Geração Beat/Lawrence Ferlinghetti

Essencial de Lawrence Ferlinghetti

Quem é Lawrence Ferlinghetti

Lawrence Ferlinghetti nasceu em Yonkers, Nova York, em 1919. Seu pai, o italiano Carlo Ferlinghetti, morreu antes de ele nascer, e sua mãe foi internada por problemas nervosos quando ele era muito pequeno. Ferlinghetti foi criado por uma tia materna e passou os cinco primeiros anos de vida na França. Após voltar para os Estados Unidos, passou por várias escolas até ingressar na University of North Carolina, na qual estudou jornalismo. Publicou suas primeiras histórias na Carolina Magazine.

No verão de 1941, morou com dois amigos numa pequena ilha no Maine. Essa experiência o aproximou do mar, que se tornou um dos temas recorrentes em sua obra. Logo depois entrou para a Marinha; serviu durante a Segunda Guerra Mundial, participando, inclusive, da invasão da Normandia. Logo após a guerra trabalhou por um breve período na revista Time, antes de retomar os estudos e ir para a Columbia University, e nela o obter o grau de mestre em literatura inglesa, em 1947. Seguiu para a França e doutorou-se pela Sorbonne em 1950, com menção honrosa.

Ao voltar para os EUA em 1951, instalou-se em São Francisco e passou a dar aulas de francês, traduzir, pintar e fazer crítica de arte. As primeiras traduções foram publicadas na revista cultural City Lights por Peter D. Martin, que em 1953 se tornaria seu sócio na antológica livraria City Lights. Um ano depois da saída de Martin, Ferlinghetti fundou a editora City Lights, pela qual publicou seu primeiro livro, Pictures of the Gone World, primeiro volume da Pocket Poets Series. O quinto número dessa coleção foi o emblemático Uivo, de Allen Ginsberg. A partir de então a editora ficou conhecida por publicar os grandes autores beat, como Jack Kerouac, Gregory Corso e William Burroughs. Porém, a publicação de Uivo trouxe problemas para Ferlinghetti, que foi preso e acusado de obscenidade. O julgamento – favorável à editora – só trouxe mais publicidade para os autores beat e para a livraria, que completou meio século em 2003 e continua um ponto de encontro de escritores, artistas e intelectuais.

Mesmo que o estilo literário, a temática e o modo de vida não façam de Ferlinghetti exatamente um beat, ele comumente é identificado como integrante dessa geração de escritores. Kerouac eternizou o amigo em Big Sur, romance autobiográfico no qual Ferlinghetti aparece com o nome de Lorenzo Monsanto, retratado como uma figura generosa e bem-humorada.

A poesia de Ferlinghetti tem como temas principais a beleza do mundo natural, o tragicômico da vida do homem comum, a questão do indivíduo na sociedade de massa e o sonho – e a frustração – da democracia. Entre suas influências figuram T. S. Elliot, Ezra Pound, e. e. Cummings, Proust e Baudelaire. Sua obra desafia a definição de arte e também o papel do artista no mundo, e conclama os outros escritores a se engajarem na vida política e social.

Um parque de diversões da cabeça (A Coney Island of the Mind, frase tirada do livro Into the Night Life, de Henry Miller), publicado em 1958, é ainda a mais conhecida de suas obras, tendo sido traduzida para diversas línguas. Mas, desde a década de 1950, Ferlinghetti não parou de publicar. Além de títulos de poesia como Pictures of the Gone World (1955) e Back Roads to Far Places (1971), publicou Her (1960), Tyrannus Nix? (1969), de prosa, e Unfair Arguments with Existence (1963) e Routines (1964), peças. Seus livros mais recentes são A Far Rockaway of the Heart (1997), How to Paint Sunlight (2001) e Americus Book I (2004). Ferlinghetti recebeu inúmeros prêmios e foi eleito em 2003 para a prestigiosa American Academy of Arts and Letters.

[Geração Beat – At the Cafe Trieste, North Beach, San Francisco, 1975. Left to right: Lawrence Ferlinghetti, Minelte Le Blanc, Peter Le Blanc, Allen Ginsberg, Harold Norse, Jack Hirschman & Bob Kaufman. Photo by Diana Church.]

Um parque de diversões da cabeça

Considerado por muitos o melhor livro de Lawrence Ferlinghetti, Um parque de diversões da cabeça (1958) é o segundo livro do autor, fundador da editora e livraria City Lights (em funcionamento até hoje), que lançou grande parte dos autores beat e mudou os rumos da literatura americana da década de 50.

A  grande obra poética de Ferlinghetti celebra os elementos banais do dia-a-dia, a gíria das ruas, a vida simples e também seu amor pela arte. É um compêndio de memórias, impressões e fragmentos líricos. O olhar de pintor realça o cenário americano da época, a espiritualidade e a beleza intrínseca a tudo. Evoca Dante, Goya, Chagall, Kafka, Yeats, Hemingway para compor esse “parque de diversões da cabeça”. Esse título, extraído do livro Into the Night Life, de Henry Miller, segundo o próprio Ferlinghetti é usado fora do contexto original, mas expressa o que ele sentia ao escrever os poemas, algo como um “circo da alma”.

