Ariel Moshe/Dias Felizes/Emilio Di Biasi/Norma Bengell/Samuel Beckett/Teatro

Beckett segundo Di Biasi e Norma Bengell

 

[por Rudinei Borges]

Norma Bengell estava quase que completamente coberta por um amontoado de malas e fitas de filmes e aparelhos antigos de televisão. Mas Norma Bengell estava no topo da montanha. Dava para vê-la olhando de modo descompassado para o deserto de Samuel Beckett. Winnie ou Norma Bengell ou a personagem de Beckett falava com poucas pausas. Tentava, com incansável esforço, persuadir que os seus dias soterrada naquelas areias ou amontoado de coisas velhas eram felizes. Por isso, olhava-se no espelho ou penteava o cabelo com alguma alegria. Enquanto isso, Willie, na pele do ator Ariel Mosche, arrastava o peso daquelas horas intermináveis. A montagem que o diretor Emilio Di Biasi fez para a peça “Dias felizes” é uma mistura de Beckett e Di Biasi. O que é óbvio. Ou melhor é uma soma de Beckett, Di Biasi e Norma Bengell. Talvez as interrupções com projeção dos filmes em que Bengell participou quisessem provar que a felicidade nunca está no presente. Só no passado, porque em “Dias felizes” o futuro não existe. E o presente? O presente é uma labuta constante para inventar ocupações fúteis, matar o tempo ou enganá-lo. O otimismo da interpretação de Bengell leva a personagem ao limiar do pessimismo. É impossível ficar alheio às falas de Bengell e é mais difícil não envolver-se com o cenário de César Resende. O amontoado de coisas velhas figura como uma grande máquina estacionada em qualquer lugar do mundo. Uma máquina que jamais funcionará. É a desastrada estrada de ferro de Fitzcarraldo no filme de Werner Herzog. É a máquina do mundo do poeta Carlos Drummond. Porém, a máquina na verdade é um gigante adormecido que a qualquer momento pode engolir de vez a existência vazia de Winnie e Willie. De fato, na interessante montagem de Di Biasi a máquina, o deserto, é maior. Restou pouco a fazer para aquelas “sobras” da humanidade na peça de Samuel Beckett. 

Dias Felizes – 21 h/04 a 27 de março 2010

SESC Ipiranga/Rua Bom Pastor, 822/São Paulo – SP/(11) 3340-2000

Direção: Emilio Di Biasi

Elenco: Norma Bengell e Ariel Moshe

Cenário: Cesar Resende

Direção musical: Demian Pinto

Trilha sonora e Música original: Rodolfo Valente

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