Conto de Rudinei Borges

Nico

A voz de Nico cantando Femme Fatale. A voz de Nico deixando aos poucos o fone de ouvido. O rosto de Nico dentro dos meus cílios. A noite solitária de sábado. As vozes na esquina. Uma multidão se perde. Nico está comigo sentada no canto da cama. Nico ri. Fala qualquer coisa sobre os jacintos que plantei no jardim hoje à tarde. É preciso molhá-los, Nico diz. Nico fecha os olhos. Encara-me seriamente. Nico ri outra vez. Reclama que eu esqueço tudo. Que não posso deixar os jacintos morrerem sem água. Mostro pra Nico as fotos de quando eu era menino. O jardim da vó era onde tirávamos as fotos com roupas de domingo. Depois de meses recebíamos as revelações coloridas. Éramos tão bonitos, Nico. E eu sinto saudade daquilo. Queria nunca mais sair de lá. Do jardim da vó. Por isso, vou cuidar dos jacintos. Vou acordar cedo para cuidar dos jacintos. Eu prometo, Nico. Não faça promessas, Nico diz. Ela levanta. Olha-se no espelho. Arruma o cabelo. Passa batom. Arrumo os livros sobre a cama. Entrego nas mãos de Nico um poema de Fernando Pessoa. Nico chora. Senta-se outra vez na cama. Levanta outra vez. Olha outra vez para mim. Vamos embora, Nico diz. Dois minutos depois partimos para qualquer lugar onde enfim poderemos beber a noite inteira.

[Rudinei Borges]

 [28.02.10]

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