Campos de Carvalho/Chico Diaz

Quando a lua vem da Ásia

Campos de Carvalho no teatro de Chico Diaz

Por Rudinei Borges

O mundo não tem lógica ou talvez a ordem seja invenção eficaz não-eficaz do ser humano. Mas a denúncia-anúncio do caos não é atitude que qualquer pessoa queira assumir: só o louco e o clown, o palhaço, podem vislumbrar a desordem, a falta de sentido da vida e das coisas. É o que faz o ator Chico Diaz numa reinvenção audaz de A lua vem da Ásia, livro homônimo do escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), espécie de mago oculto: desconhecido das grandes massas: um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos: autor de obras, como Vaca de Nariz Sutil (1961), A chuva Imóvel (1963) e O Púcaro Búlgaro (1964).

O monólogo de Chico Diaz, dirigido por Moacir Chaves, é, sobretudo, o encontro da voz e do corpo de um grande ator com o universo fragmentado de Campos de Carvalho. A adaptação do texto, organizada por Diaz, torna o espetáculo uma mistura de lágrima e riso: não existe impossibilidade quando estamos sozinhos dentro de um quarto num hotel, num presídio, num hospício. É possível encurtar as distâncias mais improváveis e perambular pelo mundo como um andarilho errante. Não há lei. As regras estabelecidas estão fadadas a padecerem no lamaçal da falta de lógica. O humor de Carvalho, neste sentido, é cruel: a sociedade é estanque e mentirosa.

Precisamos rir do diário do louco-palhaço para não acreditarmos que ele fala exatamente do que somos ou fomos ou seremos. Precisamos rir, porque a seriedade imposta e o silêncio fúnebre não são páreos para a certeza de que a existência é uma grande viagem – não importa para onde – e que, na verdade, somos todos inocentes assassinos de professores de lógica, como Astrogildo, o personagem interpretado por Diaz.

Aliás, a interpretação de Diaz tem horas que alcança um quê de sublime, liberdade e leveza que só revelam, mais uma vez, a capacidade criativa desse ator. O movimento, o silêncio, o grito, o olhar e a voz de Diaz são tomados por força e coragem que lembram a concentração de Sérgio Britto em Gravação de Krepp e Ato sem palavras n. I, de Samuel Beckett, encenadas em 2009, e o desempenho de Marat Descartes em O primeiro amor, também de Beckett, peça encenada em 2007. A presença de Chico Diaz no espetáculo acontece com tamanha firmeza que a música e a projeção de vídeos surgem para realçar o que está vivo na própria atuação. A luz precisa de Renato Machado é um dos pontos altos do espetáculo.

A opção por móveis pequenos torna o cenário atraente e coloca todos os objetos na mesma condição: são brinquedos nas mãos do louco-palhaço. O globo é do tamanho de uma pequena bola de futebol. Hora ou outra será manuseado por uma criança sem medo. E pode ser quebrado – sem ressentimentos.

O mundo por um fio: a vida por um fio: esse é o desenho surrealista de Campos de Carvalho: essa é a loucura de Chico Diaz num espetáculo leve e cruel.

Serviço:

Centro Cultural do Banco do Brasil – SP

De 16 de abril a 5 de junho

Entrada Franca

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