Benjamim Moser/Clarice Lispector/Guimarães Rosa/Rubem Braga

Notícias de Cuiabá

Roviária de Cuiabá

 

Cuiabá. Mato Grosso. 22 de dezembro 2009.

Saudações a todos.

Estou em Cuiabá, capital do Mato Grosso. Faz um calor infernal, indescritível, daqueles que nem Dante Alighieri saberia explicar. Cuibá tem muitas e muitas casa; poucos edifícios. Acho que aqui odeiam árvore, porque vi poucas. O cenário do estado é marcado por planntações de soja à beira da estrada. Vi um pouco de plantação de cana também. Há umas casas perdidas aqui e acolá entre serras, mas tudo parece plano. E o sol? Parece que a natureza esqueceu a existência da sombra. Só há sol. Muito sol. Como se fosse vários e se espalhassem pelo céu. Ah, nunca vi tanta gente que viaja de ônibus e reclama tanto. Eu já sei como é, por isso fico calado lendo e olhando pela janela. Sempre saio cheio de animação para escrever inúmeras histórias.

Encontrei o mesmo vendedor de passagens de ônibus numa das agências da rodoviária. O mesmo que me vendeu passagem para Itaituba ano passado. Estou usando o mesmo computador, na mesma Lan House que usei em 2008. A diferença é que as letras do declado desapareceram e  alguém as cobriu com um esmalte branco. Agora as letras ficaram enormes. O “r” está gigante.

A grande alegria que vivi na viagem de São Paulo para cá foi a minha leitura incessante da biografia de Clarice Lispector. “Clarice” do americano Benjamim Moser é um livro revelador e instigante. Toda a menina Clarice está lá com a sua família e sua história; desde a vinda da Ucrânia. Já estou na parte em que ela chega ao Rio de Janeiro e publica o seu primeiro romance “Perto do coração selvagem”.

Volta e meia mudo de canal e leio com grande alegria a novela “Campos gerais”, a históra do menino Miguilim, do nosso João Guimarães Rosa. Talvez Miguilim se tornará o livro da minha vida. Um amigo quando leu o meu primeiro livro publicado, “Chão de terra batida”, disse que eu deveria ler o livro de Guimarães. Bebi nas fontes do escritor mineiro indiretamente. Cheguei a ele via Adélia Prado e Manoel de Barros, dois poetas que me influenciam profundamente. É uma cosntrução das mais originais da língua portuguesa.

Por fim, também volta e meia leio alguma crônica de Rubem Braga. O livro “200 crônicas escolhidas” é uma espécie de presente para o leitor que viaja, pois dá para relacionar as paisagens citadas por Braga com o que estamos vendo. Sobre o livro encontrei um comentário de Braz Ogleari que afirma o seguinte: “com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta flagrantes da vida cotidiana que ele próprio viveu ou testemunhou”.

Então fica a sugestão dos meus três livros de viagem:

1. Clarice (de Benjamim Moser)

2. Campos gerais (de Guimarães Rosa)

3. 200 crônicas escolhidas (de Rubem Braga)

Hoje à noite parto para Guarantã (ainda no Mato Grosso, este estado que não termina nunca) e de lá vou para Itaituba, a cidade onde nasci no interior do Pará, que a personificação da distância. Aí sim vou encontrar muita lama e poeira na Rodovia Santarém-Cuibá. Espero que a viagem renda boas histórias.

Olha que eu ouvi de uma senhora resmungona. Ela reclamou tanto da viagem, porém quando olhou o céu ela disse: “gosto tanto do céu assim: azuzim, azuzim”. Anotei numa das páginas do livro do Guimarães.

Abraço apertado,

Rudinei Borges

Sobre “Campos Gerais” de João Guimarães Rosa

Disponível na página http://artistasdopovo.blogspot.com

O livro de Guimarães Rosa – Miguilim – contrasta um ambiente pobre num mundo rico – Minas Gerais ou como está no título da novela Campos Gerais. A cidade predominantemente rural e pequena, Mutum é o cenário de toda a história do Miguilim, que é uma pessoa que está lutando para chegar aos seus objetivos.

O autor traça uma história em que uma família simples vive seu dia-a-dia como muitas famílias rurais que ainda existem no Brasil. Guimarães Rosa faz uma imersão neste mundo trazendo a linguagem simples, típica da região com seus costumes e tradições, das pessoas do campo.

Para mim a cidade Mutum é uma crítica social, pois é uma região como várias pelo Brasil, é uma região abandonada pelo poder público onde quem sobrou, isto é, quem vive lá tem que se virar para ter uma vida melhor.

Um exemplo de que Guimarães Rosa cita a cultura da roça é quando o pai do Miguilim sai da fazenda para caminhar pelo mato com seus cachorros para caçar o coelho. Os cachorros são os auxílios da defesa do pai do Miguilim.

A obra tenta captar o cotidiano de um personagem que batalha, pensando que está vivendo em um mundo alternativo, diferente, sonha alto, mas que com ajuda dos outros, primeiramente com o Tio Terêz e depois com o irmão Dito, o Miguilim constrói a sua formação de visão do mundo, onde ele se esfoça e tem um reconhecimento de todos.