Esta “poesia andarilha”, como Ferlinghetti a definiu, tem muito de E. E. Cummings, Ezra Pound e Eliot, que se deixam sentir nos três grupos de poemas de Um parque. Na primeira parte, Ferlinghetti grita para o mundo os absurdos da cultura americana e denuncia a sociedade de massas. Já na segunda, as “Mensagens orais”, encontramos discursos espontâneos concebidos para acompanhamento jazzístico. O fechamento se dá com “Retratos do mundo que se foi”, grupo de poemas selecionado do primeiro livro do autor, Pictures of the Gone World, publicado em 1955 pela City Lights.

A força da alma beat: entrevista com Claudio Willer no Correio Brasiliense

[01 de julho 2009]

O poeta e tradutor Claudio Willer lança ensaio sobre a geração de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, e em entrevista ao Correio Braziliense, garante: “O inconformismo está encontrando novas formas de se expressar”.

O jovem poeta Claudio Willer, na São Paulo do início dos anos 1960, caçava obras de Jack Kerouac pelas livrarias. Conseguiu edições de bolso, importadas e quentinhas, de On the Road e Dharma bums. Os livros circularam entre os amigos. E o poeta Roberto Piva mandou trazer do exterior uns volumes de Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso. Então Willer e Piva sentaram a traduzir aqueles poemas todos. Traduzir para eles próprios. “Tínhamos que saber afinal o que estava escrito ali”, Willer sorri.

O inglês de Claudio Willer emperrou na prosódia de Jack Kerouac, escritor de origem franco – canadense que despudoradamente adotava um inglês coloquial como segunda língua. Mas os conhecimentos de Willer da língua inglesa permitiam que ele vencesse as obras completas de Allen Ginsberg. Um par de décadas mais tarde, On the road ganhou sua versão brasileira pela Editora Brasiliense. Uivo, de Ginsberg, recebeu sua primeira edição nacional pela L&PM, nas palavras do poeta e tradutor Willer. Meados dos anos 1980. A recente redemocratização brasileira permitia tais liberdades e até Almoço nu, a obra labiríntica de William S. Burroughs, teve sua edição nacional. Willer e outros intelectuais apresentaram aqueles personagens aos leitores brasileiros com o volume Alma beat, uma compilação de ensaios e prosas diversas.

Beat, em inglês, de “ferrado”. E também beat de “beatitude”, lembra Claudio Willer, apegando-se à definição primeira apresentada por Jack Kerouac (1922-1969). Segundo a exata definição de Willer, Kerouac foi “o personagem beat por excelência”. Como escritor, criou a prosa beat. Como pessoa, tinha a atitude rebelde necessária. E como personagem, encarnava o espírito de sua época. Kerouac, o autor do clássico moderno On the road (1957), responsável pelo fenômeno beat, o fenômeno que fez de uma vanguarda literária um movimento social.

Jack Kerouac é um dos personagens fundamentais dessa história. Uma história definidora da cultura (contracultura) do século 20. Willer conta essa aventura coletiva no livro Geração Beat, que está sendo lançado pela L&PM. Rara oportunidade de o leitor brasileiro tomar contato, em bom português, com uma leitura atenta e sensível sobre a estética beat, suas influências e efeitos. Além de seus personagens principais.

O encontro entre o poeta Allen Ginsberg (1926- 1997), o romancista William S. Burroughs (1914-1997) e Jack Kerouac formou, ainda no final dos anos 1940, o núcleo dos beats. Cada qual com seu estilo particular, suas opções estéticas e políticas. Todos, no entanto, compartilhando uma camaradagem que extrapolava a vida pessoal e se fazia imprimir nas obras. Cada um a influenciar a escrita e o pensamento dos outros. Mais do que isso: cada um deles tornando-se personagem das narrativas alheias.

Assim como o aventureiro Neal Cassady (1926- 1968), um malandro de rua tornado escritor com O primeiro terço. Cassady escreveu pouco, quase nada, mas foi fundamental na turma. Inspirou versos apaixonados de Ginsberg. Tornou-se herói mítico na pele de Dean Moriarty, personagem que é a força-motriz de On the road. Willer conta as histórias desses personagens da vida real em Geração beat. Ele os apresenta a toda uma nova geração de leitores. E preenche lacunas de conhecimento para aqueles que já estão familiarizados com esses nomes. Até porque seu livro é parte do boom editorial que, nos últimos anos, devolveu esses autores às livrarias brasileiras.

Claudio Willer, 68 anos, recebeu a reportagem do Correio Braziliense em seu apartamento, no bairro paulistano da Bela Vista, para falar sobre a geração beat.

Correio Braziliense – Claudio Willer, você usa em seu livro o termo “geração beat” em vez de, por exemplo, “movimento beat”. Por quê?

