Escrevo porque amo a doença (2013)

Por Alfredo Diaz*

Uma entrevista com Rudinei Borges, o poeta da Amazônia radicado em São Paulo. Um jovem poeta brasileiro. A conversa aconteceu em uma de minhas corriqueiras passagens pelo Brasil. Entre idas e vindas de Coimbra, Portugal, para Sampa vi a peça que Borges escreveu e dirigiu, “Agruras – ensaio sobre o desamparo”. Trabalho denso, de palavras breves e poesia firme – impregnada. A entrevista deveria, a princípio, se ater à peça, mas seguiu para um descortinar da criação literária deste que é uma das mais proeminentes vozes da nova poesia brasileira.

Alfredo Diaz – Creio que numa primeira indagação desta nossa conversa seja relevante apresentá-lo aos leitores. Decerto, as definições não sejam o melhor meio de apresentar um escritor, porém a questão é: Rudinei, como você se define dentro do campo literário?

Rudinei Borges – Sou poeta, sobretudo. Neste sentido, não importa se escrevo poemas razoáveis ou extraordinários, mas importa este modo de me colocar no mundo: poeta. E isto significa tanto. Significa olhar para as coisas tantas do mundo e refazê-las em palavras por intermédio de metáforas e invenções tantas. Significa ter um interesse particular por quase tudo, nem mais nem menos especial, que outras pessoas talvez não tenham. E significa principalmente um compromisso arraigado com a palavra, a matéria fundamental do poema. Quando escrevo peças de teatro, crônicas e contos é como poeta que escrevo. Quando estou no palco e tento interpretar algo é por desejar ouvir o som da palavra do poema. Não mais. E me entendo como poeta que vive um autoexílio. Um poeta do centro antigo de São Paulo, mas que não é de lá. Um poeta que está impregnado da sujeira do centro, do submundo do centro, dos sebos, igrejas, ruas, bares, esquinas e edifícios do centro antigo de São Paulo, mas que não é de lá. Vejo-me como um poeta que não saiu de Itaituba, minha cidade natal, oeste do Pará, Amazônia. Aquelas procissões de julho, aquelas rodas gigantes dos festejos de Sant’Ana, aquelas mulheres que rezam terços em capelinhas, aquelas mulheres que lavam roupas em cacimbas, aqueles meninos que pulam do trapiche no Rio Tapajós, aqueles estivadores do porto, aqueles homens de vicinais, aquilo tudo não saiu de mim. Continua agarrado em mim como âncora.

Vejo-me como um poeta que ama vertentes tantas da poesia. Desde os poetas brasileiros que escrevem sobre as miudezas (Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Mário Quintana, Cora Coralina, Manuel de Barros, Lêdo Ivo, Thiago de Mello, Ferreira Gullar e Adélia Prado) à poesia psicodélica de Walt Whitman, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e Roberto Piva e aos grandes Arthur Rimbaud, Rainer Maria Rilke, T. S. Eliot, Mário de Sá Carneiro, Gertrude Stein, Yeats, ee cummings, Federico Garcia Lorca e Maiakovski. Um devoto de Friedrich Nietzsche, Marcel Proust, Franz Kafka, Ingmar Bergman, Samuel Beckett e Fernando Pessoa. Um devoto de Isaac Bábel e Gabriel García Márquez. Um devoto de Claude Monet, Henri Cartier-Bresson, Antanas Sutkus, August Sander e Edouard Boubat. Um devoto de Glauber Rocha, Pasolini, Fellini, Akira Kurosawa e Andrei Tarkovski. Um devoto de Dalcídio Jurandir. Um leitor atrapalhado de Guimarães Rosa e Rubem Braga. Um poeta que quer saber mais de João do Rio, Herta Müller, Tadeusz Kantor, Heiner Müller, Sarah Kane, Bob Dylan, Roberto Bolaño, Esopo e Eurípides. Um poeta que ama o mar, sinos, barcos e trens. Um poeta que se diz ateu, mas tem uma imagem de Nossa Senhora entre os livros, em sua pequena biblioteca. Um poeta que tem seis livros na cabeceira da cama: um dicionário de língua portuguesa, O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa, um dicionário de tupi-guarani, Libertinagem de Manuel Bandeira, o antigo testamento e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Um poeta que viaja todo mês de dezembro para Itaituba e depois volta para o centro antigo de São Paulo.

Alfredo Diaz – Outra questão breve de resposta provavelmente complexa: o que o inquieta como poeta?

