Literatura Brasileira/Livros de Rudinei Borges/Textos de Rudinei Borges

mariinha e meninozir

1. Mariinha era cheia-de-manhã. Via no fundo dos meus olhos o fundo do rio. Depois ria: rio é só lágrima. Mariinha-morena. Mariinha-pequena. Os olhos cor de jambo maduro. Jambo pronto para dormir na terra, aos pés da raiz do jambeiro. Mariinha-menina. A saia de algodão cru: flor amarela espalhada por todo o corpo: pela mão nua. Mariinha soprava no meu ouvido: rio é só lágrima: caldo de choro de gente que se alimenta de nuvem: chá de tempestade: suco de tarde sem cor. Rio é lágrima não, Mariinha. Rio é só cantiga que a gente ouve no silêncio das coisas. Reza-miúda que mora dentro do alforje do vô. Rio é onde os peixes sonham com a gente. Mariinha cantava, brincava de samba-caído com o redemoinho. Mariinha ia e voltava com jacintos do campo entre os fios de cabelo. Mariinha ria: rio é só lágrima. Mariinha era uma pedra: uma onça: uma foice: um cajado. Marrinha não existia. Mas um dia a mãe perguntou: Filho, cê ama Mariinha? Nesse dia eu comecei a acreditar que hora ou outra Mariinha voltaria  para me ensinar a dançar como camaleão e brincar de samba-caído no terreiro de barro molhado. Mas Mariinha não vinha nem cheia-de-manhã, nem cheia-de-tarde. Ficava emburrada no meio do mato, dormindo no colo de Deus feito uma pedra de sono.
 2. Mariinha era só corpo. Era só corpo Mariinha. E o corpo era só festa: dança: dois passos sobre o chão do terreiro: dois passos de samba-caído: mil léguas de travessia. Mariinha era só movimento: vento na estirada da terra: banzeiro na estirada do rio: um trem que atravessa a mata sem rumo. Mariinha era só noite: escura-escura: breu sem fim. Mariinha era só sonho. Só lembrança. Só saudade. Um passo, Mariinha: dois! Dois passos, Mariinha: três! Três passos, Mariinha: quatro! E o tempo ia. Mariinha rondava.
3. Eu sonhava – com gosto de sol na boca. Acordava com um graveto na mão. Era hora de desenhar tamanduá no chão. Desenhar o rosto e a vida do tamanduá. O bicho saía da terra, ávido-ligeiro, se embrenhava na mata-gigante e nunca mais voltava. Só via o tamanduá de novo quando o bicho descia as beiradas do rio e bebia água como quem devorava a própria sede. Um dia nas beiradas do rio desenhei pássaro sem nome, com as asas azuis e o bico empinado. Um dia no chão da casa de tábua, nas beiradas do rio, desenhei um pássaro sem nome e o pássaro saiu da terra, encantado, e foi bater as asas no céu, entre as nuvens e se perdeu no ar. Nunca mais vi. A mãe ralhou apavorada: menino, não se desenha coisa que não existe. Desenha arara, beija-flor, uirapuru.
mariinha e meninozir: rudinei borges
foto: orkin

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