Claudio Willer – Esse era o termo que Jack Kerouac usava. Foi o termo que ele usou em uma conversa com o escritor John Clellon Holmes, o termo que ele escrevia em seus diários e que depois apareceria em On the road. Ele achava que fazia parte, com seu grupo de amigos, de uma geração beat em contraposição à lost generation, a “geração perdida”, a geração anterior, de F. Scott Fitzgerald. E Kerouac faz uma polissemia.

Ele usa beat no sentido de batido, ferrado, tanto quanto no sentido de beatitude. Inclusive essa duplicidade de sentidos está no On the road. Quando ele chama Neal Cassady de “beat” num trecho em que ele diz que Neal é um santo, na razão direta da irresponsabilidade, das sacanagens que ele fazia. É um trecho paradoxal, bastante dostoievskiano.

Correio Braziliense – E esse termo “geração” também passa uma ideia de grupo fechado. Reforçando a amizade, de cumplicidade entre os autores, que você enfatiza no livro.

Claudio Willer – A essência da geração beat é a amizade. Eles eram muito diferentes uns dos outros. Mas a amizade é essencial ao uni-los. A amizade e, obviamente junto a ela, o inconformismo e a inquietação. Havia essa relação profundamente fraterna, de cumplicidade.

E até mais do que isso. Há vários episódios sexuais entre eles, inclusive aquela loucura sexual de desdobramentos de Kerouac e Ginsberg envolvendo Neal Cassady e as mulheres dele. É algo que interessa porque vai além da crônica de costumes.

Tem vários outros sentidos. Há um sentindo simbólico claro. Eu diria que há um compartilhar total: de textos, de leituras, de informações, de viagens, de diálogos, de corpos. Talvez seja uma abolição de sentidos entre o simbólico e o corporal. Essa é uma das interpretações possíveis.

Correio Braziliense – Kerouac, Ginsberg e Burroughs são os autores mais reconhecidos da geração. Mas qual a importância de Neal Cassady?

Claudio Willer – Neal Cassady era esse personagem controvertido. Burroughs não suportava ele, achava ele agitado demais. Cassady realmente aprontava demais, dava desfalque, mentia para os amigos. A questão não é o Cassady, mas a mitificação de Cassady por Kerouac, que se mostrou literariamente produtiva, e a atração física de Ginsberg por Cassady, que também se mostrou literariamente produtiva.

Neal Cassady tinha um talento verbal. Certamente tem mais de Cassady nas cartas que ele escreveu e no Visions of Cody, onde Kerouac transcreveu uma fita com a conversa de Cassady em trinta páginas, do que no único livro que Cassady escreveu (O primeiro terço), que traz um texto relativamente convencional, com um ou outro trecho mais coloquial.

Então o Cassady historicamente importante acaba sendo o Cassady visto por Kerouac e Ginsberg. O personagem ultrapassou a pessoa.

Correio Braziliense – Como se deu a polarização dos beats entre Nova York e São Francisco?

Claudio Willer – Nova York já era o centro do mundo. Era onde as coisas aconteciam. E São Francisco, mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, com um milhão de habitantes, já era um local de cultura de resistência, já tinha uma tradição cultural, era um lugar mais aberto. A beat então se forma em Nova York e vem a público em São Francisco. E aí retorna a Nova York quando Ginsberg pega os textos dos autores de São Francisco e leva para os agentes, os editores, as revistas literárias da Costa Leste.

Mas agora… Não foi uma relação inteiramente pacífica a relação entre Ginsberg e o núcleo da Califórnia, como Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure, Gary Snyder. Porque de repente Ginsberg se viu deslocado, não era mais o líder de um movimento geracional. De repente, Nova York e ele deixaram de ser o centro da vanguarda poética, com o surgimento da San Francisco Renaissance de Robert Duncan. Houve esse momento.

Correio Braziliense – E a beat deixou de ser vanguarda para ser pop…

Claudio Willer – Eu estive em Los Angeles e em São Francisco em 1963. Te diria que em Los Angeles, o bairro de Venice West, um bairro na época bonito, à beira mar, era um bairro. A população era predominantemente beatnik. Barbudos vestindo jaquetas militares de segunda mão, frequentando leituras de poesia, vivendo de artesanato e de pôsteres de silk screen. Era um bairro inteiro assim, como North Beach em São Francisco e o Village novaiorquino, que já era ponto boêmio. A expansão beat foi fulminante. Entre as publicações de On the road e Uivo e essa adesão maciça correu pouquíssimo tempo. Em 1958, o jornal San Francisco Chronicle já falava em beats no coletivo.

Correio Braziliense –  A que se deve esse fenômeno?