Apesar de suas fraquezas, seu aspecto raquítico ele tentou batalhar para conquistar o respeito do pai, que é um sujeito sofrido da vida e acha que todos os filhos tinham que passar o mesmo para se tornar homem de fato.

Miguilim pertence a uma família pobre, simples da roça brasileira em que a família funciona com um sistema patriarcal, isto é o pai é o chefe da família, Nhô Bernardo.

Ele é um pai autoritário que não dá muita atenção para o filho mais novo, o próprio Miguilim, a mãe Nhanina, que é uma submissa ao marido e que passa dias de tristeza numa região vazia e abandonada, acreditando numa vida melhor. A única pessoa com quem respeitava era a Vovó Izidra – a moralista da família.

Tem o Tio Terêz, que no começo era visto por Miguilim como um amigo, que no decorrer da história ele não é visto mais da mesma forma após a morte do pai, porque com o passar da novela, Miguilim desconfia que o Tio Terêz está traindo o pai com a mãe. Tem o braço direito do Miguilim, Dito, que sempre vai dar apoio em todos os momentos, até a morte. Durante a doença de Miguilim, o irmão ajudou na recuperação do protagonista da história com a energia da alegria. Dito é destacado como uma parte importante da novela. Pelo pai, ele é visto como sucessor da liderança da família pela ajuda na roça e por ter amadurecido rapidamente.

Dito ensina o pequeno Miguilim a viver a vida, aplica valores para o amadurecimento do jovem garoto. Apesar da história estar centrada ao redor do Miguilim, Quando Dito estava doente, a família tenta salvar a vida dele por meio de rituais e outros meios demonstrando que o Dito era uma esperança para o desenvolvimento da pequena comunidade.

Na história há vários casos de desrespeito à autoridade e também a repressão da autoridade como o caso que o Pai está batendo na mãe Nhanina por causa do Tio Terêz, em que o suspeita da traição, e o inocente Miguilim tenta defender a mãe entrando no meio da briga em que acaba apanhando.

O ápice da história, quando o Dito morre, Miguilim se sente desprotegido, pois o irmão era um conselheiro para enfrentar os desafios que a vida oferece. O Dito atua como a razão e utiliza o logos que é um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza. Isto é, Miguilim só tomava alguma atitude quando o Dito estava certo e até tentava imitar o irmão, quando ficou doente. O Miguilim era a ação e o Dito a razão, o pensamento.

Além disso, o autor tenta traçar os grupos sociais que vivem em Mutum, como os “vaqueiros”, que ensinam o Dito e Miguilim os conhecimentos sobre a criação de gado, como tirar leite, sarar uma “pisadura” ou então o grupo das “mulheres da cozinha” que citam o dia-a-dia da vida da Rosa, que está limpando as tripas do porco para cozinhar e é incubida as tarefas que tem maior iniciativa e capacidade de cálculo , a Nhanina, que está fazendo sobremesas, Mãitina, uma “negra fugida”, que pode ser até uma referência de escrava, ou sofrida pela vida, que faz os trabalhos mais pesados e que está desapontada por não ter reconhecimento e ainda é maltratada pela Vovó Izidra que a trata como uma “traste de negra pagã”. Tem também a Maria Pretinha que é a auxiliar da Rosa.

Outro ponto forte, que é quando o pai de Miguilim se mata, acontece uma “renovação do poder”, pois quando Nhô Bernardo é substituído pelo Tio Terêz., que tem interesse em se casar com o Nhanina.

Miguilim que era muito dependente para a mãe acaba conquistando sua ‘liberdade” quando um sujeito vem da cidade e dá os óculos para ele pois a grade dificuldade que carregou na história de dele era um problema de visão que criava outras visões outros mundos na personagem.

Os personagens como o Miguilim e Dito tem uma ligação muito forte e destaca a forte relação que os dois tinham de confiança num ambiente em que o pai é uma pessoa ignorante de conhecimento acadêmico, mas sábio com o conhecimento da vida, apesar da violência e da dureza, o pai mostrou seu lado frágil em dois momentos: quando o Miguilim quase morreu e quando o Dito morre.

Pois o pai fica desesperado com a enfermidade do irmão mais velho, a esperança da família para uma vida melhor e o Miguilim em que o pai fica arrependido porque se acha culpado pela doença de Miguilim, que se esforçou demais ao tentar fazer o mesmo trabalho que o irmão fazia. Para mim, a novela identifica muito a comunidades que estão espalhadas por este País, que tem seus laços sociais, familiares, com seus conflitos e rituais.

No final da história, com a “liberdade” conquistada, isto é, os óculos, Miguilim é convidado pelo sujeito que deu a possibilidade de corrigir a visão para viver na cidade, estudar, aprender um ofício e não depender mais da mãe como dependia.

Apesar de todo o sofrimento, a personagem Miguilim sofreu, batalhou, enfrentou desafios e teve uma vitória na vida, conseguindo enxergar e ter a possibilidade de estudar e ser independente para quem sabe um dia voltar a Mutum e ajudar sua família.

Um pensamento sobre “Notícias de Cuiabá

  1. Meu caro amigo Rudinei, acabei de ler seu livro Chão de Terra Batida e foi uma viagem a minha infância no interior de Manaus, mas precisamente a casa de minha vó no Careiro da Várzea. Espero que sua viagem renda muitos textos interessantes.
    Um forte abraço do seu amigo amazonense.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s