Novos livros – Portugal (2011)

 Entrevista concedida ao site Novos Livros de Portugal. Fevereiro 2011. 

O que representa, no contexto de sua obra, o livro “Chão de terra batida”?

O livro “Chão de terra batida” [All Print Editora], publicado no Brasil em 2009, é uma espécie de livro-princípio, livro-batismo: quando as palavras tecidas estão grafadas como poesia-prosa nas páginas de um livro, como marca, cicatriz, ferida que não sara. Ferida rara, sagaz. Reuni a síntese do que é sagrado em minha história, a minha gente, a minha floresta: a Amazônia-mãe. Mas tudo em “Chão de terra batida” difere-se das outras máscaras que vivem em mim: ali fui terno, o menino do beco, do cais, da rua. O filho de uma mãe-morena, mulher da terra. Os meus outros momentos são urbanos, são noites de desespero e dor profunda: procura interminável por Deus e pelo sentido das coisas. Escrevi um livro de poesia que ainda não publiquei, um livro anterior ao “Chão”, trata-se do “Livro da Embriguez” [2006-2008]: lá sou outro: cortante, seco, bêbado, amargo. O que escrevo atualmente converge com a minha vida em São Paulo, cidade imensa, cidade-madrasta. Neste momento não é possível ser bom. Já a floresta é mãe, é rede e balanço. “Chão” é o meu instante de paz, o meu quintal.

Qual a ideia que esteve na origem do livro?

Os poemas-prosa-verso de “Chão de terra batida” são textos que ficaram na gaveta desde 2003, logo quando mudei para São Paulo. São fragmentos da infância na Amazônia brasileira. Não ia publicá-los. Eu os considerava muito pessoais: a voz de uma criança que falava. Mas quando retornei para o interior da floresta, em dezembro de 2008, vi o Rio Tapajós, afluente do Amazonas; a minha cidade, a minha mãe, a minha família. Nasceu uma saudade grande nas minhas mãos. O livro veio com o desejo impossível de tornar eterno aquele instante, aquilo que era só meu. Penso que o livro “Chão de terra batida” tem o peso da voz dos mestres, dos poetas-guias. Não pude escapar de minhas influências para escrever. Manoel de Barros, Mário Quintana, Manuel Bandeira e Adélia Prado, poetas brasileiros, estão lá. Talvez eles me ajudem a proferir a palavra-poema com a minha própria voz. O livro não aconteceria sem a leitura destes poetas.

Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?

Vivo labutando com um romance, “O Terceiro Testamento”, mas ele escapa, foge de mim. Sempre que começo acabo por envolver-me com outro projeto. Terminei uma pequena peça de teatro, “Memorial do Cais”. É a primeira experiência em dramaturgia que eu realmente consegui terminar o texto. É uma peça para atores-narradores. Agora, estou escrevendo um poema grande [fato estranho em nosso tempo]. Um poema longo, confessional: a síntese do que fui até agora neste mundo. É a minha preciosidade. Um dia vou publicá-lo. Penso que será um poema de 50 páginas. Que a paz e o desespero me ajudem a terminá-lo.

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