Claudio Willer – Um fator decisivo para isso é a derrota da censura a obras literárias a partir da vitória no processo contra Uivo. Acho que para interpretar isso deve-se pensar como historiador, como sociólogo. Será que não faz parte da dinâmica da sociedade burguesa essa maior abertura? Assim como a sociedade capitalista precisava da social democracia, senão ia explodir, ela não precisava também de maior abertura? Para continuar a existir, será que não precisava desistir do controle direto sobre o comportamento? Quer dizer… Que tipo de dinâmica histórica subjaz a essa explosão, a essa repentina abertura? Esse é um tema complexo de sociologia que ainda não foi suficientemente examinado. Marx entendeu essa dinâmica da sociedade do capitalismo, essa mobilidade que a diferencia de outros modos de produção. Mas cabe uma revisão do marxismo. Porque, de repente, saiu de cena o proletariado e entrou o lumpen como categoria associada ao novo. Porque Cassady e Corso haviam sido típicos lumpens, moradores de rua. E Ginsberg, Kerouac e outros praticavam o lumpesinato voluntário. Eles viveram como marginais, né? Acho que essa associação do beat ao lumpen, que segundo Marx seria o extrato social inaproveitável para a revolução, é uma pista para pensarmos o fenômeno sociologicamente. O lumpen positivo.

Correio Braziliense – Os escritores anteriores que tinham optado por esse lumpesinato foram revalorizados pelos beats

Claudio Willer – Claro. Esses escritores aventureiros foram recuperados. Como Jack London. O autor mais representativo, mais importante literariamente, nessa linha é Walt Whitman. O poeta errante, vagabundo errante. Whitman se colocou fora da estrutura de classes, à margem. Não era mais nem burguês, nem proletário. Ele criou um novo ator social, que os beats adotaram.

Correio Braziliense – Qual o apelo dessa atitude hoje?

Claudio Willer – Tenho a impressão que… Com o esgotamento do paradigma marxista ortodoxo, da ideia de militância política como caminho para transformar o mundo, os jovens hoje estão procurando outras coisas, estão indo às raízes do pensamento utópico e suas formas de expressão contemporânea. Sei que essa é uma generalização colossal, não é? Mas podem ser manifestações pós-queda do Muro de Berlim… O que não significa que o mundo mergulhou no conformismo. Ao contrário. Significa que o inconformismo está encontrando novas formas de se expressar. Novas formas de rebelião individual. Eu tenho observado o que vem acontecendo desde 1960 e sou otimista. Sou otimista porque o mundo atual e a ameaça de fim de mundo apresentam questões que pedem novas respostas. E aquilo tudo que a vida em sociedade num mundo urbanizado tem de insuportável também pede resposta.

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[Allen DeLoach, Tom Pickard, Ron Silliman, Lawrence Ferlinghetti e Bob Creeley]

[Lawrence Ferlinghetti]

Poemas de Lawrence Ferlinghetti

……………1

Nas melhores cenas de Goya parece que vemos
…………………………………………….as pessoas do mundo
……..no exato momento em que
…………………..pela primeira vez elas ganharam o título
…………………………………………..de ‘humanidade sofredora’
……..Tais pessoas se contorcem na página
…………………………………………num verdadeiro acesso
…………………………………………………………de adversidade
……..Amontoadas
…………………..gemendo com bebês e baionetas
………………………………….sob um céu de cimento
…….pela paisagem abstrata de árvores bombardeadas
………………..estátuas decaídas asas bicos de morcegos
………………………………………………patíbulos escorregadios
………………………………….cadáveres galos carnívoros
…….monstros finais berrantes todos
……………………da
……………………………….‘imaginação do desastre’
…….tão danados de reais
…………………………….. que até parece que ainda existem
…….E existem mesmo
…………………. Só mudou a paisagem

Todos continuam em fila nas estradas que estão
…….infestadas de legionários
…….falsos moinhos de vento e grandes galos dementes

E são aquelas mesmas pessoas
…………………………………..apenas mais distantes de casa
…….e em estradonas de cinqüenta pistas
………………….num continente de concreto
…………………………….demarcado por pencas de cartazes
…….que ilustram ilusões imbecis de felicidade
A cena mostra menos carretas para a forca.

trad. Leonardo Fróes

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……………4

Num ano surrealista
………………………de homens-sanduíche e banhistas ao sol
……………………………………girassóis mortos e telefones vivos
……………políticos amestrados repartidos em partidos
……………realizavam seu número de costume
……………no picadeiro de seus circos de serragem
……………onde acrobatas e homens-bala
…………………………………… enchiam o ar como um lamento
………………………quando algum palhaço premiu
……………por pilhéria o botão de um cogumelo incomestível
e uma inaudível bomba de domingo
…………………………………………………… explodiu
surpreendendo o presidente em suas orações
………………………no décimo nono buraco do campo de golfe

Oh era uma primavera
……………..de folhas de peles selvagens e flores de cobalto
enquanto cadillacs caíam como chuva entre as árvores
………………………encharcando com demência os relvados
e de cada nuvem de imitação
……………………………………escorriam multidões múltiplas
…………………………de sobreviventes de nagasaki desasados

……………E ao longe perdidas
……………flutuavam xícaras
……………repletas com nossas cinzas

trad. Eduardo Bueno

.

