Allen Ginsberg

Poemas de Allen Ginsberg

Irwin Allen Ginsberg nasceu no dia três de Junho de 1926 em Newwark (Nova Jersey) e morreu no dia 5 de Abril de 1997 em Nova Iorque. Foi o grande rebelde romântico e poeta anarquista contemporâneo que ficou conhecido pelas loucuras com os seus companheiros Jack Kerouac e William Burroughs. Promoveu uma revolução na linguagem e nos valores literários que transformou-se numa rebelião colectiva. A Geração beat nasceu com o impacto provocado pelo lançamento de Howl and other poems (1956), de On the Road de Kerouac (1957), e de outras obras literárias.

Entrevista com Allen Ginsberg

O Jornal Folha de São Paulo publicou entrevista inédita com o poeta Allen Ginsberg morto, aos 70 anos, em Nova York.  A matéria foi realizada por Eduardo Simantob.

A morte de Allen Ginsberg, ocorrida anteontem, não deixa lacunas. Durante meio século o escritor americano dedicou-se não só a uma extensa obra poética, como também ao ensino da literatura como ato de liberdade e militância político-ambiental. E a mensagem já está dada. Ginsberg escreveu bastante, falou mais ainda e participou combativamente das transformações da América do pós-Guerra. Lutou contra a censura, combateu a proibição do LSD (1966), protestou contra a guerra do Vietnã, contra as armas nucleares e militou pela preservação da natureza.

Em 1994, Ginsberg foi procurado pela Folha para falar sobre o escritor William Burroughs, que na época completava 80 anos de idade. A entrevista, inédita, acabou se estendendo à sua poesia, ativismo e ecologia. A seguir alguns trechos.

Folha – Como o senhor resumiria a importância de William Burroughs na literatura americana?

Allen Ginsberg
– Burroughs tem uma influência na cultura dominante americana muito maior do que ele mesmo imagina. Devido ao processo contra seu livro ”Almoço Nu”, ele abriu as portas da censura para que novos autores escrevessem o que quisessem. Muitos dos seus temas continuam e continuarão importantes, como controle do pensamento, drogas, sexualidade gay, Estados policiais etc. Mesmo na cultura pop, bandas como Steely Dan e Soft Machine devem seus nomes a títulos de livros seus e, mais ainda, à técnica dos cut-ups (colagem de textos e imagens não tão ao acaso, desenvolvida por Burroughs e pelo pintor Brion Gysin nos anos 60).

Folha – E o senhor experimentou também os cut-ups?

Ginsberg – Só no começo, mas essa técnica foi incorporada por vários escritores, como Dennis Cooper e Hunter Thompson, sem falar dos músicos. Os garotos do U2 outro dia vieram me mostrar um videoclipe (da turnê ”Zootour”) influenciados pelo cut-up.

Folha – Mas o cut-up não é uma técnica original, os dadaístas e surrealistas do início do século…

Ginsberg – Sim, eles faziam algo que se chamava ”corpos estranhos”. Dois artistas trabalhavam numa mesma tela sem saber o que o outro fazia, depois juntavam tudo. Mas o cut-up não é um processo inconsciente, é uma forma de dar sentido a esse inconsciente.

Folha – O senhor trabalhava o cut-up na sua poesia?

Ginsberg – Não exatamente. Eu também fotografo e desenho. Nas fotos eu escrevia notas sobre as coisas que estavam acontecendo quando foram tiradas. Ao juntá-las tenho toda uma história contada de um modo não usual.

Folha – Hoje os ”beats” estão virando moda na América, a mídia dando às suas obras um espaço até hoje inédito. Isso é uma surpresa?

Ginsberg – Não. Creio que a obra ”beat” é tão forte que já pode ser tomada como referência literária. Nós tocamos em questões permanentes: o império americano, ecologia, revolução sexual, censura. Também há a questão do ”terceiro caminho”, nem comunismo nem capitalismo, que pregávamos enquanto os intelectuais procuravam extremos do marxismo ou do anticomunismo. Nossa preocupação é alterar estados de consciência e achar soluções ecológicas, não ideológicas.

