Entrevista/Ferreira Gullar

Fragmentos de uma entrevista com Ferreira Gullar

No dia 2 de junho a Folha Ilustrada, da Folha de São Paulo, publicou uma entrevista com Ferreira Gullar. O poeta foi entrevistado por Marco Rodrigo Almeida. Posto abaixo alguns trechos que achei interessante. As perguntas sobre política são as mais chatas, porque todos sabemos o que Gullar pensa sobre O presidente Lula e o seu governo. Porém, quando Gullar fala de poesia, só resta o nosso silêncio. É um grande poeta.

Como definiria o novo livro?

Todos os meu livros são diferentes. Neste [“Em Alguma Parte Alguma”] predomina uma certa relação entre ordem e desordem. Eu escrevi no limite da ordem, ou seja, no limite da desordem.

A maneira de fazer os poemas foi diferente, mais desordenada.

Comecei a escrever sem saber o que iria acontecer, sem planejar nada, sem preconceber. A poesia foi para mim uma grande aventura.

Ao contrário dos outros livros, em que os poemas já nasciam quase prontos, já que ficava sempre refletindo e elaborando antes de escrever. Já hoje começo sem saber o que vai acontecer.

Tanto que o primeiro poema, que abre o livro, tem o nome “Fica o Não Dito por Dito”. Eu tô dizendo que, já que não posso dizer o que quero dizer, faz de conta que eu disse.

E qual é a sensação quando o senhor encontra o verso?

Ah, dá muita felicidade. Os poetas têm mania de dizer que escrever poesia é um sofrimento. Pode ser pra eles, para mim é uma alegria.

“O Poema Sujo”, que escrevi no exílio, nasceu de um “transe”, um “barato” que durou por cinco meses. Sentia-me impelido a escrever.

No final do “Poema Sujo” está um dos seus mais famosos versos, “a cidade está no homem/quase como a árvore voa/no pássaro que a deixa”.

Para você ver como a poesia é uma coisa totalmente sem lógica, certo dia eu acordei lembrando de uma frase que tinha lido do Hegel [filósofo alemão, (1870-1831)] citada por Lênin [líder soviético, (1870-1924)]: “na frase o ramo da árvore estão o universal e o particular”. Parei pra pensar: a árvore é o universal, é o todo, e o ramo é parte dela, então é o particular. Essa frase me fez escrever o final do “Poema Sujo”.

Eu posso arrancar o ramo da árvore, mas a árvore continua nele. Como São Luís, no Maranhão, está em mim mesmo quando estava em Buenos Aires. Aí entrei no “barato”. Quando é que o Hegel imaginou que a frase dele ia fazer um poeta brasileiro terminar um poema escrito em Buenos Aires? (risos)

O senhor fala em “transe”, “barato”, sensações geralmente associadas às drogas. Já experimentou alguma?

Uma vez, quando tinha 15 anos, um amigo me chamou para fumar uma diamba, que é como chamam a maconha em São Luís. Dei uma tragada e senti um gosto de mato velho. Achei uma porcaria, nunca mais experimentei.

Tem gente que compara o estado de criação com o “transe” da droga

É bobagem dizer que as drogas ajudam na criação. Ela é outro tipo de “transe”, que requer lucidez. Sem isso é impossível criar.

Durante a criação, você está, por um lado, livre da lógica rudimentar e, ao mesmo tempo, muito lúcido. Você está altamente emocionado, mas tem uma outra lucidez, que não é a da lógica pura e simples.

A lucidez costuma ser também um remédio contra o sofrimento em muitos de seus poemas, como “A Alegria”.

Quando escrevi esse poema estava no máximo do sofrimento, exilado em Buenos Aires. Não sabia o que fazer da minha vida. Comecei a valorizar o sofrimento. Pensei: ‘”sou um herói do sofrimento, um novo Cristo?”.

Mas quando você está numa situação sem saída, resta sempre a poesia. Aí escrevi: “O sofrimento não tem nenhum valor”. Não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Detesto o passado.

Uma vez, discuti feio com a Cláudia [Ahimsa, companheira de Gullar há 15 anos]. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste pra cacete. Então, pra que querer ter sempre razão? Não quero ter razão, quero é ser feliz.

Como é iniciar um relacionamento depois dos 60 anos?

Não tem muita diferença não, do ponto de vista de relacionamento em si. Você se apaixona e começa um romance. Eu tinha 64 no inicio e ela tinha 30 anos. Relacionamento é interesse um pelo outro. Hoje sou uma pessoa mais tolerante, mais reflexiva, tento compreender melhor o outro. Tento não me achar o dono da verdade. Já me enganei tantas vezes na vida que posso estar enganado de novo.

E como fica a relação sexual durante a fase de maturidade?

[Risos] Eu acho que você se torna mais refinado, menos vulgar. Acho sexo uma coisa maravilhosa, mas não fico pensando muito nisso. Penso mais sobre arte, política. Sexo eu não penso, eu faço.

Mas também não acho que seja o mais importante da vida, que o cara tenha que comer 300 mulheres. Legal é ter afeto, ter carinho.

O senhor falou sobre vulgaridade. Acha que o mundo está mais vulgar?

Acho que sim. A vulgaridade tomou conta das coisas. As pessoas devem achar que é um escândalo o que falo. Devem achar que estou velho e tal.

Mas essa ideia de que ir contra o que é tradicional é bom é uma besteira. Olhe a própria arte contemporânea. Quer ser diferente de tudo, não respeita norma nenhuma. Mas a vida é inventada, cara. Se não houvesse norma a civilização não existiria. É só isso.

Um quadro do Monet, do Picasso, é uma coisa elaborada, um produto que vem de quadros anteriores. O significado está na linguagem, se acabar com a linguagem não tem significado.

Hoje tem gente que pensa que o século 19 era atrasado porque as mulheres se vestiam da cabeça aos pés, não mostravam nenhuma parte do corpo. Hoje a mulher está de fio dental mostrando a bunda na praia. Isso é ser mais avançado do que ser elegante? Hoje é mais avançado mostrar a bunda? Para mim isso é mais primário, mais escroto. Perde todo o mistério da mulher. É muito mais legal, rico, sensual, erótico e poético se comover com o pé da moça.

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