Bernardo Carvalho/José Agrippino de Paula/José Valêncio Xavier/Literatura/Literatura Brasileira/Mauricio Sales/Sérgio Sant'Anna

Prosa acanhada: crítica e literatura brasileira contemporânea

 expodinis2[1]

por Mauricio Salles

A prosa não anda em pauta diferente da acanhada produção poética, ao fim destes primeiros anos 2000. Acaba por revelar o que se percebe na produção artística brasileira, gritantemente no cinema e na música. (Artes cênicas e plásticas mostram maior vitalidade e variedade de registros, de recursos). Uma disciplinarização do lugar autoral se apresenta vinculável a procedimentos de normativização do saber-poder legitimados e visibilizados. Leem-se em autoral um desenho administrativo-editorial, um desígnio resenhado por jornais-corporações, finalmente acolhidos pela comunidade acadêmica como código e cânone.

O que se observa é uma correção de tom na prosa. Há uma homogeneidade na manutenção de um padrão médio acerca do que se imagina como o Brasil, do que se entende como narrativa. Nada próximo de um alto repertório, pois a grande qualidade pode provir de um referencial baixo ou elevado. Talvez haja até uma preocupação com uma elevação culturalista e discursiva nesse sentido, porém o resultado longe está de uma literatura com grandes voos e resultados. Há que se buscar o novo deste tempo, que não é mera reciclagem de estilos – no compasso de uma desgastada reescrita de textos-chave da história da literatura –, muito menos o retorno a algum fundamento classicizante ou disciplinar (como por exemplo a sociologia que dá prêmio ou o romancear da história nos moldes metadiscursivos levados à exaustão). Interessa o que é só de agora, como está na etimologia da palavra “moderno”, e se refaz para além da adequação a uma ideia inconsistente e infindável de tardomodernidade.

Entre os autores citados na questão, penso que Bernardo Carvalho é um dos poucos produtores de narrativas surgidos da década de 1980 para cá que merecem atenção, pelo fato de ser o mais preparado, o mais culto e abrangente na sua leitura da arte e da cultura atuais. Nem sempre há equilíbrio em sua produção. No entanto, livros como Medo de Sade e Nove noites vão além da moldura pós-borgeana em que seu trabalho vinha se mantendo, jogando de modo criativo com a história e a paródia, a pesquisa e as formas do falso. No que envolve, também, as relações entre escrita e viagem, há formulações intrigantes em seus livros, muito acima do registro-padrão nacional.

Penso que há uma matriz inventiva da prosa ficcional no Brasil, acentuada a partir dos anos 1970, que repercute nos melhores momentos de Bernardo Carvalho. É pena que não seja desdobrada, atualizada. Um veio trilhado por José Agrippino de Paula e Rubem Fonseca (uma década antes), prosseguido por Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll e Valêncio Xavier, de forma muito própria, com grande potencial de linguagem e abertura na visão do Brasil contemporâneo. Um livro essencial – um dos títulos mais incríveis publicados nos últimos dez anos – como Sexo provém dessa vertente, mas parece não ter resultado numa consequência produtiva para o próprio autor, André Sant’Anna. Fica como um belo, raro exemplo do que pode a narratividade no Brasil, em seu poder de leitura de nossos arquétipos sociais, comportamentais, sexuais, sem perda de foco crítico e experimentalismo.

Curiosamente, é com José Agrippino de Paula que dialoga André Sant’Anna, em Sexo, como se vê nas etiquetas prototípicas da sexualidade e da sociabilidade, num certo andamento pop, extraindo força, também, das multidões de corpos à deriva, em desregramento, bem próximo de Lugar público, não apenas de Pan América: Epopeia. Uma referência que vem, aliás, de Sérgio Sant’Anna, um entusiasta e interlocutor das melhores conquistas criadoras do autor de Pan América, como se lê no seu primeiro grande livro, Confissões de Ralfo: Uma autobiografia imaginária. Sérgio Sant’Anna vem dando, aliás, sequência ao que seria a continuidade de um trabalho inaugurado por José Agrippino, caso ele não interrompesse sua atividade de escritor. A postura de Sant’Anna merece ser não só destacada, mas destrinchada para bem da nossa atualidade, da capacidade de leitura da Tragédia Brasileira aliada a um alto grau de inventividade e pesquisa. A escrita narrativa precisa de um corte conceitual à altura do saber existente em nossa época, sem ser cerebral e teorizante (como ocorre no proseado de alguns escritores profissionais). Muito ao contrário, Sérgio Sant’Anna está bem aí.