……………7
Que poderia ela dizer para o ursinho fantástico
Que poderia ela dizer para o irmão
que poderia ela dizer
………………………………………… para o gato de pés futuros
que poderia ela dizer para a mãe
depois daquela vez em que deitou toda tesa
…………………………………………….entre as flores bambas
……..da margem quente de um rio
……..onde caíam samambaias em leque no ar quebrado
……………………………… do hálito do seu namorado
e os passarinhos muito doidos
……………………………… se jogaram das árvores
para provar ainda quente no chão
………………………………a semente de esperma arremessada
trad. Leonardo Fróes

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……………10

………Em toda a minha vida jamais deitei com a beleza
……………………..confidenciando a mim mesmo
…………………………………..seus encantos exuberantes

Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
…………………………………….e tampouco menti junto a ela
……………………..confidenciando a mim mesmo
………………………………como a beleza jamais morre
……………………..mas jaz afastada
………………………………entre os aborígenes
…………………………………………………………….da arte
…………………e paira muito acima dos campos de batalha
…………………………………………………………….do amor

……………………..Ela está acima disto tudo
…………………………………….oh sim
………Está sentada no mais seleto dos
……………………………………………………bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
…………………………E eles sim deitaram-se com a beleza
………………..suas vidas inteiras
………………………………..E deliciaram-se com a ambrosia
………e sorveram os vinhos do Paraíso
……………………………………..Portanto sabem com precisão
………como algo belo é uma jóia
……………………..rara rara
…………………………………..e como nunca nunca
………poderá desvanecer-se
………………………………..num investimento sem tostão
Oh não jamais deitei
……………………..em Regaços da Beleza como esses
………receoso de levantar-me à noite
……………………..com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar……………

………No entanto dormi com a beleza
…………………………da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
……………………………….. com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
………e daí transbordou um poema ou dois
………………… para esse mundo que parece o de Bosch
trad. Eduardo Bueno

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……………15

…………Correndo risco constante
…………………………………….de absurdo e morte
…………toda vez que atua em cima
…………………………………….das cabeças da audiência
o poeta sobe pela rima
…………como um acrobata
…………………..para a corda elevada que ele inventa
e equilibrado nos olhares acesos
……………………..sobre um mar de rostos
………abre em seus passos tIma via
……………………..para o outro lado do dia
fazendo além de entrechats
…………………………………….truques variados com os pés
e gestos teatrais da pesada
……………………………..tudo sem jamais tomar uma
……coisa qualquer
……………………..pelo que ela possa não ser
Pois ele é o super-realista
……………………..que tem de forçosamente notar
………a verdade tensa
……………………….antes de ensaiar um passo ou postura
no seu avanço pressuposto
………………………………………para o poleiro ainda mais alto
onde com gravidade a Beleza
………………………..espera para dar
……………………………………….seu salto mortal

E ele um pequeno
……………………..homem chapliniano
…………………………………….que poderá ou não pegar
……………………..aquela forma eterna e bela
…………………………………….projetada no ar
………vazio da existência

trad. Leonardo Fróes

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……………25

Tocado
………..o coração logo se agita
……………………….e arqueja ‘Amor’
………..um peixe alucinado que tenta
……………………….tirar seu fôlego da carne do ar

E não há ninguém ali para escutar sua morte
…………………………………..no meio das moitas tristes
……………………..por onde o mundo passa em riste
…………………………numa efusão de atrasos e de asfalto

trad. Leonardo Fróes

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……………26

Aquela “fosforescência sensual
………………………..na qual se deliciava minha juventude”
……….jaz agora quase atrás de mim
……………………………….como uma região de sonhos
……….onde um anjo
………………………………..de hálito ardente
…………dança como uma diva
………………………………..por veias estranhas
………….pelas quais o desejo
………………………………..perscruta e lamenta

E dança
………………………………..e dança ainda
e ainda avança
………………………………..para mim
……………………………………………..com seios ofegantes
………………..e lábios secretos
……………………………….e (ah)

………………………………………………olhos radiantes

trad. Eduardo Bueno

.

…….Longe por cima da baía lotada
…………………………………de casas vedadas
no meio das nobres chaminés com cãibra
……………….de um terraço atado por varais de roupa
…….uma mulher enfuna velas
………………….ao vento
pendurando seus lençóis matinais
……………………………………..com pregadores de madeira
………………….Ó magnífico mamífero
………………………………..cujas tetas seminuas
…….projetam sombras tensas
………………………………..quando ali ela se estica
para afinal estender o último
………………………………..de seus tão brancos
…….pecados lavados
………………….o qual porém está molhado de amor
……..e a circunda e nela se enrosca colado à pele
………………….Pegada com os braços pra cima
…….ela solta para trás a cabeça
………………….num sornso sem voz
…….gesto sem escolha e depois
………………….sacode a cabeleira dourada

enquanto nos espaços distantes da paisagem ao mar
……………………………..entre os panos brancos soprados
perfilam-se os navios brilhantes
………………………………………………..que vêm ao reino
trad. Leonardo Fróes