Folha – Mas isso também pode levar a interpretações variadas do que se diz ou escreve, não?

Ginsberg – Meu negócio é poesia. Ao produzir não posso controlar o que as pessoas farão depois, dizer o que elas devem fazer com suas próprias mentes. E nem gostaria, eu seria um ditador. O melhor que posso fazer é propor alternativas e me abrir às pessoas que queiram aprender comigo.

Folha – E qual é sua principal preocupação hoje?

Ginsberg – O problema básico é o da hipertecnologia consumindo o planeta numa escala que destruirá as possibilidades humanas. Li hoje uma entrevista de Jacques Cousteau (oceanógrafo francês) em que ele diz: ”Estou agora lutando pela minha própria espécie, buscando conceitos para as gerações futuras”. Para ele, o divórcio entre a humanidade e a natureza é irreversível, mas o homem deve se lembrar que ainda depende da natureza. Mas, como eu, ele tem esperança no futuro.

Folha – E há futuro na literatura americana?

Ginsberg – Há um presente. Quem estiver escrevendo, em qualquer língua, está levando a literatura para frente, mas deve sempre se lembrar que a imortalidade só vem depois.

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Poemas de Ginsberg

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Uivo

.

[Tradução: Cláudio Willer]

.

Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,  

morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca  

de uma dose violenta de qualquer coisa,

“hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato  

celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando  

sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-  
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das  
cidades contemplando  jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram  

anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados  
das casas de cômodos,

que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes  

alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake  
entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-  

carem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-  

da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas  
de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo  

com um cinturão de marijuana para Nova York,

que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-  

tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-  
sos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-  

lhos e intermináveis orgias,

incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão  

na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá &  Pa-  
terson, iluminando completamente o mundo imóvel do  
Tempo intermediário,

 solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal  
         com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-  
         lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de  
           neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-  
         brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de  
         inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a  
         suave soberana luz da mente,  
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável  

percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até  
que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,  
trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do  
cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-  
lógico,

que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s,  

voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no  
desolado Fugazzi’s escutando o matraquear da catástrofe  
 na vitrola automática de hidrogênio,

que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao  

bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,

batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-  

dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas  
do Empire State da lua,

tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-  

ças  e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os  

olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-  
ga jogada na rua,

que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-  

xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro  
Cívico de Atlantic City,

sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos  

enxaquecas da China por causa da falta da droga no  
quarto pobremente mobiliado de Newark,

que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-  

roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-  
ções partidos,

que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,  

vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve  
até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e  

bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus  
pés em Kansas,

que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos  

índios e visionários,

que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu  

em êxtase sobrenatural,

que pularam  em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-  

so da chuva de inverno  na luz da rua da cidade pequena  
à meia-noite,

que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz  

ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para  
conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e  
assim embarcaram num navio para a África,

que desapareceram nos vulcões do México nada deixando  

além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a  
cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,

que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e  

bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas  
peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra  

o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,

que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,  

chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos  
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam  
pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-  
land,

que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e  

trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos  

carros de presos por não terem cometido outro crime a não  
ser sua transação pederástica e tóxica,

que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-  

do sacudindo genitais e manuscritos,

que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e  

urraram de prazer,

que enrabaram e foram  enrabados  por estes serafins humanos, os  

marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

que transaram pela manhã  e ao cair da tarde em roseirais, na  

grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-  
mente seu sêmem para quem quisesse vir,

que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-  

ram choramingando atrás de um tabique de banho turco  
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,

que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino, 

a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e  a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando  os dourados fios do tear do artesão,

que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,  

uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final  e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

que adoçaram trepadas de um milhão  de garotas trêmulas  

ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-  
te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros  e nus no lago,

que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados  

à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão  
e Adonis de Denver – prazer ao lembrar de suas incontáveis  
trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos  
fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-  
ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas  
ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias  
solitário  á beira da estrada & especialmente secretos solip-  
sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade  
natal também,

que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados  

em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-  
ram voltar com uma impiedosa  ressaca de adegas de  
Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-  
da & cambalearam até as agências de emprego,

que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue  

pelo cais coberto por montões de neve, esperando que  
se abrisse uma porta no East River dando num quarto  
cheio de vapor e ópio,

que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-  

mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &  
suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,

(…)

[Ginsberg e Bob Dylan]

.

