Textos de Rudinei Borges

A vida

Por que a vida não melhora? Não se ajeita? Não arranca da cara este monte de cravos? Não pinta os beiços com batom? Não compra um vestido rosa choque? Não sai à noite pra beber? Meu Deus, por que cargas d’água a vida é assim tão sisuda? Sem sal. Sem açúcar. Com gosto de xarope caseiro. Por que a vida não namora? Não trai? Não dança? Não vai ao cinema? Por que a vida só assiste novela e jornal na tv? A vida vota no mesmo candidato canalha. Almoça no mesmo restaurante. Compra todos os móveis à prestação. Que mal tem a vida que a gente não sabe? Que ferida é esta que não sara? A vida não sai de casa. Não fuma cigarro. Não participa de amigo secreto. Não vai à festa da empresa. A vida não grita. Não fala. Não sussurra canções de amor. Que pacto é este que a vida tem com o diabo, com o capeta, com o encardido? A vida não dorme. A vida não ri. Parece estátua. Parece túmulo. Por que a vida não sai em escola de samba? Não brinca de boi-bumbá? Por que a vida não come pé de moleque, arroz doce, pão de queijo? A vida é tão magra, meu pai. Tímida. Frígida. Indiferente. Gente difícil de agradar. A vida devia tomar veneno de rato, se jogar da ponte. Enfim, meu Deus, se matar. Por que a vida não toma coragem? Não toma remédio? Não toma banho de sal grosso? Não faz promessa? Não faz despacho? Não amola faca? Não benze a casa? Não pede a bênção? Não reza terço? Que escarcéu. Que escárnio. A vida não vive, meu Deus.

[Texto do livro “A chuva vai derrubar todo mundo”, ainda inédito]

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