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AO LONGE SOBRE UM PORTO CHEIO…
Ao longe sobre um porto cheio
de casas sem calefação
em meio às chaminés de navio
de um telhado mastreado de varais
uma mulher hasteia velas
sobre o vento
expondo seus lençóis matinais
com pregadores de madeira
Oh mamífero adorável
seus seios seminus
arrojam sombras retesadas
quando ela se estica
para pendurar de alma lavada
seu último pecado
mas umidamente sensual
ele se enrola nela
agarrado à sua pele
Capturada assim de braços
erguidos
ela atira a cabeça para trás
numa gargalhada muda
e num gesto espontâneo
espalha então cabelo dourado

enquanto nas inatingíveis paisagens marinhas

entre lonas brancas e enfunadas

sobressaem radiantes os barcos a vapor

para o outro mundo
Trad. Nelson Ascher

.

O OLHO DO POETA OBSCENO VENDO…

O olho do poeta obsceno vendo
vê a superfície do mundo redondo
com seus telhados bêbados
e pássaros de pau nos varais
e suas fêmeas e machos feitos de barro
com pernas em fogo e peitos em botão
em camas rolantes
e suas árvores de mistérios
e seus parques de domingos no parque e
estátuas sem fala
e seus Estados Unidos
com suas cidades fantasmas e Ilhas Ellis vazias
e sua paisagem surrealista de
pradarias estúpidas
supermercados subúrbios
cemitérios com calefação
e catedrais que protestam
um mundo à prova de beijo um mundo de
tampas de privada e táxis
caubóis de butique e virgens de Las Vegas
índios sem terra e madames loucas por cinema
senadores anti-romanos e conformistas
[ conformados
e todos os outros fragmentos desbotados
do sonho imigrante real demais
e disperso
entre esse pessoal que toma banho de sol
Trad. Paulo Leminski

..

CAVALOS AO AMANHECER

Os cavalos os cavalos selvagens ao amanhecer
como numa aquarela de Ben Shahn
vivos em plena campina
no planalto ao longe
eles galopam
eles bufam
eles trovejam ao longe
seus cascos pequeninos
provocam pequenos trovões
insistentemente
como martelos de madeira batendo
num tambor distante
O sol ruge &
joga as sombras dos cavalos
pra fora da noite
Trad. Paulo Henriques Britto

RUA LONGA
.
A rua longa
que é a rua do mundo
passa em torno do mundo
cheia de todas as pessoas do mundo
pra não dizer todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
dorminhocos e virgens
vendedores de spaghetti e homens-sanduíche
oradores e leitores
desossados banqueiros
donas-de-casa criteriosas
cobertas de esnobices de náilon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí sem parar
se pendurando na primeira janela
para ver o que passa
no mundo lá fora
onde tudo acontece
mais cedo ou mais tarde
se de fato acontece mesmo
E a rua longa
que é a rua mais longa
de todo o mundo
mas não é tão longa
como parece
passa por
todas as cidades e todas as cenas
cada alameda abaixo
cada boulevard para cima
cruza cada cruzamento
com sinais vermelhos e sinais verdes
passa por cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
incultiváveis Tuscaloosas
Oaklands da alma
Dublins da imaginação
E a rua longa
rola na sua ronda
como um enorme trem que chia
ofegando em volta do mundo
com a bagunça dos passageiros
os bebês e as cestas de piquenique
os cachorros e os gatos
e todos se perguntando
quem é que está
na cabine da frente
guiando o trem
se é que lá tem mesmo alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que vai ficando redondo
todos ali se perguntando
que será que há
se há qualquer coisa
enquanto alguns se pendurando
espicham o olhar para a frente
tentando dar uma manjada
no maquinista na cabine
que só tem um olho
tentando ver o maquinista
divisar sua face
encontrar seu olho
quando eles passam numa curva
e jamais conseguem
embora de vez em quando pareça
que eles até já estão
para conseguir
E assim a rua vai rolando
vai o trem rebolando
estendendo nas janelas
suas lá dele as demais janelas de todos
os edifícios de
todas as ruas do mundo
deslizando também
na luz do mundo
na noite do mundo
com sinais nas travessias
fachos que estão perdidos mas focam
multidões em carnavais
circos na boca da noite
puteiros e parlamentos
fontes que o pensamento abandona
portas de porão e portas não achadas
figuras indecisas na lâmpada
ídolos que dançam pálidos
na ida continuada do mundo
Mas chegamos agora
à parte mais vazia da rua
à parte da rua
que passa em volta
da parte mais vazia do mundo
E não é aqui
que você vai
mudar de trem
Não é neste lugar
que você faz
alguma coisa
Esta é aquela parte do mundo
onde nada está fazendo
onde ninguém está fazendo
nada
onde em nenhum lugar há
alguém que não seja
apenas você
nem mesmo um espelho
que te faça em dois
nem uma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não aí
talvez
ou então não sua
talvez
porque você está como se diz
morto
você chegou à sua estaçãoQueira descer


de, Um parque de diversões da cabeça
Trad: Eduardo Bueno e Leonardo Froés
L&PM editores, 1984

