Antônio Lázaro de Almeida Prado

Antônio Lázaro de Almeida Prado


[O poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado]


 

Nesta noite, passagem de domingo para segunda-feira, ando vasculhando em sites a poesia de Antônio Lazzaro. Aliás, ando vasculhando uma sensibilidade e rigor em falta em nossa poesia. Dá uma saudade quando recito baixinho os versos abaixo. Acho que poeta bom é aquele que consegue com que sintamos saudades de algo inominável. Este é o meu sentimento.


Alvíssaras

Que traz em seu alforje a madrugada?
E o áugure o que lê nas entrelinhas
Das arcanas entranhas do futuro?

Em seu ninho de fogo, generoso,
Que prepara em seu sangue o pelicano?
E Orfeu o que perscruta em sua lira?

Acaso já delira a pitonisa
Em sua embriaguez antevisora?
Qual a safra de sonhos do profeta?

Desvelo em seu tremor estas primícias
Do canto inaugural da Nova Idade,
E posso proferir meus vaticínios:

Haverá tanto amor na virgem Terra
Que seu mêstruo benéfico assegura
A vitória da Ovelha sobre o Lobo.

Tudo mais será escória do Passado,
Voz antiga, insensível, dispensável,
Que o fogo em seu ardor reduz a cinzas…

Embora infante boca do futuro
Já posso pronunciar meu Evangelho:
SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!



Sinfonias possíveis

Trago dentro de mim harmonizados
Muitos sons e canções, que não componho,
Tão vibrantes, coesos, concertados
Que enformam a textura de meu sonho.

Cantigas de ninar, trovas do povo,
Trinados matinais na voz dos ventos,
Capazes de gerar um canto novo
Capazes de aplacar dor ou lamentos.

Na força destes sons me fraternizo
Com a imensa harmonia do universo
Que moldo neste som claro e conciso.

E do instante pungente ou adverso
E de todo o sofrer me imunizo
No resgate eficaz de rima e verso.



Invenção da alegria

Há quem cultive a dor,
Eu invento a alegria.
De todo o meu amor,
Que vale mais que o dia,
Quero legar a história,
Quero deixar ao vento
(sem ais e sem lamento)
Uma justa memória
E enxuta fantasia.

Há quem celebre a morte,
Eu festejo a alegria.
Por graça ou por esporte
Ou mesmo por mania,
Quero inventar a vida,
Quero o melhor carinho
Doar a meu vizinho
Como a melhor partida
De sonho ou de poesia.

Há quem festeje o pranto,
Eu invento a alegria,
Razão maior do canto,
Antes que a cotovia
Arquive o nosso idílio,
Cancele o meu futuro,
Razão maior do puro
Clarão deste meu círio
Votado à alegria.


[Antônio Lázaro de Almeida Prado nasceu em Piracicaba, em outubro de 1925. Poeta, ensaísta, tradutor e jornalista, é Doutor e Livre-Docente em Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1953 a 1958.Transferiu-se para a UNESP (campus de Assis), do qual foi fundador, aposentando-se em 1982. É Professor Emérito da Faculdade de Ciências e Letras, e, ali, depois de Titular Fundador da Cadeira de Língua e Literatura Italiana, passou a Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada. Dentre suas obras publicadas, destaca-se o livro de poemas “Ciclo das Chamas”, lançado, recentemente, pela Ateliê-Editorial, em que se reúne parte de sua produção poética]

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