Agruras – ensaio sobre o desamparo

Por Sidnei Ferreira de Vares*

Agruras - ensaio sobre o desamparo“Agruras: ensaio sobre o desamparo”, do dramaturgo Rudinei Borges, é um texto denso, atravessado por fortes sensações de angústia, desespero, mas também de esperança. Empregando uma linguagem metafórica, por vezes, propositalmente ambígua, o dramaturgo provoca a imaginação do espectador. Seus personagens são arquétipos e, portanto, encarnam anseios universais, uma vez que o autor dialoga e retraduz em seu trabalho as misérias humanas. Alguns personagens, inclusive, são claras alusões a personagens bíblicos, a exemplo de “Eva” que, por meio do pecado, deu origem a vida humana, e que no texto é chamada de prostituta. Outros, porém, são enigmáticos, como é o caso do “vendedor de ossos”, do “menino ferido” e do “estrangeiro”, à medida que ambos remetem a uma visão onírica e ahistórica, tal como imagens pinçadas sem o rigor academicista, porém, profundamente marcadas pelo desolamento de um mundo em ruínas. Tratam-se de personagens enigmáticos, sem nomes convencionais, representações universais da angústia e do desespero. Quem é o estrangeiro? Quem é o menino ferido? Pode ser qualquer um, qualquer um de nós.

O isolamento dos personagens é outro ponto importante do texto. Conquanto o diálogo entre as personagens demonstre sintonia, a sensação que se tem é que, no palco, encontram-se “mundos” distintos. Há certo solipsismo que enceta uma visão trágica da existência. Somos sós, todos somos sós. Algumas influências do universo fílmico são nítidas. Menciono Bergman, pois a incomunicabilidade e a solidão são traços muito presentes no texto. Há, também, uma carga psicológica que me faz lembrar a incomunicabilidade presente na obra de Antonioni, em sua trilogia do silêncio, sobretudo no que concerne à ênfase que o dramaturgo (e também diretor) dá ao corpo e ao gesto, em detrimento da fala.

Quanto à influência do teatro, há, igualmente, uma carga psicológica que, em algum momento, faz lembrar o estilo rodriguiniano. Porém, os textos de Nelson Rodrigues comportam sempre uma fina ironia, certa graça que, definitivamente, o texto de Borges não tem. Trata-se de um texto minimalista, de diálogos econômicos e precisos, portanto, sem espaço para pequenas ironias. O texto é uma faca que corta e faz sangrar do começo ao fim.

Beckett, talvez, seja uma influência maior. Sem dúvida, a carga existencial inerente ao teatro do “absurdo” faz-se ali presente. Basta lembrar que, a exemplo de Godot, “Agruras” também gira em torno de uma angustiante espera. Porém, os personagens criados por Rudinei são mais comedidos em relação às emoções. As falas pausadas e o tom de voz constante, somados a gestos milimetricamente pensados, dão às personagens um caráter quase inumano, autômatos, excessão feita à Eva que, na última parte da peça, externa toda as suas emoções, variando entre o choro e o riso, entre o bem e o mal.

A imagem do deserto, lugar onde Cristo se recolheu, mas também a representação do nada, do vazio, é constantemente evocada no texto. A oposição entre o sagrado e o profano é perceptível. A atemporalidade do texto não deixa, entretanto, de abrir margem para se pensar o desolamento do pós-guerra, devido a algumas imagens pinçadas pelo dramaturgo, como a da locomotiva que, apesar de enferrujada e decadente, emite, ao longo da peça, seu estridente som, anunciando a partida, mediante ao desamparo de personagens perdidos, sem direção, esperando, quiçá, o aparecimento do “pai”.

Aliás, é o pai, certamente, o epicentro de uma espera inacabável. O pai, porém, não é um personagem, mas apenas uma evocação, uma lembrança, uma representação da ausência, da esperança que, a um só tempo, é o fator movente de toda a angústia e de toda a esperança da trama. Constantemente evocado, o pai é uma poderosa representação das forças repressoras do mundo ocidental, seja numa vertente psíquica, moral ou religiosa. Quem é o pai? É Deus? É a representação da humanidade, dos valores sociais instituídos? Ou é o pai, figura singular, de carne e osso, provedor da família? Mas esse subterfúgio não seria um clichê, tendo em vista que a figura do pai, embora poderosa, é uma das mais exploradas pelo universo intelectual ocidental? Freud, com seu “complexo de Édipo”, demonstrou a força dessa imagem.

Contudo, nenhum conceito está fechado a leituras, a novas maneiras de ver, sentir e expressar. É nesse ponto que reside o fator criativo do dramaturgo, pois Borges não dá a entender que se trata desta ou daquela representação do pai. Pode ser isto, pode ser aquilo ou pode ser tudo isto. Quantos de nós não carregam “pais” dentro da alma? O texto, portanto, tem o mérito de possibilitar ao espectador um salto imaginativo em direção a seu universo íntimo, bem como também permite um salto para questões que transcendem a existência singular.

* Sidnei Ferreira de Vares é doutor em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo [USP]