AUTOBIOGRAFIA
.
Estou levando uma vidinha mansa
no bar do Mike o dia inteiro
sacando os campeões
de bilhar do salão do Dante
e os viciados em fliperama.
Estou levando uma vidinha mansa
na zona leste da Broadway.
Sou americano.
Fui um garoto tipicamente americano.
Li a revista do Garoto Americano
e virei escoteiro
nos subúrbios.
Pensei que era Tom Sawyer
pescando pitu no rio do Bronx
e me imaginando no Mississippi.
Tive uma luva de baseball
e uma bicicleta American Flyer.
Distribuía o Woman’s Home Companion
às cinco da tarde
ou o Herald Tribune
às cinco da manhã.
Ainda posso ouvir o baque do jornal caindo
em alpendres esquecidos.
Tive uma infância infeliz.
Vi Lindberg aterrar.
Olhei para minha terra natal
e não vi anjo nenhum.
Fui pego roubando lápis
num bazar barato
no mesmo mês que fui promovido a Escoteiro-Chefe.
Derrubei árvores para o Departamento de Agricultura
e sentei sobre elas.
Desembarquei na Normandia
num barco a remo que virou.
Vi exércitos refinados
na praia em Dover.
Vi pilotos egípcios em nuvens púrpura.
Lojistas enrolando seus toldos
ao meio-dia
salada de batatas e dente-de-Ieão
em piqueniques anarquistas.
Estou lendo “lorna Doone”
e uma biografia de ]ohn Most
terror dos industrialistas
com uma bomba sempre na escrivaninha.
Vi lixeiros desfilarem
na parada do dia de Colombo
atrás dos corneteiros
barulhentos e desinibidos.
Não visito a clausura dos Mosteiros
faz tempo
nem tampouco as Tuileries
mas continuo pensando
em ir.
Vi o desfile dos lixeiros
enquanto nevava.
Comi muito cachorro-quente frio nas feiras.
Ouvi o Discurso do Gettysburg
e o Discurso do Ginsberg.
Gosto daqui
e nem penso em voltar
para donde vim.
Também eu viajei em vagões de carga
vagões de carga vagões de carga.
Viajei entre homens desconhecidos.
Estive na Ásia.
com Noé na Arca.
Estava na índia
quando Roma foi construída.
Visitei a Manjedoura
com o Burro.
Vi o Eterno Distribuidor
do White Hill
Ao sul de San Francisco
e a Mulher-que-Ri no Loona Park
do lado de fora da Tenda das Gargalhadas
sob a tormenta
mas sempre rindo
tenho ouvido o som dos folguedos
à noite.
Tenho perambulado solitário
como as multidões.
Estou levando uma vidinha mansa
nas redondezas do bar do Mike todos os dias
vendo o mundo cruzar
em seus curiosos sapatos
Certa vez iniciei
uma caminhada em torno do mundo
mas desisti no Brooklyn
Aquela ponte foi demais para mim.
Já tentei o silêncio
o exílio e a astúcia.
Voei muito próximo ao sol
e minhas asas de cera se derreteram.
Estou procurando pelo meu Velho
que jamais conheci.
Estou procurando pelo Líder Perdido
com quem voei.
Os jovens deveriam ser exploradores.
O lar é o ponto de partida.
Mas Mamãe nunca me preveniu
que haveria cenas como essas.
Útero ulterior
estou farto dele
Tenho viajado.
Estive numa cidade fantasma.
Perambulei entre multidões múltiplas.
Ouvi Kid Ory choramingar.
Ouvi o sermão de um trombone.
Ouvi Debussy filtrado por um lençol.
Dormi numa centena de ilhas
onde os livros eram árvores.
Ouvi pássaros
ressoando como sinos.
Usei velhas calças de flanela
e caminhei pela praia do inferno.
Busquei abrigo numa centena de cidades
onde as árvores eram livres.
Que metrôs que táxis que cafés!
Que mulheres com cegos seios
membros perdidos entre arranha-céus!
Tenho visto estátuas de heróis
nos entroncamentos.
Danton lacrimejando na entrada do metrô
Colombo em Barcelona
apontando para Oeste, pros lados de Ramblas
em direção ao American Express
Lincoln no seu trono de rocha
E um enorme Rosto de Pedra
em Dakota do Norte.
Estou sabendo que Colombo
não inventou a América.
Ouvi uma centena de Ezra Pounds amestrados.
Acho que todos eles deveriam ser soltos.
Já se passou muito tempo desde que fui pastor
Agora levo uma vida mansa
no bar do Mike diariamente
lendo os Classificados.
Li as Seleções de Reader’s Digest
de cabo a rabo
e notei a perfeita identificação
entre os Estados Unidos e a Terra Prometida
já que em todas as moedas está impresso
Confiamos em Deus
mas nas notas do dólar não há inscrição alguma
porque são deuses elas próprias.
Leio diariamente a seção Precisa-se
