo onde o leitor caminha pelas terras e sente os cheiros e os sabores da infância, as brincadeiras de criança, as travessuras de menino levado, aquele tempo que não morre e que nos acompanha durante toda a vida e nos dá conforto quando há solidão.

O livro mítico [por Edilson Pantoja, escritor – Pará]

Chão de terra batida é um livro mítico. Ele remonta ao barro primitivo para tocar no mistério da gênese. Não da Phýsys enquanto mundo objetivo, mas do Cosmos subjetivo da poesia de Rudinei Borges. Narrativa em que as principais referências são femininas: a mãe, a vó, a Amazônia, grande ventre do qual aquelas parecem constituir figura. O livro conta, em instantâneos plenos de beleza e encanto, a conformação da poesia e do poetar na alma do menino. E, não obstante, na subjetividade do processo, uma viva comunicação se estabelece. O leitor se vê no poeta: Mistério da poesia! 

O chão de Rudinei Borges [por Edner Morelli, poeta – São Paulo] 

A literatura de Rudinei Borges impressiona pela sua simplicidade, comprovando que a boa obra literária nem sempre precisa se apoiar num hermetismo estético que, muitas das vezes, não dizem nada. Por meio de uma prosa memorialista, algo que transita entre o regional e o universal, o autor, com invejável tom poético, apresenta-nos uma revisitação de seu espaço primeiro, no caso, o interior do Pará. Ao optar pela primeira pessoa, a obra adquire uma certa atmosfera autobiográfica, porém, nunca se esquecendo da possibilidade de representação que as imagens literárias nos proporcionam.

O texto de Rudinei, materializado em seu primeiro livro “Chão de terra batida”, beira o relato pessoal, misto de crônica e conto fragmentado, com perdão da redundância. Obviamente, por trás dessa economia de meios de linguagem, os textos desse livro guardam uma potencialidade infindável de sugestões poéticas, como verificamos no texto abaixo, que vai do tom impressionista-cotidiano à surpreendente reflexão existencial-filosófica:

Altar

Mãe rezava o rosário inteiro
antes de dormir.
E eu baixinho repetia
as palavras da mãe:
amar significa olhar para as coisas
sem sentir saudades delas.

Rudinei cria, ou melhor, re-cria sua própria mitologia, ao recuperar as figuras familiares mais íntimas, os espaços mais longínquos de sua infância-raiz, apontando para um movimento curioso de representação, que abrange o lado interior e exterior do poeta. Como uma fotografia em prosa, Rudinei nos oferece uma visita de seu mundo particular, pois só ele esteve in locus nessas reminiscências, que esse livro possui a pretensão literária de eternizá-las.

As águas densas das sensações [por Sidnei Ferreira de Vares, educador – São Paulo]

Chão de terra batida é um mergulho nas águas densas das sensações, as mesmas águas em que navegam as pequenas embarcações que os olhos do menino avistavam do cais. Entre ruas e personagens, Rudinei Borges se debruça sobre o passado, resgata impressões do cotidiano e irrompe o universo cultural de sua terra, a Amazônia. O que mais agrada em Chão de terra batida é a capacidade do autor em olhar o passado sem distanciar-se do presente e correlatamente projetar o futuro. A maneira como Rudinei interage com a temporalidade torna este livro imprescindível. 

Os elementos fantásticos do cotidiano [por Carlos Eduardo Marcos Bonfá, escritor – São Paulo]

A cotidianidade da poesia de Rudinei Borges chama atenção. Uma cotidianidade singela, mas mesclada com elementos fantásticos, atingindo, através de algumas imagens e metáforas, os limiares de uma surrealidade distante da visão de mundo mais ortodoxa propagada pelos surrealistas franceses e também distante da violência e do erotismo típico deles. Trata-se de um cotidiano envolvido pelo fantástico com toda sua comoção singela, em que Deus é menino, em que Deus é palpável, comunicável e participa de nossa vida como mais um vivente perambulando por aí. Esta singeleza dá espaço a alguns mais ásperos e intensos momentos, como o poema “Catedral de Sant´Ana”.