Rudinei Borges – Pergunto-me, sobretudo, o que significa ser, em nosso tempo, um poeta de origem negra e indígena, homossexual, nascido na Amazônia. Pergunto-me o que significa ser um escritor filho de uma mulher trabalhadora que até hoje peleja mais de oito horas por dia para sobreviver. Alguns dirão: são somente rótulos. Não creio que sejam somente rótulos. Ainda vivemos um tempo árduo em que origem étnica, orientação sexual, condição social e local de nascimento são disparadores de preconceitos os mais aterradores. Qual a relação do meu ofício (escritor) com o que sou? Não posso apagar todos estes traços quando escrevo um poema, um conto, uma peça de teatro ou uma crônica. Do mesmo modo, não ensejo uma literatura de militância e ativismo sectários. Entretanto, indago: onde ficaram os poemas indignados com a realidade injusta que eu escrevia quando adolescente? Ou onde estão agora os meus versos que investem numa contraposição aos valores machistas, racistas e homofóbicos? A literatura precisa ser interpelada pelo mundo. E o mundo – que eu saiba – permanece cruel e injusto. Digo sem sombra de dúvidas: eu tive sorte, mesmo numa realidade de pobreza, de ir à escola, de ser incentivado à leitura, às artes e à literatura por meus professores e por minha mãe. Não fosse isto, decerto não estaria aqui. Lembro-me que minha mãe migrou do campo para a cidade só para que eu pudesse estudar com dignidade. Só ingressei na escola aos sete anos. Muitas pessoas no Brasil ainda não foram alfabetizadas. Muitas pessoas que conheço nunca leram um livro e nunca foram ao teatro. Temos um percurso longo, trabalhoso para a transformação desta realidade excludente. E isto, pensando como escritor, me inquieta, me interpela, me agride.

Penso também em todas as questões ditas interiores que me interrogam todas as noites ou quando durmo pela manhã. A morte, sobretudo, me deixa atormentado. Pensar na ausência que causará a morte de pessoas que amo me leva a um estado de abandono irreconhecível. Tenho investido muitos poemas sobre esta dor. Imagino que a saudade da meninice, quando meus irmãos e eu éramos pequenos no beco da sétima rua em Itaituba, seja algo que me inquiete. Lembro isto com certa alegria, mas com uma falta de desgarramento total. O rosto da minha mãe Rosalva, do meu avô Moacir, da minha avó Alzira. Pensar que um dia não os terei, isto me persegue.

Me inquieta que muitos amigos meus não querem sentir tristeza – nunca. Me inquieta a obrigação de ser feliz o tempo todo, a obrigação de ser bem sucedido. Me inquieta a obrigação de ter carro, casa, ganhar dinheiro, falar línguas e viajar para a Europa e os Estados Unidos. Me inquietam os guetos literários, a desigualdade de oportunidades.

E me inquieta, em especial, o desejo de perseguir a minha própria voz literária. O ensejo de não ser apenas eco dos meus escritores mestres. O desejo de escrever com honestidade. Isto me inquieta.

Alfredo Diaz – O professor Sidnei Ferreira de Vares numa análise de sua peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”, escrita em 2012, afirma que é o pai, certamente, o epicentro do texto. E diz mais: “O pai, porém, não é um personagem, mas apenas uma evocação, uma lembrança, uma representação da ausência, da esperança que, a um só tempo, é o fator movente de toda a angústia e de toda a esperança da trama”. Agora que a peça está em cartaz em São Paulo, talvez esta seja uma pergunta relevante para esta conversa: que pressupõe esta imagem do pai em sua dramaturgia?

