Artes cênicas/Peter Brook/Teatro

O Teatro Morto

Considerações sobre o Teatro Morto, por Peter Brook, publicadas no livro O teatro e seu espaço, de 1968.

1.

A situação do Teatro Morto é bastante óbvia. No mundo inteiro o público de teatro está definhando. Existem movimentos novos ocasionais, bons escritores novos e assim por diante, entretanto, como um todo, o teatro não só fracassa em elevar ou instruir, mas raramente distrai.

2.

O teatro tem sido frequentemente chamado de prostituta, no sentido de que se trata de uma arte impura. Mas hoje isso é verdade em outro sentido: as prostitutas tomam o dinheiro e dão pouco prazer.

3.

O Teatro Morto penetra na grande ópera e na tragédia, nas peças de Molière e nas peças de Brecht. E não existe melhor lugar para o Teatro Morto se instalar com tanta facilidade, segurança, conforto, do que nas peças de William Shakespeare.

4.

O público procura avidamente no teatro algo que possa considerar melhor que a vida.

5.

Um médico conhece imediatamente a diferença entre um resto de vida e a inútil carcaça que a vida já abandonou. Mas nós temos prática em observar como uma ideia ou uma atividade ou uma forma podem passar da condição de viva para a de moribunda. É difícil definir, mas uma criança pode sentir a diferença.

6.

O que o texto nos diz é o que está escrito no papel e não como a peça foi originalmente trazida à vida.

7.

Uma palavra não começa sendo uma palavra – é o produto final iniciado com um impulso, estimulado por atitude e comportamento, por sua vez ditados pela necessidade de expressão

8.

A palavra é a pequena porção visível de um conjunto gigante e invisível.

9.

E vão pretender que as palavras que aplicamos às peças clássicas, como “musical”, “poética’, “maior que a vida”, “nobre”, “heróica”, “romântica”, tenham qualquer sentido absoluto. São reflexos da atitude crítica de uma época específica, e tentar montar uma peça de acordo com estas regras nos dias de hoje é o caminho mais certo na direção do Teatro Morto: um Teatro Morto com tal respeitabilidade pode até passar como verdade viva.

10.

Num teatro vivo, começaríamos o ensaio diário testando as descobertas do dia anterior, prontos para acreditar que a verdadeira peça nos escapou mais uma vez.

11.

O teatro é sempre uma arte autodestrutiva, sempre escrito no vento.

12.

Todo trabalho tem o seu próprio estilo. No momento em tentamos especificar este estilo, estamos perdidos.

13.

(no teatro) desde o dia em que fica pronto, alguma coisa invisível começa a morrer.

14.

O máximo que uma montagem pode viver, concordamos, são cinco anos.

15.

Toda forma tem que ter que ser reconcebida e sua nova concepção trará as marcas de todas as influências que a cercam. Neste sentido o teatro é relatividade. Entretanto, um grande teatro não é uma casa de modas.

16.

O veículo do drama é carne e osso.

17.

A grande ópera, naturalmente, é o Teatro Morto levado ao absurdo.

18.

Com obstinação, o Teatro Morto cava sua própria sepultura.

19.

O teatro de Stanislavski baseava sua força no fato de corresponder às necessidades dos melhores clássicos russos, todos levados à cena de maneira naturalística.

20.

A palavra teatro não tem um lugar exato na sociedade, nenhum propósito claro, só existe em fragmentos: um teatro corre atrás de dinheiro, outro de glória, outro ainda de emoção, um outro busca a política, outro a diversão.

21.

O ator é embrulhado, jogado de um lado para o outro – desnorteado e consumido por condições fora de seu controle.

22.

Uma companhia permanente está condenada à mortalidade depois de algum tempo se não tem um objetivo, e portanto sem objetivo não tem um método; sem método não tem uma escola.

23.

A arte de representar é num certo sentido a mais exigente de todas, e sem aprendizagem constante o ator pára na metade do caminho.

24.

Um crítico tem um papel muito mais importante, um papel essencial aliás, pois uma arte sem críticos seria constantemente ameaçada por perigos muito maiores.

25.