Arte é ilusão, pois eu não ajo

.
Fico ou Parto – com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.

Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.

Neste estado não mundano em que me movimento 
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.
.

Um Supermercado na Califórnia 

.

Muito venho pensando em ti nesta noite, Walt Whitman,
enquanto caminho pela calçada sob as árvores, com uma incômoda
dor de cabeça e olhando a lua cheia.

Em meu faminto cansaço, e fazendo compras na imaginação, fui
ao supermercado de néon e frutas, sonhando com tuas listagens!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates e bebês nos tomates! – e, você, Garcia Lorca,
que estava fazendo diante dos melões?

Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes do refrigerador e lançando olhares
aos jovens vendedores.

Te ouvi perguntar a eles todos: quem matou as costeletas
de porco? qual o preço das bananas? quem é meu Anjo, tu?

Vagueei por entre as prateleiras brilhantes de latas,
te seguindo e sendo seguido pelo detetive da casa, em minha 
imaginação.

Percorremos os grandes corredores, juntos em nossa solitária
fantasia, provando alcachofras, pegando todas as delícias congeladas, sem passar pela caixa.

Para onde estamos indo, Walt Whitman? Dentro de uma hora
as portas se fecham. Qual o caminho que tua barba hoje aponta?

(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado – e me sinto absurdo.)

Iremos caminhar a noite por todas essas ruas solitárias? As
árvores acrescentam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas, ambos estaremos sozinhos.

Andando e sonhando com a América perdida de amor, passaremos
por automóveis azuis no estacionamento a caminho de nosso solitário refúgio?

Ah, querido pai, de barbas cinzas, velho e solitário professor 
de coragem, que América te conheceu quando Caronte desistiu de 
empurrar seu barco e desceu-te na margem enfumaçada e ficou 
vendo o barco desaparecer nas negras águas do Letes?
.

Presença em Gales 
.
Neblina fina que sobe o morro e descamba 
rios de vento que alisam árvores. 
De cada 
nuvem que ondula explode e passa um mesmo giro fundo evapora 
por cima de samambaias que prendem 
a pedra verde em franja mansa 
vista através da vidraça enquanto chove no vale 
Bardo, ó ser, Visitacione, não fale 
nada ou então diga somente o que esse homem já viu num vale em Álbion 
um povo cuja ciência termina na coerência ecológica 
das sábias relações terrestres 
dez séculos de trama tecida de olhos bocas visíveis 
pomares da linguagem da mente humanifesta 
um cardo em simetria satânica uma planta eriçada 
florindo no chão veloz sobre um centro 
de leves margaridas irmãs angelicais como lampadas – 
Além de Londres sua torre de espinhos suas cenas simétricas 
de TV em cadeia & o Ser do Bardo barbado, onde lembrar 
um dia como hoje no morro a nesga de carneiros balindo árvores 
no ouvido do velho Blake & a velha calma de Words –
worth com os mudos pensamentos nela 
nuvens no esqueleto dos arcos passando em Tintern Abbey – 
Bardo Sem Nome do vasto assombro de tudo, rumor! 
Uma só coisa, o vale se esticava tremendo, o vento 
deitava em lençóis de musgo, 
grande força redonda que afogava a neblina na água fina vermelha 
dos riachos da encosta 
cujas ramas se torciam caladas 
calcadas em mistura granítica – 
e erguia também do chão o Espaço Nébulo erguia o braço 
das árvores e o capim do instante 
mantinha erguidos os carneiros parados 
alçava, numa onda solene, o dorso verde 

