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Miséria da poesia

por Rudinei Borges
 
“Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”. (Manoel de Barros)

Recebo poemas pela internet. Alguns surgem do nada no meu e-mail. Poetas desconhecidos. Poemas desconhecidos. Solicitam que sejam lidos. Amados. Compreendidos. Querem um lugar à luz. Afinal o poema não resiste sozinho com o poeta, dentro de uma gaveta escura. Por isso, reservo minutos inteiros. Leio-os. Rezo-os quando posso. Envio aos amigos próximos.
 
Porém, a maior parte respeita a ditadura do intenetês: só valem os poemas curtos, de concisão extrema, os 140 caracteres precisos. Nada que ocupe a vista por muito tempo. Sempre há pressa e muitas coisas para fazer. O mundo corre. A vida corre. Mas os automóveis estão parados na avenida. Nada de poemas longos. Metralhadoras disparando eloqüências e rimas despropositais. Nada de poetas esnobes, prepotentes. Apenas as pequenas frases com efeitos longos. Talvez duradouros. A humildade redentora dos bons.
 
As bruxas e as normas estão soltas para algemar o nosso tornozelo. Tudo é parecido. Eles esquecem que a noite é uma criança. E como dizia um velho amigo: faz uma criança. Pintam todas as casas com o mesmo azul desbotado. Esquecem os visionários que a multiplicidade é valiosa e o uniforme é empobrecedor.
 
Alguns, quando enviam poemas, contentam-se com o silêncio irresoluto da imensa lista de contatos. Os “consagrados” permanecem mudos. Não têm tempo para comentar novos poetas. Os amigos não sabem bem o que dizer. Outros, os mais otimistas, acreditam piamente nos elogios rasgados. Na parabenização contínua.
 
Instarou-se a torre Babel. Vende-se um poema a cada esquina. O mundo, graças às musas, está tomado de poetas. O aviso é claro: leia o meu poema. Divulgue-o. Porém não ouse inventar relatórios, análises e críticas. Não ouse dizer como o meu poema deveria ser escrito.
 
Onde estão os críticos e os comentadores criteriosos? Aqueles que têm coragem de apontar o dedo e afirmar o que, de fato, pensam – mesmo se tiverem errados? Para que planeta mudaram? Foram para Marduk, Saturno? Meu Deus, os bárbaros não chegam nunca para nos dizer como deve ser o mundo? Já nos dizem dia a dia. Ser poeta é isto. Não aquilo.
 
A poesia – perdoem o meu pecado – é uma velha cartilha. Cartilha de alguns que quando têm poder esbravejam as suas verdades. A multidão obedece animada. As fábricas distribuem mil poemas iguais. A mesma fôrma para todos. O que parece novidade e inovação impregna o ar e não nos deixa respirar com tranqüilidade. Estes olhos embaçados querem enxergar. O que há para além destas colinas? Onde fica o mar? Por onde andam os contestadores, os profetas, os doidos varridos, os que gritam na rua e esfregam nos nossos ouvidos que o rei está nu? Por favor, apareçam. Não se acanhem em morar conosco.

*Publicado na Revista Parâmetro

www.revistaparametro.wordpress.com

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