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Notas sobre o racismo

Por Rudinei Borges

Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance. (Renato Russo – Fábrica)

O racismo é sobretudo um erro. O próprio termo racismo advém de uma suposição absurda: a existência de raças superiores e inferiores. Também a palavra raça é problemática quando aplicada ao ser humano: “conjunto de indivíduos cujas características corporais são semelhantes e transmitidas por hereditariedade, embora possam variar dum indivíduo para outro”, como define o Dicionário Aurélio. Ou talvez esta definição nos leve a compreensão da existência apenas de uma raça, a raça humana. Interessante que essa palavra, em algum momento, passou a denotar força, garra e determinação. Não obstante, para além da discussão em torno da palavra raça, não podemos negar que, de fato, existe um fenômeno, um problema, a ser analisado, mesmo mediante a sua complexidade: o racismo.

Admitir o racismo como realidade, como ação e como atitude diz respeito à admissão de nosso atraso como civilização. Parece-nos que o significativo avanço intelectual e técnico-científico, grande conquista do esforço humano, convive com um fenômeno, por assim dizer, revelador de nossa mediocridade, a mais baixa das mediocridades: o racismo.  Criar barreiras para a livre convivência com outro ser humano, portador de cultura e traços físicos diferentes dos nossos, alude à vergonhosa declaração de que a humanidade ainda não alcançou maiores patamares quando o quesito é o respeito à dignidade do outro, a alteridade – alteridade no sentido profundo do termo: aproximar-se do outro, estabelecer uma relação verdadeira entre o Eu e o Tu, afirmando a vida atual como encontro, como defende Martin Buber (1878-1965).

O corpo em questão: O racismo compõe as diversas formas de preconceito e concerne numa violência à pessoa humana. Trata-se de um modo de diminuir o outro, de não deixá-lo pronunciar-se enquanto ser, como pessoa, como gente. Além de rejeitar a cultura do outro, o racismo também rejeita o corpo do outro, as feições físicas do outro. O corpo é a manifestação do outro, porque somos especialmente o que é o nosso corpo. O nosso corpo é a nossa linguagem, é por onde vemos e sentimos o mundo. E mais: o corpo interfere no mundo, através do trabalho humano. Vivemos o mundo através do nosso corpo. Assim, ficamos diante de um dos maiores males do racismo: a negação do corpo do outro.

A idéia de raça superior defende que há uma superioridade intelectual e física – esta talvez seja a idéia mais pífia produzida pelo ser humano. Pena que tais acepções tenham vigorado em épocas demoradas da história humana. A escravidão foi justificada graças à crença da existência de raças superiores e inferiores. Muitos povos foram dominados. Muitos genocídios ocorreram em razão disso.

O racismo atualmente é uma prática quase invisível; paira na convivência humana sem que as pessoas admitam. Procura-se vestir o racismo com características outras com o objetivo de descaracterizá-lo e negá-lo. Mas o racismo é e existe como prática violadora dos direitos humanos. Portanto, o racismo é ação, ação contra o outro. Contra a cultura e o corpo do outro.

Quando nos deparamos com uma população negra esquecida nos meandros mais longínquos da periferia, onde não há os elementos básicos para uma vida digna, estamos diante de uma ação racista – não assumida pelas autoridades, nem pela sociedade. Quando negamos aos indígenas, aos negros, aos morenos – para não usar o termo pardo, que é a palavra mais feia da língua portuguesa – acesso às rodas de arte, de cultura e de educação estamos frente ao testemunho real do racismo na sociedade brasileira.

Não podemos esquecer, no entanto, que o racismo é sobretudo crime, ação criminosa. A Constituição de 1988 tornou a prática do racismo crime sujeito a pena de prisão, inafiançável e imprescritível. Todos aqueles que praticam o racismo devem responder por este ato. E todos aqueles que são vítmas deste crime devem denunciá-lo.

Denunciar o racismo não é fato recente. Muitos já empreenderam esta ação em séculos passados. É o caso da gravura do artista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), Castigo Público no Campo de Santana. Trata-se da representação de um país triste, quando os negros eram açoitados em praça pública. Açoitados por brancos e também por negros. Os negros no Brasil foram historicamente humilhados e a gravura de Rugendas mostra esta realidade atroz. Hoje, esta imagem foi trocada pelas páginas de jornais, onde os negros infelizmente protagonizam as fotografias que ilustram a desigualde social do país.

O racismo, sem exageros, é uma espécie de ateliê da crueldade, onde são pintadas imagens de profunda agonia: o corpo humano violentado, a dignidade humilhada e a vida aos poucos esvaindo. As ações afirmativas são um meio legítimo de fomentar o crontrário: o corpo humano respeitado, a dignidade enaltecida, a vida aos poucos vigorando, sempre vigroando. Este é o desafio.

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