Sólido pedaço no Céu, gota de vale, 
toda a imensidão diminuta rolando em Llanthony Valley,
em toda a área da Inglaterra coesa, vale em vale, sob o risco 
das doces toneladas do oceano do Céu 
Céu que se equilibra num fiapo de grama 
urro do morro vento lento e esse corpo 
um Ser, um perto Algum, visão da encosta 
cosendo em brilho e calma os equilíbrios fluindo, 
um gesto vara o escuro céu-chão e são milhões de margaridas que o fazem, 
é o gesto de uma Força Serena que induz o mato molhado 
até a rama mais distante de neblina fina aspergida 
na corola do morro – 
Nenhuma imperfeição no morro em flor 
Os vales respiram, céu e terra andam juntos 
margaridas engolem polegadas de ar verduras vergam 
átomos piscantes vegetam no capim em mandalas 
manchas espalhadas ruminam com olhos de carneiro vazios 
cavalos dançam na chuva quente 
árvores ladeiam canais em rede viva nos campos 
ermos paredões frutificam 
seios de espinheiros desabrocham colinas 
passam roceiros ermos cuspindo samambaias e ervas – 
passar entrar cair rolando no oceano de sons, rajadas 
cair no chão ó mãe ó grã-Mãe Úmida, jamais uma lesão em teu corpo! 
Pare vendo de perto, nada é imperfeito no mato, 
todaflor cada olhoflor um Buda, e a história se repete, 
a alma multiforme ajoelha 
perante botões quentes inquietos erectos, sinos 
dobrados no caule trêmula antena, 
& olhe vendo de dentro nos carneiros que espiam 
paradamente respirando sob folhas e gotas – 
Deito e misturo a barba no morro em pelo viscoso 
cheirando ileso o chão-vagina provando 
úmidas emanações violetas de penugem de cardo –
Um ser tão vasto, em tão vertiginoso equilíbrio, que seu sopro mais fino 
afasta no assoalho dos olhos a flor mais quieta do vale 
treme em rendas de águateias na lãcapim dos carneiros 
suspende copas e raízes, pássaros na grande corrente 
levando o mesmo peso na chuva, a força eclusa 
gemendo chamando terra 
coração, junção de espantos. 
O grande mistério é o não-mistério 
os sentidos correspondem aos ventos 
o visível é visível 
o vale em ondas anda com uma barba de chuva 
átomos cinzentos desaguam na cabala do ar. 
A mente está de pernas cruzadas 
imóvel numa pedra e respira 
está elástica no capim mole e respira 
na beira de margaridas brancas na estrada. 
O sopro do Céu desce ao umbigo, 
minha própria simetria descamba, sopram samambaias rasgadas 
cujas frondes me aspiram, sopra o mesmo agora 
vento de Capel-Y-Ffn, sons de Aleph e Aum 
na vegetação dos ossos 
na massa de cartilagens-paisagens 
crânios e colinas iguais numa só Álbion. 
Que foi que eu vi? Detalhes. A 
visão do grande Um pluriforme – 
marcas de fumaça subindo 
no calor silencioso da casa 
marcas de uma noite que embarca 
vazia de estrelas 
porém ainda molhada de gestos no céu preto dos ventos. 
.
Sutra do Girassol 
.
Caminhei nas margens do abandonado cais de lata onde outrora 
descarregavam banana e fui sentar na sombra enorme de uma locomotiva lá perto 
para olhar e chorar o sol morrendo em ladeiras sobre as casas todas iguais. 
Jack amigo Kerouac sentou-se ao lado no ferro de um mastro roto partido 
e a gente caiu na maior fossa do mundo, os dois ilhados, dois contidos 
na rede das raízes de aço, 
e eu e Jack pensando os mesmos pensamentos da alma. 
No rio a correnteza de óleo refletia o céu rubro, o sol caía 
pelas alturas finais de San Francisco, sem que houvesse 
peixe nessas águas, sem que houvesse um ermitão nas montanhas, só a gente 
com olhos de ressaca e remela, feito vagabundos, cheios de astúcia e cansaço. 
Olha só um girassol, Jack então disse, e havia o vulto inerte e cinzento 
seco, do tamanho de um homem, recostado 
num monte milenar de serragem. 
– Eu pulei de alegria e era o primeiro girassol de minha vida, eram memórias 
de Blake – essas visões – o Harlem 