Rudinei Borges – A imagem abrupta do meu pai que partia sobre uma colina nas terras longes da fazenda onde morávamos (minha família e eu) quando criança persiste em mim e me persegue quase todas as noites quando durmo. Um dia minha mãe me olhou e disse na casa de minha avó: “meu filho, o teu pai nunca mais voltará”. Eu tinha uns quatro ou cinco anos. Minha mãe disse isto logo que eles se separaram. De certo modo, minha mãe não errou na previsão, pois depois da separação vi meu pai quase nunca. Era um homem distante, alguém que eu nunca soube ao certo quem era, se tinha riso ou tristeza no semblante. Em todo caso, não sou um escritor que se põe a controlar as palavras que surgem em minha escrita, nem as frases que se formam, nem os temas que daí ganham corpo. A minha escrita é sempre o mergulho no que sinto, no que dorme nas sombras do meu pensamento, portanto há começos não pretendidos, vozes que surgem sem que eu as invoque. É evidente que a escrita é um ofício de lapidação contínua. Todavia, isto não implica aprisionar-se nos cárceres dum racionalismo determinista. A minha escrita é um contínuo diálogo com os meus demônios, com os meus espectros. Já me criticaram por isso. Certa vez um ator me disse que literatura não é terapia, que eu devia procurar um psicólogo. Ele estava enganado e foi infeliz no que disse. A minha escrita não é uma reunião de desabafos, mas um passeio pelo parque de diversões da minha cabeça, para citar Lawrence Ferlinghetti. O desabafo não é desafio. Não escrevo para encontrar cura. Escrevo porque amo a doença. Não quero exorcizar os meus fantasmas, aliás quero amá-los. O meu pai, ou a imagem dele, é uma espécie de espectro que me inquieta. E se isto me leva a escrever. Jamais deixarei de atentar para o que surge na minha escrita a este respeito. A peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo” nasceu desta constatação da ausência: “O pai. Nunca viu o pai. Nunca viu o rosto do pai. O pai não tem rosto. Olhos de fogo. Fagulhas no lugar do rosto. Silêncio. Vazio. Uma estrela do mar solitária. O pai não tem voz”. Isto foi o suficiente para escrever uma peça inteira, para plantar no cerne do texto a angústia dos meus contemporâneos, o medo assombroso que nos arrasa durante a vida inteira. Isto não significa que seja uma peça autobiográfica, mesmo que todos os meus textos tenham algo de biográfico, por mais codificado que seja. Nem se trata de uma imersão em sentimentos, muito menos em sentimentalismos fáceis. O desamparo comporta uma completude que envolve todos os homens, mas longe de mim pretender alcançar a dor universal. Só pretendo tecer poesia, não mais que isto. Nem que para isto seja necessário ir ao inferno, o meu próprio inferno. “Agruras” tem algo do meu inferno interior.

Alfredo Diaz – E como se desvela em sua literatura a imagem da mãe? O que ela representa?

Rudinei Borges – A evocação da presença materna no que escrevo parte do mesmo princípio que a presença paterna: sou fiel aos meus fantasmas, às suas vozes, risos e dores. Todavia, a imagem materna aparece como mãe, avó, tia, Eva, Nossa Senhora, professora e mulher rezadeira. Talvez por minha meninice ser povoada por estas mulheres todas. Sobretudo, porque foram a expressão da danação da coragem numa terra onde as mães criavam os filhos sem a presença dos pais. A minha mãe foi uma mulher que, como muitas brasileiras, vencia todos os dias as dores da pobreza para criar meus irmãos e eu. Deu-nos educação, levou-nos à escola, envolveu-nos na comunidade, apresentou-nos a dignidade. Minha dignidade de menino pobre da periferia de uma cidade amazônica, no interior do Pará, onde tudo parecia e era distante, veio da persistência de minha mãe. A religiosidade dos meus textos vem de minha mãe. O desamparo que evoco no que escrevo vem de minha mãe que vencia na vida tomada de incertezas. Cresci com esta mulher rezando rosários, indo à igreja, com a casa cheia de imagens de santos, participando de procissões, cantorias, rezas e missas. Há em mim, mesmo com o meu suposto ateísmo, um catolicismo rústico, popular, que vem de minha mãe. Graças à literatura me reencontro com isto. Não há texto em que eu não escreva sobre Deus, o diabo e a Virgem Maria. A amizade que tenho com os três vem do amor que sinto por minha mãe. E nesta roda também há minhas avós: Eva, Alzira e Ana. Há mulheres da capelinha de Nossa Senhora das Graças, mulheres das procissões de Sant’Ana, da Vicinal do 21, da Transamazônica, do cais de Itaituba, dos lugares onde andei, das mulheres que conheci em São Paulo. Ás vezes, isto tudo surge numa escrita leve, noutras vezes acordam de um pesadelo e aparecem numa escrita abrupta, dolorida. Hoje já não tenho mais medo de olhar para todas as coisas sem querer encará-las. No geral, as enfeito com véu e asas se anjo. A minha literatura é uma procissão psicodélica. Ás vezes os anjos cantam músicas de The Velvet Underground sem nenhum receio.

Alfredo Diaz – Como foi dirigir o seu próprio texto na peça “Agruras – ensaio sobre o desamparo”?

