Poesia Rudinei Borges

Moacir Dias


O vô tinha jeito de índio. Cabelo de índio. Cor de pele de índio. Mas o vô não sabia o que era oca e aldeia. Acho que o vô era uma mistura de índio com português.

O vô gostava de mato, dos mistérios do mato. Conhecia de longe paca, tatu, caititu, capivara. Já tinha visto onça e gato selvagem. Sabia nome de bicho que ninguém sabe, nome de árvore que ninguém sabe.

O vô também gostava de carpir, preparar a terra, plantar mandioca. Gostava de ver o mandiocal crescer ao redor da casa de barro. Tempos depois o vô arrancava a raiz, deixava a mandioca virar puba e colocava a massa num forno à lenha. Era assim que o vô fazia farinha.

Dava vontade de ter fome sempre.

*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)

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