Conto de Rudinei Borges

Gog e Magog

[por Rudinei Borges]

Você sabe? Os dias no inverno duram mais. Preciso confessar. Os beliches estão cheios de colchões rasgados. Os pregos atravessam as paredes com algum mau humor. As espumas espalhadas silenciam os travesseiros. As roupas permanecem empoeiradas. Não há nada a fazer…

É verdade. O homem que lê poesia deitado na cama adoeceu ontem à noite. Calou-se. Dormiu cedo. Tossia, às vezes. Levei remédios para ele. O homem queria sonhar com uma viagem de trem pela Sibéria. Foi isso o que aconteceu.

Mandei treze cartas para Alexander no inverno de 1936. Não recebi nenhuma resposta. É certo. Acho mesmo que vão limpar o dormitório com água sanitária. Amanhã o arquiduque vai tirar as algemas do tornozelo de Alexander. Ele vai poder andar sobre os trilhos da estação Boa Vista. Eu queria muito que ele voltasse sempre. Água sanitária tem um cheiro forte. Não gosto. Sabe, as manhãs têm gosto de açucar derretido. Acordo quando toca o sino. Faço orações. Vou para a enfermaria. Ontem mesmo tratei do caso de Thomas Kanter. Ele tem furúnculo na perna esquerda.

[Casa de Marcus G. Rosa. São Bento do Sapucaí, SP. Outubro 2010]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s