e os rios do inferno-leste, sanduíches indigestos trotando 
um ranger de pontes, carrinhos de bebê encalhados, esquecidos 
pneus de bojo negro careca, penicos 
& camisas-de-vênus, o poema da margem, canivetes, nada inox, só o mofo 
o lixo de tantas coisas cortantes cujo fio passava 
para o passado – 
e o cinzento girassol se equilibrando ao sol-posto, 
desmanchando-se abatido na invasão da fuligem, da fumaça, do pó 
de velhas locomotivas no olho – 
corola e também coroa com as pontas amassadas virando, com sementes 
despencando do rosto, rompendo em breves dentes um dia 
claro, raios de sol grudando em seu cabelo riscado 
como uma exangue teia de aranha de arame; 
caule com braços-folhas jogados, os gestos da raiz de serragem, 
pedaços de reboco minando nos galinhos queimados 
e uma mosca estagnada no ouvido, 
você de fato era uma incrível coisa imprestável, ó meu girassol minha 
alma, e como eu te amei então! 
sujeira não era parte do homem, era a parte da morte e das locomotivas 
humanas,
simples roupa empoeirada, o simples véu da pele férrea, a cara 
da fumaça, as pálpebras da escura miséria, a mão 
ou falo ou tumor mortiço do imundo motor moderno industrificial disso 
tudo, o bafo da civilização poluindo 
tua coroa muito louca de ouro – 
esses turvos pensamentos de morte, a grande falta 
de amor em fins e olhos tapados, raízes abafadas em areia 
e serragem, os dólares raspantes elásticos, o couro das máquinas, as 
tripas enroscadas de um carente carro que tosse, as solitárias 
latas baratas com línguas rotas de fora, e o que mais seja, a cinza 
que escorre pela boca na ereção de um charuto, a boceta 
de um carrinho de mão, ou os seios acesos de viaturas lácteas, o rabo gasto 
que as cadeiras expelem, o esfíncter dos dínamos – tudo 
isso embolado nas raízes-múmias – 
e você aí de pé na minha 
na tarde da minha frente, a sua glória em sua forma! 
beleza perfeita, um girassol! uma tranqüila e girassol existência 
excelente e perfeita! um olho doce natural para a melancolia da lua 
nova, desperto vivo excitado 
sacando no crepúsculo sombra a brisa mensual de ouro aurora! 
enquanto você lançava blasfêmias 
para o céu da via férrea e sua própria floralma, 
quantas moscas zumbiram na sua extrema imundície 
sem ligar para nada? 
Quando, flormortapobre, você esqueceu que é uma flor? 
quando olhou sua pele e decidiu que era a velha 
suja locomotiva impotente? o fantasma de uma 
locomotiva? o espectro e sombra de uma já poderosa 
locomotiva americana maluca? 
não, girassol, você não foi locomotiva nunca, você foi sempre um girassol! 
você, locomotiva, você é o motivo louco de sempre, a locomotiva! 
pensando isso peguei o grosso girassol esqueleto e o finquei a meu lado 
como um cetro 
fiz o meu sermão à minha alma, e também à de Jack, e tambérn à de todos 
que ainda queiram ouvir: 
Não somos a sujeira da pele, não somos nossa locomotiva medonha triste 
poeirenta com ausência de imagem, nós somos todos uns lindos girassóis 
por dentro, somos sagrados por nossas próprias sementes & 
peludos pelados dourados corpos de ação virando girassóis ao crepúsculo 
loucos girassóis formais e negros que esses olhos espiam 
na sombra da locomotiva maluca margem beira 
San ladeiras Francisco 
tarde de lata 
sol-posto sentar-se vision.

[Os poemas acima foram traduzidos por Leonardo Fróes, com exceção de “Uivo” que foi traduzido por Cláudio Willer]

2 pensamentos sobre “Poemas de Allen Ginsberg

  1. Pingback: 1 entrevista e 7 poemas essenciais para conhecer Allen Ginsberg - NotaTerapia

  2. a literatura de ginsberg,burroughs,kerouac.bukowski e outros da chamada geração beats, estarrece; assombra;assusta, então, deslumbra,norteia e vicia.

    Fabinho de Porto Belo, na Santa e bela Cátia. 11.07.2012.

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