Agruras – ensaio sobre o desamparo

Agruras - ensaio sobre o desamparo

Agruras, ensaio sobre o desamparo – dramaturgia
Autor: Rudinei Borges.
Peça encenada pelo Núcleo Macabéa em São Paulo, 2013.

Um ensaio sobre o desamparo – Por Rudinei Borges

Nunca ouviram do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e desatava a correr pela praça gritando sem cessar: «Procuro Deus! Procuro Deus!» Mas como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou grande riso… O louco saltou no meio deles e trespassou-os com o olhar. «Para onde foi Deus», exclamou, «é o que lhe vou dizer. Matámo-lo… Vós e eu! Somos nós, nós todos, que somos os seus assassinos!… Deus morreu! Deus continua morto… (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 125)

“Agruras – ensaio sobre o desamparo” configura espécie de simbiose entre grito e sussurro, mantra que conclama o retorno de certa figura-morta pela qual nutrimos saudade singular, mas sequer sabemos quem é ou o que é. Por ventura, chamamos de pai: Yahweh, aquele que traz a existência de tudo que existe. A peça é um breviário de espectros, ante a terra ceifada, que arriscam seguir rumo ao deserto numa locomotiva tomada por ferrugem: Eva, um vendedor de ossos, um menino ferido e um estrangeiro (Judas) preso a um baú onde supostamente carrega o cadáver do pai morto. E é exatamente esta a inquietação central em “Agruras”: a morte do pai, a morte do sagrado, a morte de Deus, a morte das utopias: a evocação do semblante dos expatriados, desterrados: refugiados numa terra desolada, refugiados em si mesmos. 

“Agruras” é, sobretudo, uma peça-poema (de caráter psicológico) em que a fala é motora da (e a própria) ação cênica, o que instaura uma gagueira poética devedora da obra de Gertrude Stein.  “Agruras” é, sobretudo, uma peça-poema em que o corpo estático (numa invocação de Bernard Maeterlinck) adentra nuanças desesperadoras da miséria humana como impossibilidade de ser no mundo. O ensaio posto em “Agruras” aparece como tentativa de realocar para um campo minado o limiar entre poema e dramaturgia, texto lírico e texto dramático, questão cerne da pesquisa teatral do Núcleo Macabéa.

A agrura e o desamparo “tecidos” em cena remetem à completude daninha da existência humana. Neste sentido, a peça sofre influências inúmeras da obra de Franz Kafka, Samuel Beckett e Ingmar Bergman. E de outros importantes autores como Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre, Camus, T. S. Eliot, Isaac Babel e Herta Müller. É notória também a influência da fotografia de Henri Cartier-Bresson, Antanas Sutkus, August Sander e Edouard Boubat. E da obra cinematográfica de Béla Tarr e Glauber Rocha.

A pesquisa que resultou na feitura deste ensaio sobre o desamparo iniciou em fins de 2011. O arsenal de livros, filmes, fotografias e obras de artes plásticas foi devorado em 2012, quando concluí a tessitura do texto dramatúrgico e começaram os ensaios. Em 2013, o Núcleo Macabéa realizou o ciclo “Teatro, angústia e liberdade” em vista de dialogar com estudiosos de filosofia da existência. Com isso, vieram também os estudos de introdução ao butoh e de preparação vocal. Todos estes trabalhos foram possíveis graças ao Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Prefeitura de São Paulo.

CRÍTICA – Sobre miséria humana e incomunicabilidade em “Agruras: ensaio sobre desamparo” [Por Sidnei Ferreira de Vares]

“Agruras: ensaio sobre o desamparo”, do dramaturgo Rudinei Borges, é um texto denso, atravessado por fortes sensações de angústia, desespero, mas também de esperança. Empregando uma linguagem metafórica, por vezes, propositalmente ambígua, o dramaturgo provoca a imaginação do espectador. Seus personagens são arquétipos e, portanto, encarnam anseios universais, uma vez que o autor dialoga e retraduz em seu trabalho as misérias humanas. Alguns personagens, inclusive, são claras alusões a personagens bíblicos, a exemplo de “Eva” que, por meio do pecado, deu origem a vida humana, e que no texto é chamada de prostituta. Outros, porém, são enigmáticos, como é o caso do “vendedor de ossos”, do “menino ferido” e do “estrangeiro”, à medida que ambos remetem a uma visão onírica e ahistórica, tal como imagens pinçadas sem o rigor academicista, porém, profundamente marcadas pelo desolamento de um mundo em ruínas. Tratam-se de personagens enigmáticos, sem nomes convencionais, representações universais da angustia e do desespero. Quem é o estrangeiro? Quem é o menino ferido? Pode ser qualquer um, qualquer um de nós.