A terrível dificuldade de fazer teatro tem que ser aceita: é, ou seria, se verdadeiramente praticada com responsabilidade, talvez a mais difícil arte entre todas. Não admite piedade, não há lugar para o erro, ou para o desperdício. Um romance pode sobreviver ao leitor que pula páginas ou capítulos inteiros; enquanto o público teatral, susceptível de passar, num piscar de olhos, do prazer ao tédio, pode ser irreversivelmente perdido. Duas horas é um tempo curto mas ao mesmo tempo uma eternidade.

26.

A incompetência constitui o vício, a situação e a tragédia do teatro mundial em qualquer nível.

27.

Um crítico é geralmente um homem sincero e honesto, profundamente consciente dos aspectos humanos de seu trabalho.

28.

O crítico vital é aquele que já formulou claramente, para si próprio, o que o teatro poderia ser – e que é ousado o bastante para pôr em questão essa sua fórmula, toda vez que participa de um acontecimento teatral.

29.

A única coisa que os teatros podem fazer é uma infeliz escolha entre grandes obras tradicionais ou obras modernas bem inferiores àquelas.

30.

É extremamente difícil escrever uma peça. Um teatrólogo é solicitado pela própria natureza do drama a entrar no espírito de personagens opostos. Ele não é um juiz, é um criador – e mesmo se sua primeira tentativa em teatro abrange apenas duas pessoas, qualquer que seja o estilo, mesmo assim é preciso que ele viva totalmente com ambas.

31.

A recusa francesa à forma do romance foi uma reação contra a consciência do autor.

32.

A melhor literatura inglesa está saindo do próprio teatro: Wesker, Arden, Osborne, Pinter, para usar exemplos óbvios, são todos diretores e atores, bem como autores – e já estiveram trabalhando como empresários.

33.

Estou pensando na quantidade de trabalho novo e criativo que aparece nos filmes, comparando à produção mundial de novos textos dramáticos.

34.

Quando as peças novas se propõem imitar a realidade, ficamos mais conscientes daquilo que aparece nos filmes, comparado à produção mundial de novos textos dramáticos. Quando as peças novas se propõem imitar a realidade, ficamos mais conscientes daquilo que é imitativo do que daquilo que é real; se eles exploram personagens, é raro irem muito além de estereótipos; se é argumento o que oferecem, é raro o argumento ser levado às últimas consequências; mesmo se é uma qualidade existencial que desejam evocar, geralmente não nos oferecem nada além da qualidade literária da frase bem feita; se é crítica social que buscam, ela poucas vezes toca o centro de qualquer alvo social; se o que desejam  é o riso, geralmente o procuram por meios gastos e mais que sabidos.

35.

Em teoria poucos homens são tão livres quanto um dramaturgo.

36.

O dramaturgo pode transportar o mundo inteiro para o seu palco.

37.

Na verdade o dramaturgo é misteriosamente tímido.

38.

O dramaturgo olha o conjunto da vida, e como todos nós, só vê um fragmento minúsculo dela; um fragmento no qual só um aspecto capta o seu interesse. Infelizmente quase nunca procura relacionar este trabalho a qualquer estrutura maior. É como se aceitasse, sem questionar, a sua intuição como completa, a sua realidade como toda a realidade.  É como seu instrumento e a sua força, impossibilitasse qualquer dialética entre o que vê e o que aprende.

39.

Quanto mais o dramaturgo verificar que nunca é o bastante profundo em muitos aspectos da vida, nem profundo o bastante em muitos aspectos do teatro, que seu isolamento necessário é também sua prisão – tanto mais, então, poderá começar a encontrar os meios de reatar elos de observação e experiência que permanecem por enquanto desatados.

40.

O Teatro Morto frequentemente fica à espreita quando o diretor não reconhece esta situação e confia na sorte quando deveria enfrentar o mais difícil.

41.

O Morto sempre empurra, incessantemente, à repetição.

42.

Um diretor morto é aquele que não desafia os reflexos condicionados que inevitavelmente cada setor possui.

43.

Parte do que é chamado teatro em qualquer lugar do mundo é um travesti de uma palavra que já foi cheia de sentido.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s