Rudinei Borges – Dirigir “Agruras” foi uma catástrofe. Um erro. Primeiro acreditei que podia atuar, interpretar O estrangeiro, o personagem atordoado da peça, aquele que supostamente matou o pai. Um dos fantasmas que encontrei e pus na peça. Por sorte, desisti disto. Depois veio toda a dor de escolher caminhos para a encenação. Estas escolhas foram difíceis. A proposição de um teatro estático talvez não tenha sido compreendida, nem alcançou, de fato, a cena. Ocorre que um dramaturgo pode pensar que a encenação sempre estará aquém do texto. Ou pode ocorrer que a encenação seja tão sagaz que vá além do texto. De fato, creio que ainda há caminhos longos para que eu possa encenar com dignidade o que escrevo. Nem sei se pretendo continuar a dirigir textos de teatro. A verdade é que é uma peleja encontrar alguém que dirija textos de novos dramaturgos no Brasil. Todos querem dirigir clássicos, grandes autores, nomes estrangeiros. Neste caso, o próprio dramaturgo passa a ser o encenador. E não há nada mais indigesto que dirigir uma peça de teatro, que enfrentar a precariedade do nosso teatro, com pouco dinheiro. Tive dificuldade para encontrar até salas de ensaio. O cachê dos atores é uma tristeza. Tudo é feito com muita labuta. Parece que as coisas não andam. Porém, não se pode reclamar. Não se pode ser chato. É preciso dizer que tudo está bem no teatro. Aliás, o diretor geralmente é o irmão chato. E penso que bons diretores são essenciais, aqueles que pensam a completude da encenação e, sobretudo, olham para a formação do ator e têm honestidade no ato de adentrar a escrita do texto dramatúrgico. Da minha encenação em “Agruras”, do meu modo de dirigir, posso dizer que é minimalista, que fugi do exagero, que quis buscar a sutileza dos gestos e dos objetos. Que desprezei os gritos, o que é difícil para os nossos atores, pois eles quase sempre buscam uma dramaticidade piegas. Em verdade, dirigir uma peça de teatro é uma atividade injusta, pois temos que concorrer com o paradigma piegas das novelas, do cinema e do próprio teatro que se veem na obrigação de produzir risos e choros. Na maior parte dos casos, há também pouco estudo entre os atores, falta leitura, conhecimento de cinema, música, arquitetura e artes plásticas. Falta entre os atores uma formação cultural mais sólida. E também falta uma formação em técnica teatral mais sólida. É preciso ir além do paradigma das escolas, que configuram um bom começo inegável. Porém, só a escola não basta. E principalmente, vejo que os atores leem pouca dramaturgia. E isto é imprescindível. Não acredito em ator que não leia. Não acredito muito no meu trabalho de direção, por mais que eu seja disciplinado, inquieto e persistente. Não acredito que tenha dado certo. Ser dramaturgo já é difícil, imagine dirigir. Preciso confessar: sou apenas um poeta, o resto é ousadia. Atuar, escrever peças e dirigi-las, isto não passa de teimosia. Sou poeta – é o que tento.

Alfredo Diaz – Que textos seus já foram publicados, Rudinei?

Rudinei Borges – Minha única peça de teatro publicada em livro é um texto que escrevi entre 2012 e 2013 exclusivamente para a encenação de um grupo de teatro de São Paulo, chama “Dentro é lugar longe”, trabalho que nasceu de pesquisa sobre memória e história oral. A peça é uma escrita poética da reminiscência dos próprios atores, quis tecer em metáforas o enfrentamento da morte na meninice. O livro trás fotos de todo o processo de pesquisa que resultou desta peça. Também reuni informações do grupo de teatro que encenou esta peça e publiquei o livro “Teatro no ônibus” pela Cooperativa Paulista de Teatro. Deste mesmo projeto, foi publicado um livro de artigos sobre teatro. Fui o organizador do livro “Fagulhas”. Participei de várias antologias de poemas e publiquei contos. Porém, o meu primeiro livro é um trabalho breve, a maior parte de poesia em prosa. “Chão de terra batida” foi publicado em 2009. Desde então, as poesias deste livro se espalharam. É o meu trabalho mais conhecido – suponho. A maior parte de minha literatura está espalhada na internet em blogs e sites. E o que tenho escrito está em livros inéditos, longe das editoras. Agora ando sentindo uma necessidade urgente de reunir num livro toda a minha produção poética, uma reunião de tudo que escrevi em poesia. Este livro tem um nome: “O livro da embriaguez”. Espero publicá-lo o quanto antes. Espero tê-lo em mãos, em papel, impresso. Vivo.

*Alfredo Diaz é poeta e doutor em literatura pela Universidade de Coimbra, Portugal.