O isolamento dos personagens é outro ponto importante do texto. Conquanto o diálogo entre as personagens demonstre sintonia, a sensação que se tem é que, no palco, encontram-se “mundos” distintos. Há certo solipsismo que enceta uma visão trágica da existência. Somos sós, todos somos sós. Algumas influências do universo fílmico são nítidas. Menciono Bergman, pois a incomunicabilidade e a solidão são traços muito presentes no texto. Há, também, uma carga psicológica que me faz lembrar a incomunicabilidade presente na obra de Antonioni, em sua trilogia do silêncio, sobretudo no que concerne à ênfase que o dramaturgo (e também diretor) dá ao corpo e ao gesto, em detrimento da fala.

Quanto à influência do teatro, há, igualmente, uma carga psicológica que, em algum momento, faz lembrar o estilo rodriguiniano. Porém, os textos de Nelson Rodrigues comportam sempre uma fina ironia, certa graça que, definitivamente, o texto de Borges não tem. Trata-se de um texto minimalista, de diálogos econômicos e precisos, portanto, sem espaço para pequenas ironias. O texto é uma faca que corta e faz sangrar do começo ao fim.

Beckett, talvez, seja uma influência maior. Sem dúvida, a carga existencial inerente ao teatro do “absurdo” faz-se ali presente. Basta lembrar que, a exemplo de Godot, “Agruras” também gira em torno de uma angustiante espera. Porém, os personagens criados por Rudinei são mais comedidos em relação às emoções. As falas pausadas e o tom de voz constante, somados a gestos milimetricamente pensados, dão às personagens um caráter quase inumano, autômatos, excessão feita à Eva que, na última parte da peça, externa toda as suas emoções, variando entre o choro e o riso, entre o bem e o mal.

A imagem do deserto, lugar onde Cristo se recolheu, mas também a representação do nada, do vazio, é constantemente evocada no texto. A oposição entre o sagrado e o profano é perceptível. A atemporalidade do texto não deixa, entretanto, de abrir margem para se pensar o desolamento do pós-guerra, devido a algumas imagens pinçadas pelo dramaturgo, como a da locomotiva que, apesar de enferrujada e decadente, emite, ao longo da peça, seu estridente som, anunciando a partida, mediante ao desamparo de personagens perdidos, sem direção, esperando, quiçá, o aparecimento do “pai”.

Aliás, é o pai, certamente, o epicentro de uma espera inacabável. O pai, porém, não é um personagem, mas apenas uma evocação, uma lembrança, uma representação da ausência, da esperança que, a um só tempo, é o fator movente de toda a angústia e de toda a esperança da trama. Constantemente evocado, o pai é uma poderosa representação das forças repressoras do mundo ocidental, seja numa vertente psíquica, moral ou religiosa. Quem é o pai? É Deus? É a representação da humanidade, dos valores sociais instituídos? Ou é o pai, figura singular, de carne e osso, provedor da família? Mas esse subterfúgio não seria um clichê, tendo em vista que a figura do pai, embora poderosa, é uma das mais exploradas pelo universo intelectual ocidental? Freud, com seu “complexo de Édipo”, demonstrou a força dessa imagem.

Contudo, nenhum conceito está fechado a leituras, a novas maneiras de ver, sentir e expressar. É nesse ponto que reside o fator criativo do dramaturgo, pois Borges não dá a entender que se trata desta ou daquela representação do pai. Pode ser isto, pode ser aquilo ou pode ser tudo isto. Quantos de nós não carregam “pais” dentro da alma? O texto, portanto, tem o mérito de possibilitar ao espectador um salto imaginativo em direção a seu universo íntimo, bem como também permite um salto para questões que transcendem a existência singular.

Ficha técnica

Dramaturgia e direção: Rudinei Borges

Elenco

Alexandre Ganico: O vendedor de ossos

Lukas Torrres: O menino ferido

Nayara Meneghelli: Eva 

Rodrigo Sampaio: O estrangeiro

Cenário e iluminação: Rudinei Borges

Operador de luz: Guilherme Trindade

Figurino: Claudia Melo

Sonoplastia: Alexandre Ganico e Rudinei Borges

Maquiagem: Núcleo Macabéa

Fotografia: Christiane Forcinito

Preparação vocal: Fernando Gimenes

Preparação corporal: Jimmy Wong

Preparação em canto: Thiago Mota

Apoio técnico: Marcelo Magalhães e Márcia Nicolau

Artes visuais/programa: Artefactos Bascos

Produção: Núcleo Macabéa

Realização: Prefeitura de São Paulo – Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI)

Núcleo Macabéa

(11) 3151-4664

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