Cartas

Carta a um amigo

São Paulo, 31 de janeiro 2012.

Meu caro,
Estou em dívida com você. Em especial sobre as questões levantadas em outro e-mail. Saiba que é sempre uma alegria conversar com você. Neste últimos encontros eu estava realmente muito cansado e ao mesmo tempo muito alegre com o projeto teatral que estamos desenvolvendo na Trupe Sinhá Zózima. Sobre minha reflexão sobre o projeto, não se trata de otimismo ou pessimismo. Aliás, isto é uma grande bobagem. Nietzsche, no século XIX, já criticava esta lacuna entre bem e mal. Conceitos comuns em nossa cultura judaico-cristã. Claro que escrevo isto para provocá-lo. Porém, para ser franco não suporto qualquer coisa que pareça auto-ajuda. Mas não sou tão bravo assim, rapaz.
Fiquei feliz ao ouvir as suas ideias sobre uma possível exposição de artes visuais. Por isso mesmo tenho algumas indicações para você. Suas ideias estão em consonância com muitos artistas e vão além da fotografia. Creio que você deve pesquisar dois termos:
a) Performance;
b) Arte Multimídia.
Penso também que devemos ir à Bienal de Artes este ano. Não lembro em que mês ocorrerá. Também indico outros materiais, a partir do conceito que você comentou, aliás do que lhe interessa na fotografia: “captar o que o olho humano não capta”.
a) O livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e o filme do nosso querido cineasta, Fernando Meireles. O filme tem o mesmo nome do livro.
b) O belo documentário “Janela da alma” de João Jardim e Walter Carvalho.
c) O filme argentino, “O segredo de seus olhos”.
Se quiser realmente ficar louco, comece a estudar semiótica que apresenta conceitos imprescindíveis para quem deseja ser um fotógrafo de verdade. Indico fotógrafos que gosto muito:
a) Luiz Braga, fotógrafo paraense;
b) Sebastião Salgado;
c) Henri Cartier-Bresson;
e) Jindrich Streit;
f) August Sander;
g) Diane Arbus.
Um fotógrafo é, sobretudo, um artista. E um artista é, sobretudo, um
pesquisador. Portanto, nunca haverá verdadeiro fotógrafo que não seja um investigador inquieto. Indico também cineastas inquietos:
a) Ingmar Bergman – este é o maior de todos, um gênio – veja o filme “Persona” e “O Sétimo Selo”;
b) Felinni – grande mestre – veja o filme: “Oito e meio”;
c) Pasolini – veja o filme: “Teorema”;
d) Kurussaua – veja o filme: “Os sonhos”.
No Brasil, conheça Glauber Rocha. E se puder, esqueça os filmes americanos. São quase todos catastróficos, fracos e previsíveis. Mais do mesmo, sempre. E disseminam esta ideologia boba: “você tem que ser vitorioso”. Todos os filmes americanos se resumem nesta frase. É um mistura de culto ao capitalismo e ao pior da Teologia da Prosperidade. Parece-me que Calvino está mais vivo do que nunca. Filmes e desenhos americanos concernem no lixo do lixo da cultura. Salvam-se Orson Welles, Wood Allen e Scorcese. Geralmente filmes que ganham o Oscar são catastróficos. E para terminar de chutar o balde: você só será um verdadeiro leitor quando deixar de ler livros que estão na lista dos mais vendidos. Geralmente é literatura de quinta categoria. Coisa que não vale um centavo.
Cara, na verdade precisamos deixar de consumir o lixo da indústria cultural (Theodor Adorno escreveu muito sobre isso). Precisamos conhecer arte e literatura de verdade.
Penso que você deva começar a estudar e produzir boa fotografia.
Grande abraço, meu caro.
Utopia e luta, sempre!
Rudinei Borges

Um pensamento sobre “Carta a um amigo

  1. Excelente carta! Creio que seu amigo ficou lisonjeado com suas opiniões e principalmente pelo cutucão que deu a ele.

    Um grande abraço,
    De um amigo muito grato pelos alertas…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s