Cartas/Felipe Garcia de Medeiros/Poesia/Poesia Brasileira

outra carta para felipe garcia

São Paulo, 26 de setembro 2011

(meia noite e meia)

Saudações Felipe.

Meu caro, faz tempo não escrevo cartas. Eu que prometi escrevê-las não as escrevo faz tempo. Também pudera, em tempos de web, tudo conspira para que escrevamos cada vez menos. Os espaços são contados. É preciso dizer muito em palavras poucas. Por vezes, inicio cartas imaginárias, contos imaginários, romances imaginários. Mas só escrevo, de fato, como sacramento, os poemas. Porque são pequenos. Agora mesmo, desde janeiro deste ano, estou a escrever o meu maior poema, Os olhos do menino saathan. Já escrevi 50 páginas. E talvez venham mais versos. Vou enveredando por outros caminos. Hora ou outra vejo um encontro de rios diferentes entre o que escrevo agora e a voz que se fez menino em Chão de terra batida, este livro pequeno que eu mesmo não sei a que veio. Mas o poema Os olhos do menino saathan fui compondo aos poucos, em assaltos durante viagens em trens e ônibus. Depois de longas caminhadas à noite pelo Ipiranga, onde moro. Após andanças, durante a madrugada, no centro de São Paulo. Ou mesmo sozinho, em casa, entediado com a vida. Aliás, a maioria dos meus dias são meio entediantes, porque sofro de uma mistura de mau humor, preguiça, melancolia e depressão. Ou uma mistura de pulsão, sexo e vontade de viver. É que dois anjos opostos moram no meu fígado faz tempo. O pior é que não consigo dormir à noite. Não consigo dormir antes das cinco horas da manhã. Nem acordar antes das três horas da tarde. É triste. Tenho reclamado faz tempo. Eu mesmo cansei de reclamar da vida.

Ontem fui ao Centro Cultural de São Paulo. Vi a peça da Cia. Nova de Teatro, Caminos Invisibles. Uma manifestação cênica sobre a vida sofrida de migrantes bolivianos no Brasil. Um trabalho em que impera a cantoria e a presença feminina numa denúncia corajosa da exploração, da escravidão. Confesso que fiquei tocado, principalmente porque a maior parte dos atores (não-atores) são da Bolívia.

Agora, estou sentado na sala do pequeno sobrado velho. A lâmpada está ligada. E ouço algo que queria ouvir faz muito tempo: as canções gravadas em 1938 pela Missão de pesquisas follcóricas enviada para o norte-nordeste do Brasil pelo poeta Mário de Andrade. Estas cantigas me animam tanto a viver. Desde menino penso em fazer uma dessas expedições, como fez o Mário, como fez Euclides da Cunha e Guimarães Rosas. Fico pensando em Guimarães Rosa adentrando o sertão de Minas Gerais com um grupo de vaqueiros. Queria fazer uma expedição no Alto Rio Tapajós para colher histórias e depoimentos de ribeirinhos, migrantes, garimpeiros, fazendeiros e indígenas. Talvez seja o projeto de uma vida.

A verdade é que atualmente fico procurando espaços de tempo para terminar o meu livro de poemas: lugar onde quero experimentar, firmar uma voz como poeta. Poemas antigos recriados e principalmente poemas dos últimos cinco anos. Será uma espécie de antologia de toda a poesia de quase doze anos de labuta. É difícil explicar, uma vez que grande parte nunca foi publicada na internet, nem os esboços. Neste  trabalho, publicarei O livro da embriaguez, reunião de poemas em que assino como Ernesto López. Entre outros trabalhos, em que aparece o vozerio, o fragmento que tece uma só voz. Pelo menos é o que imagino.

Penso que o projeto é para 2013/2014. Preciso encontrar uma editora. Porém, quero concluir o livro ainda este ano. Depois quero me dedicar à prosa e à dramaturgia. Não vejo a hora de escrever um romance. Não vejo a hora.

Mas imagino que estamos condenados à sala de aula. Não leciono no momento. Para sobreviver temos que gastar a maioria do tempo com outras coisas. Vontade de viver de teatro, de viver de literatura. De adentrar o mato e conversar com os meus ribeirinhos, com os meus índios, com os meus caminhoneiros. Sampã, às vezes, é uma chatice.

Kara, quero que saiba que tem uns momentos demorados de sua poesia neste ano que me deixam numa alegria. Li um poema para Monielle D.M. Tem uma força ali. Todas as vezes que adentro em minha própria pesquisa poética fico em choque: O que pode ser novo? Que forma? Eis aí a poesia/performance/visual com tudo. Penso naquilo que você me contou: “A forma pode ser alterada, contudo, é o próprio conteúdo do poeta que dará a forma ao poema”. Esta foi a maior fonte de clarão que descobri nos últimos dias. Muito grato por isso.

Abraço forte, irmão meu.

Utopia & Luta, sempre!

Rudinei Borges

carta: rudinei borges

foto: josé medeiros – xavantes

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