Recuperando-se certos títulos como Armadilha para Lamartine, Quatro-olhos, A rainha dos cárceres da Grécia, Qadós, só para ficarmos na década de 1970 e não falarmos, um pouco mais atrás, de Samuel Rawet, Maura Lopes Cançado, Campos de Carvalho, visível se mostra a pequenez do atual panorama da narrativa no século xxi. Isso sem falar do livro inigualável, inquietantemente contemporâneo que é Lugar público, mais até do que Pan América, extraordinário e inaugural, portador, contudo, da marca de uma estética de época. Tenho pessoalmente mais interesse, como estudioso e produtor de narrativas, pelas cadernetas onde José Agrippino escreveu Os favorecidos de madame Estereofônica do que pela produção dos autores em circulação. Pois vem dali um compromisso com a experimentação e não com as demarcações de interesse por um lugar midiático e cultural ativado por imprensa-mercado editorial-universidade, um circuito reprodutor do mesmo tipo de atitude pretensamente autoral, destituída de radicalidade e investigação. É o que mais falta e deveria ser a busca de toda prosa.

De um modo muito curioso, na cena cultural de hoje a afirmação da arte se mostra como um dos atos mais políticos e libertadores, pois em sua esfera se trava contato com vários planos de atuação e conhecimento. Esse comprometimento possibilita a refiguração de corpos e modos de ser-viver numa época altamente indagativa e convidativa, como a de agora, à criação, em que tudo está por acontecer.

Nomes como Sérgio Sant’Anna são uma raridade. Ele não para de se repensar, lançando-se a investigações, inclusive, na área teatral, por onde incursionou nos anos 1980 com Ensaio no 1, de Bia Lessa. Veja-se sua presença como autor e atuante na peça O auto da defunta nua (através de sua imagem videográfica de autor no meio da cena), atualmente em cartaz em São Paulo. Onde se encontram textos melhores do que em O monstro? No entanto, não houve nenhuma matéria de capa nos cadernos ilustrados ou de variedades sobre esse evento que é o ato de Sant’Anna na praça Roosevelt. Os que menos aparecem são os autores, de fato, importantes. Aqueles hiperfotografados nas celebrações apequenadas do mesmo, da mesma cena, nada acrescentam a não ser a seu capital cultural, segregador de vida inteligente, trabalho amortecido neles mesmos, cada vez mais para dentro do mercado dos rostos congelados.

Mais uma vez se torna claro que são autores e livros como Lugar público e O monstro, obscurecidos pelo marketing concentrado nos “literatos de prêmio” (como está numa canção esquecida de Capinam), que vão interessar, passado o tempo das autopromoções. Vão estar entre os escritos que vibram inquietações, investigações sobre a arte, o lugar obscuro que é o Brasil, o interesse pela leitura, e não nos retratos panorâmicos, demarcadores de territórios regionais e culturais, quando não em exposição da vida pessoal, através do apelo verista à autobiografia. A narrativa do Brasil ainda está envolvida com uma ideia de verdade e testemunho totalmente inserida na cultura interativa, do reality doc. show. Não enfrenta, entretanto, o poder de fabulação obtido pelo império áudio-visual cotidiano, no país da telenovela, em que pouco se lê.

É o que parece esboçar a pouca informação conhecida sobre Os favorecidos de madame Estereofônica, um longo e fragmentário texto em torno do universo televisivo. Uma dimensão ficcionalizadora que se presentifica em Pynchon e já foi pontuada por Puig e Cabrera Infante, em relação à cultura da imagem, no contexto das Américas. Enquanto isso, os editores posam, com sua empáfia, como se tivessem a palavra final, a noção-chave do que é grande e valoroso, forjando nomes e tendências da literatura média, facilmente abarcados pelo poder universitário de reproduzir lugares-comuns dos espaços midiáticos, incapaz que é de descobrir outras escritas, outras noções de autoria.

 Pulicado na Revista Sibila:

http://www.sibila.com.br

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