em busca de uma pedra uma folha
uma porta esquecida.
Ouço a América cantar
nas Páginas Amarelas.
Quem diria
a alma também tem crises.
Leio os jornais todos os dias
e noto os equívocos da humanidade
e o excesso lamentável de artigos impressos.
Vejo que o lago de Walden foi drenado
para que se construísse um parque de diversões.
Vejo que estão fazendo Melville
comer sua baleia.
Vejo também que uma nova guerra vem aí
mas não serei eu quem vai lutar nela.
Li os grafites
nas paredes das privadas.
Ajudei Kilroy a escrevê-los.
Marchei pela Quinta Avenida acima
tocando clarim num severo pelotão
mas me mandei correndo pra Casbah
procurando por meu cão.
Noto alguma semelhança
entre os cães e eu.
Cães são os verdadeiros observadores
percorrendo os quatro cantos do mundo
e a região de Molloy.
Cruzei becos
estreitos demais para Galaxies.
Vi centenas de carroças de leite sem cavalos
num terreno baldio em Astória.
Ben Shahn jamais as pintou
mas elas estão lá retorcidas no Astória
Escutei o Ohhligúto do Bicho Louco.
Percorri super-auto-estradas
e acreditei na promessa dos cartazes.
Cruzei as planícies de Jersey
e vi as cidades da planície
E chafurdei nos ermos de Westchester
entre bandos de nativos nômades
em seus carroções.
Eu os vi.
Eu sou o homem.
Eu estive lá.
Eu sofri
um pouco.
Eu sou americano.
Tenho passaporte.
Não sofri em público.
Sou jovem demais para morrer.
Sou um homem que se fez a si próprio.
Sou um selfmadman.
E tenho planos para o futuro.
Estou na fila
à espera dum emprego de primeira.
Talvez me mude
pra Detroit.
Por enquanto vou me virando
como vendedor de gravatas.
Sou um Zé Ninguém.
Mas no fundo um bom sujeito.
Sou um livro aberto
pro meu patrão.
Sou um mistério impenetrável
pros meus amigos mais íntimos.
Vou levando essa vida mansa
no bar do Mike o dia inteiro
contemplando o meu umbigo.
Sou uma parte
da longa loucura do corpo.
Tenho vagueado por bosques noturnos.
Tenho me amparado em umbrais embriagados.
Tenho escrito histórias frenéticas
sem pontuação.
Eu sou o homem.
Eu estive lá.
Eu sofri
um pouco.
Sentei em cadeiras de cansaço.
Sou uma lágrima do sol.
Sou uma colina
pela qual os poetas ascendem.
Inventei o alfabeto
depois de observar o vôo das garças
que faziam letras com as pernas.
Sou um lago na planície.
Uma palavra
numa árvore.
Sou uma montanha de poesia.
Uma blitz
no inarticulado.
Sonhei
que todos os meus dentes caíram
mas a minha língua sobreviveu
para contar a história.
Porque sou um silêncio
poético.
Sou um banco de canções.
Sou o pianista
de um cassino abandonado
numa colina à beira-mar
em meio ao nevoeiro
mas sempre a tocar.
Vejo certa semelhança
entre a Mulher Que Ri
e eu.
Ouvi o som do verão
sob a chuva.
Vi garotas em plataformas de madeira
com estranhas sensações.
Compreendo suas hesitações.
Sou um colhedor de frutas.
Já percebi como os beijos
provocam euforia.
Corro o risco de ficar encantado.
Vi a Virgem
sob uma macieira em Chartres.
E Santa Joana ardendo
em Bella Union.
Vi girafas na jangal
seus pescoços como o amor
entrelaçados nas circunstâncias férreas
deste mundo.
Vi Vênus Afrodite
sem braços em seu corredor ventoso.
Ouvi o lamento da sirene
na Quinta Avenida.
Vi a Deusa Branca bailando
na Rue des Beaux Arts
no Dia da Independência
e a Bela Dama Sem Compaixão
com um dedo no nariz em Chumley’s.
Ela não falava inglês. Tinha o cabelo loiro
e a voz rouca
e nenhum pássaro cantarolava.
Vou levando uma vida mansa
no bar do Mike  todos os dias
sacando os jogadores de bilhar
lambuzando a cena com minestroni
e devorando macarrão
e li em algum lugar
o Significado da Existência
mas esqueci
exatamente onde.
Mas eu sou o homem
E eu estarei lá.
E talvez possa despertar os lábios
daqueles que
ainda dormem.
E talvez transforme meus papéis
em folhas de relva.
E talvez ainda escreva meu
anônimo epitáfio
instruindo aos cavaleiros
que passem.


de, Um parque de diversões da cabeça
Trad: Eduardo Bueno e Leonardo Froés
L&PM editores, 1984

Um pensamento sobre “Essencial de Lawrence Ferlinghetti

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