A mão e o pulso do poema [por Daniel da Rocha Leite, escritor – Pará]

Rudinei, meu irmão, li o teu livro esta tarde. Releva a intimidade a seguir: parece que eu estava lendo um pouco de minha própria vida. Ri, chorei, sofri e me fascinei. Há similitudes na tua/nossa genêse. Esfinges que irão nos acompanhar eternamente. Sim, todos nós somos escritores em construção, do contrário, se pensarmos que estamos construídos, estamos acabados.

Meu amigo, tens a mão e o pulso do poema, seja ele texto, silêncio, vazio, chão, sangue, rios, árvores ou barro. Em todos estes lugares lá estará o coração da vida, as tuas marcas e letras: o olho d’água da tua poesia.

Sim, a Dona Rosalva Borges deve estar muitíssimo orgulhosa. Assim, como eu também estou de ti.  A genuína fraternidade talvez deva ser esta: sentirmos orgulho pela luz do outro como se ela fosse nossa também.

Segue, meu irmão.

És mais um na luta.

Poeta dos bons!

Literatura sem reboco [por Rodrigo Domit, poeta – Rio de Janeiro]

Chão de terra batida é, como o título já sugere, literatura sem reboco. Não tem rodeios nem rodopios, nem temperos ou condimentos, é literatura pura e simples, crua. Não se trata da poesia teorizada e lapidada para atingir a perfeição, trata-se da perfeição da poesia vivida.

Sensações na pele [por Lunna Guedes, escritora – São Paulo]

A poesia de Rudinei é o passo do homem no meio do asfalto que ainda não chegou. Não há pressa em suas linhas. Os versos nos cantam a saudade de um tempo distante do nosso. Até parece que não é real.

O fundo do quintal
era o cemitério dos bichos
quando morria gato e cachorro
era lá que a mãe enterrava
Um dia morreu a nossa cadelinha
e não teve jeito: fiz promessa,
enxuguei lágrimas e rezei
para que Nossa senhora
intercedesse por ela no céu.

Ele fala de colheitas e do menino que se perdeu no meio do caminho ao chegar na cidade de prédios altos e olhar para baixo. Lá no meio de sua gente, ele olhava pra cima e via estrelas, milhares delas… Via também os bichos, o mato crescendo pro lado e sua gente ribeira crescendo em meio a simplicidade da vida. Meia dúzia de par de olhos é preciso para se fazer uma vila, outra meia dúzia para se fazer uma cidade que se reúne ao redor do rádio para vibrar com o gol do Brasil.

Tenho saudades do que é breve
e vai além dos barcos
Esvai com a alvorada
(…)

E ao fazer a travessia das páginas, você descobre que o menino cresceu e foi além das divisas da pequena cidade onde cresceu, mas é preciso enfatizar que as sensações continuam em sua pele, afinal, um poeta se alimenta de suas próprias verdades.

No norte do Brasil há casas de barro em ruas de barro. Um dia vi Deus empinando pipa.

Sabores amazônicos [por Carlos Américo Kogl]

A mim pareceu ter encontrado um velho amigo. Pareceu ter encontrado Milton Hatoum misturado ao “Meu Pé de Laranja Lima”. Pareceu mesmo. Uma pitada de “Meninos da Rua Paul”, com algo de mim mesmo, que nasci em São Paulo, mas cresci em campinhos de Várzea e terrenos baldios. Minha vó tinha o quintal mais bonito, com jabuticabeiras e um triciclo. Rudinei me devolveu tudo isso. Rudinei Borges, aquele que se diz em construção, presenteou-me com a infância, não só a dele, mas também a minha. Imagino-o completo e, assim, não pretendo perdê-lo de vista.

Chão de Terra Batida é um destes livros que se lê num gole só e, não muito depois, se saboreia como ceia de Natal… sorvendo a cada página cheiros e sabores amazônicos. Somos todos brasileiros, uns de cá outros de lá, mas fundamentalmente como seres humanos, carregamos um universo dentro de nós. Felizmente Rudinei Borges se apresenta como tradutor.