Marcus G. Rosa/Poesia Rudinei Borges

Outubro armado: autopsia

[por Rudinei Borges e Marcus G. Rosa]

I

Sessenta e quatro

verrugas

Um sinal

sobre

a sombrancelha

Uma cicatriz

sob

o lábio inferior

uma mancha

na batata

da perna

As unhas

dos pés

pintadas

de roxo

Os olhos

azuis

reluzindo enxames

de marimbondos

Os cabelos

negros

arranhando

as paredes

da casa

II

Sessenta e quatro

sombrancelhas

Três estandartes

Um rastro marron

Sobre o braço esquerdo

As marcas do beijo acre

das marés sustenidas

O ombro amarrado

às portas

à forca

à fossa

Na roda

o corpo

corroído

III

Sessenta e quatro

mãos

Três violeiros

A espingarda

guarda-roupa

dos cílios

Duas feridas

nas seis orelhas

Um hematoma

nas costas

Nenhum furúnculo

no tornozelo

O joelho

ajoelhado

nas pedras

A face

roçando

o travesseiro

IV

Sessenta e quatro

pedaços

Músculo

cebo

gordura

ranhura

um verbo de ação

em glóbulos

vermelhos

Catorze pálpebras

abanando montanhas

A pele queimada

limão vertido

sob

o sol e o sal

das marés

V

Sessenta e quatro

ossos

vácuo

vazado

da terra

calcanhar

andarilho

resíduo

esôfago

afogado nas fontes

Cinco montes

de dedos

Portão fechado

Arremesso das covas

Terreiro do Calvário

Ódio

é antônimo

de boca

O céu dentro

do fígado

acalenta

 paixões antigas

O corpo

armado

silencia

[São Bento do Sapucaí, SP. 15 de outubro 2010]

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