Literatura Brasileira/manifesto literário/Poesia Brasileira/Poesia Rudinei Borges

sim sincretismo

Sou asfalto: poroca: assalto: avenida: aço acre: sou carne sustenida: pataxó: xavante: apiacá: saterê-mawé: filho de oxum, rainha das águas doces: sou Rimbaud: Kerouac: Caio Fernando Abreu: Josef K: Policarpo Quaresma: nasci em Macondo: descobri a escrita através do velho maquinista da Companhia Bananeiras. Já fiz reza para o vento, correnteza, igarapé. Deus me perdoe: já comi ovo de tracajá. Çairé. Çairé. Açaí. Taperebá. Força bruta da alma.

Naná. Nagô. New Orleans. New York. New Jersey. São Luis do Tapajós, onde o menino brincava com o Saci-Pererê e Zé Teles desvendava seringueiras. Juruti. Almerim. Prainha. Monte Alegre. Santarém. Alenquer. Óbidos. Parintins. Todas as cidades às margens do Rio Amazonas, do Missipi, do Rio Ganges. Todas as rezadeiras da procissão de Sant’Ana. Todos os sinos do Círio de Nazaré. Auwê. Axé. Saravá. Saravá. Tacacá. Inhamundá. Anhagabaú. Praça da Sé. Cracolândia. Avenida Nazaré. Rua Cipriano Barata. Lago Lauricocha no sul do Peru. Acarajé. Acarajé. Cidade Nova Heliópolis. Alecrim. Gergelim. Marcel Marceau. Geração Beat. Tristes trópicos. Tropicália. Mangue Beat. The Velvet Underground. Candomblé. Candomblé. Hemisfério sul. Acabou Chorare.

Sou filho de Rosalva Borges, neto de Alzira, bisneto de Eva Lopes. Tamanduá. Tamanduá. Ibiracy. Fred Mercury. Padre Josimo Tavares. Chico Mendes. Irmã Adelaide. Irmã Doroth Stang. Chicão Xucuru. Santo Dias da Silva. Edson Luis. Totó. Pasolini. Sou filho de boto tucuxi. Araçá. Murici. Buriti. Tucuruvi. Jabaquara. Cobra sucuri. Jabuti. Central do Brasil. Queimados. Dendê. Dias Gomes. Flaubert. Tietê. Mandacaru. Munduruku. Pirarucu. Tucunaré. Alter do Chão.

Ela ficava sentada na janela & ria quando o menino passava. Baixada Santista. Baixa da Égua. Baixio das Bestas. Transamazônica. Vicinal dos Doidos. Beirute. Cabul. Mirian Makeba. Cordilheira dos Andes. Goró. Moçoró. Moçoró. Numa praça de Cachoeira eu conversava com Dalcídio Jurandir. Clarão amazônico. Clarão amazônico. Minha oca. Meu chão. Encantaria. Vertigem das aves que voam sobre a várzea. Margem do meu peito aberto ao mundo. Itaituba. Pedra miúda. Pedra menina. Barro na porta das casas. Formiga saúva na folha das mangueiras. Manhã, rebento infindo. Manhã em minhas mãos de menino. Manhã, calidez do meu canto. Cantoria dos botecos. Cantoria das esquinas. Cantoria das capelinhas.

Porto Seguro. Brejo das Almas. Jacareacanga. Cripuri. Trairão. Aveiro. Altamira. Alto Rio Xingu. Xinguara. Carimbó. Carimbó. Catimbó. Macumba. Pajelança. Estação Carandiru. Estação Primeira de Mangueira. Estação Alto do Ipiranga. Marabá. Tapacurá. Jaçanã. Iraxeru. Bogotá. Istambul. Iracema. Capitu. Macabéa. Tieta. Dona Amélia. Maria Moura. Isaura. Minha mãe rezava na gruta escura onde nasceu o Menino Jesus. Minha mãe. Meus irmãos. Meu corpo.

O meu corpo se dissipou no corpo de minha gente. O meu corpo & a cantoria do meu corpo. Corpo: barulho d’água, banzeiro, estrondo. Corpo vivo. Corpo morto. Garça morta na estrada. Árvore em chamas. Espírito de árvore que mora no meu corpo. Floresta sepultada. Minha gente entre cruzes & encruzilhadas: caminhões levam espectros & madeira na escuridão. Campo aberto para o nada. Campo triste sem cipó. Vazio do mundo. Matinta Perera. Matinta Pereira. Mati-Taperê. Mat-Taperê. Matim-Taperê. Titinta-Pereira. Canoa no rio. Curumim na canoa. Curumim na rede.  Manhã. Mañana. Aurora. Tardinha no cais. Vitória-régia. Marajó. Marajó. Mata virgem. Virgem das Graças. Virgem Aparecida. Padre Cícero. Dom Sebastião. Frei Damião. Antônio Conselheiro. Iemanjá. Rio Jurema & Teles Pires. Rio Cururu. Vila Raiol. Rio Cupari. Terra. Gente. Terra. Gente. Olhos de gente em barcos azuis. Pomba-gira. Zé Pilintra. Angola. Afoxé. Ijexá. Agogô. Mestre Thiago de Mello. Bacuri. Tipiti. Palmares. Lundu. Lundu. Luanda. Lua. Jaci. Jacarandá. São Benedito. Irene Preta. Iara. Mandioca. Sinhá. Guaraná. Tupã. Trapiche. Mestre Cupijó. Mestre Vereguete.

Vem, morena. Vem de Canapijó. Vem mostrar pra gente como se dança um carimbó. Vem, mañana. Estrela Dalva. Céu misturado às águas. Tapajós. Tapajós. Ribanceira tênue. Folhas & folhas & folhas dormindo no chão do quintal. Gente luzindo dentro dos barcos. Rosto de minha gente. Lágrima de minha gente. Suor. Labor. Dor. Dor. Estilhaços de minha gente. Fragmento. Mestiçagem. Sincretismo. Cadeiloscópio cingido de mãos & braços & pernas & olhos: corpo entregue ao vento. Fotografia amarelada de quando o menino contava as estrelas. Mulheres partidas. Homens partidos. Voz silenciosa dos cárceres. Voz silenciosa dos casarões. Voz silenciosa das palafitas. Rosário inefável dos pescadores. Rogai por nós todos os santos & pecadores. Putas desvalidas nas corruptelas. Porto de Belém. Mar, imensidão terrível. Silêncio.

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