Crônica de Rudinei Borges/Textos de Rudinei Borges

O escritor em início de carreira

[por Rudinei Borges]

Vida de escritor em início de carreira tem horas que é um saco. Depois de um tempaço lutando com as palavras, o pobrezinho afoito descobre que tem ali um trabalho concluído e que pode até pensar em publicá-lo. Mas onde? Bate a incerteza. O escritor de primeira viagem vai atrás dos mestres vivos, os escritores conhecidos, que são respeitados no meio literário. Leva o seu original debaixo do braço, arruma todas as estratégias para descobrir onde o seu escritor mestre estará. Vai em lançamento, conferência, mesa-redonda, teatro e oficina literária. Vai ao escambau a quatro. Um dia encontra o escritor mestre conversando com amigos, tenta entrar na roda, porém é um desconhecido. Bate a timidez. Aí fica esperando a roda esvaziar, então, o pobrezinho se aproxima do escritor mestre, fala de onde é, diz que gosta dos seus livros e, por final, aparece com um calhamaço e entrega às mãos do artista respeitado, que jura que mandará retorno e pergunta pelo e-mail. O escritor em início de carreira exulta de felicidade e fica esperando, abre o e-mail e nada. Nada. O escritor mestre tem muitas coisas para fazer. Imagine só se ele ficasse lendo os originais que recebe. O que aconteceria? Não teria tempo de viver e escrever. Neste momento o escritor em início de carreira descobre que está só e os seus supostos mestres não estão tão próximos, que são ocupados: há muitos eventos.

A solução agora é contar com os amigos ou a professora de português ou um colega escritor também em início de carreira. Se tiver sorte o pobrezinho será agraciado. Os amigos vão ler os seus escritos, tecer críticas e aparecer com sugestões interessantes. Em seguida, começa a segunda fase da novela. Quando já está mais ou menos seguro, o escritor de primeira viagem deseja publicar o seu livro. Neste momento, ele descobre que não tem editora, que as editoras grandes não vão publicá-lo e que não tem como investir num agente literário( ele nem sabe bem o que é isso). O pobrezinho encontra uma editora independente, faz o orçamento e economiza o dinheiro para pagar a publicação de seu primeiro livro. Numa certa altura consegue o que deseja: publica o livro. Reúne os amigos e faz o lançamento. Fica feliz.

Depois inicia a terceira parte da novela. A editora não distribue os livros. O autor leva para a sua casa uma montanha de exemplares. Precisa inventar estratégias para vender os livros, divulga na internet, fala para os conhecidos, participa de outros lançamentos, presenteia algumas pessoas e envia pelo correio o livro para os escritores mestres, conhecidos e respeitados no meio literário.

Começa a quarta parte da novela: a espera por resenhas, críticas e comentários em jornais. Nada. Não há mais críticos. Não há quem leia os escritores em início de carreira. Outra vez a solução é procurar os amigos ou a professora de português ou um colega escritor em início de carreira. Talvez eles tenham tempo para escrever alguma análise de seu primeiro livro publicado. Há sempre alguém disposto.

No fim das contas, o escritor em início de carreira descobre que precisa de muita paciência e de mais e mais persistência, senão será sempre um escritor em início de carreira.

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