Conto de Rudinei Borges

A última carta

Desenha dentro dos meus olhos um tiro certeiro. Um tiro que faça arder os meus últimos neurônios. Abra as portas e as janelas. Arrasta o meu corpo nas calçadas. Permita que as mulheres venham rezar de noitinha. Queime incensos. Acenda velas. Mostre as chagas do meu corpo. As impurezas do meu corpo. Lava as cicatrizes do meu corpo. As gotas de sangue sobre o assoalho. Corta o meu pulso. Arranca a minha pele. Penteia os meus cabelos. Morde as minhas costas. Toque os sinos. Quero que saibam que morri. Mas quando findar a peleja leva o meu corpo para descansar. Posta uma carta para minha mãe, minha irmã, meu irmão. Conte que os amei mais que a vida. E que decerto foi os semblantes deles que povoaram as minhas lembranças no instante final.

[Rudinei Borges]

[Tarde da última segunda-feira de fevereiro. Escadaria do Museu Paulista]

2 pensamentos sobre “A última carta

    • Massega, é um texto de quase um ano, escrito em outubro 2011. Tinha esquecido esta última carta, o sacrifício do corpo. Rudinei Borges.

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