Alcir Pécora/Literatura/Literatura Brasileira/Roberto Piva

Pécora revisita transgressão lírica (e obscena) de Hilda e Piva

[O crítico literário Alcir Pécora]

À procura de uma fotografia de Hilda Hilst encontrei esta entrevista de Álvaro Kassab, em que o crítico e pesquisador Alcir Pécora comenta a obra de Hilda Hilst e Roberto Piva. A entrevista foi publicada no Jornal da Universidade de Campinas em março de 2007.

A entrevista

São obras de intensidade incômoda: performáticas, escandalosas, brutais. Sobretudo são obras sem o menor pudor: trata-se, em ambos os casos, de uma literatura cujo fulcro é o obsceno. Isto os afasta do mainstream da literatura brasileira, sempre muito comportado. Curioso isso: país bandalho, literatura pudica”. As obras em questão são de Hilda Hilst (1930-2004) e de Roberto Piva (1937). O diagnóstico é do professor Alcir Pecora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), a quem coube a organização das obras reunidas dos dois escritores paulistas. Os livros vêm sendo publicados pela Editora Globo. Nesta entrevista, o intelectual fala sobre o seu trabalho e do papel de Piva e Hilda – o acervo da escritora está depositado no Centro de Documentação “Alexandre Eulálio” (Cedae) do IEL. “Eles são, em parte, personagens de sua literatura”.

 

Jornal da Unicamp – O que lhe atraiu na proposta de organização das obras completas de Hilda Hilst e Roberto Piva? Por que lhe ocorreu se dedicar editorialmente à obra desses dois autores?

Alcir Pécora – A condição básica da minha aceitação, em ambos os casos, foi o meu sentimento da qualidade excepcional das duas obras no panorama da literatura brasileira.

JU – Embora tenham publicado os primeiros livros há mais de mais de 40 anos, ambos foram durante décadas praticamente ignorados pela crítica, pela academia e pelo mercado editorial (vale lembrar que as edições eram, invariavelmente, artesanais). Despreparo da crítica ou falta de difusão da obra?

Pécora – As duas coisas existem. Acrescento o seguinte: a literatura de ambos é de legibilidade difícil no âmbito das correntes predominantes da produção e da crítica literária brasileira pós-45: não tem filiação construtivista, nem concretista; não tem enredo realista, não tem temas nacionalistas, nem tem militância política convencional, embora as obras de ambos sejam altamente políticas e intervencionistas. São obras de intensidade incômoda: performáticas, escandalosas, brutais. Sobretudo são obras sem o menor pudor: trata-se, em ambos os casos, de uma literatura cujo fulcro é o obsceno. Isto os afasta do mainstream da literatura brasileira, sempre muito comportado. Curioso isso: país bandalho, literatura pudica.

JU – Por outro lado, não deixa de ser curioso que tanto Hilda como Piva tenham sido sistematicamente rotulados – nem sempre de forma lisonjeira – pela mídia em geral, quando não por seus pares. Os adjetivos (“malditos”, “marginais” etc) passaram a ser usados sem cerimônia, sobretudo depois de um certo reconhecimento público. A que o senhor atribui essa fábrica de estereótipos?

Pécora – Em parte, os rótulos de malditos e marginais são produzidos pelos fãs de ambos. É coisa que lhes traz certa admiração adolescente e romântica. Mas é verdade, o mesmo traço trai preconceito e distância. A crítica séria, nos dois casos, tendeu a lavar as mãos. O que se passa é o seguinte: ambos os autores são muito interessantes pessoalmente, são gente muito incomum, culta, falante, divertida, bem-nascida, que impressiona à primeira vista e que espanta e depois faz a festa dos entrevistadores.


Era impossível ficar ao lado da Hilda e não ir às lágrimas de tanto rir, ou de tanto ser importunado. Muita gente até hoje tem medo de chegar perto do Piva e ouvir o que não quer. A obra exigente dos dois autores, que postula uma leitura atenta, reflexiva, acaba superada pela facilidade dessa imagem pública atraente de loucos ou desbocados. Em parte, pois, eles são vítimas da própria exuberância; não seria um problema tão grande, se aliado a isso não houvesse uma imensa preguiça e incompetência de ler.

JU – No campo, digamos, comportamental, Hilda e Piva, deliberadamente ou não, recorreram à iconoclastia e ao experimentalismo. Em que medida esses componentes migraram para a obra dos dois?

Pécora – Eu tenderia mais a explorar o lado inverso da sua afirmação, pois Hilda e Piva, em parte, são personagens de sua literatura. Eles se autocriaram com base em suas próprias metáforas. Tornaram-se, por assim dizer, o suporte material de sua obra.

JU – Existem outros pontos de contato entre as obras de ambos? Se sim, quais seriam?

Pécora – Até agora, só falamos dos pontos de contato. Acrescento mais um: o valor da amizade como afeto decisivo na obra de ambos. Mas é igualmente interessante falar de suas diferenças. Em termos poéticos, Hilda lida basicamente com modelos da tradição ibérica, em particular da chamada poesia mística, de S. Juan de la Cruz, de Sór Juana, e da poesia órfica do século XX, de Rilke a Jorge de Lima. Na prosa, o registro de Hilda é tendencialmente baixo, econômico e dialógico: Beckett e Joyce são referências importantes aqui. O procedimento fundamental é o de um fluxo de consciência altamente dramatizado.

Já Piva tem sempre um ritmo exaltatório, ditirâmbico, e suas referências fundamentais são a poesia de Walt Whitman, dos beats, do surrealismo etc.; mas articula todo esse esporro libertário com a poesia cerebral de Dante, sua mais extensiva referência. Em ambos os poetas, há uma espécie de dialética entre o muito alto e o muito baixo. Só lhes falta completamente o senso do medíocre. Para ensaiar uma comparação brusca final, podíamos dizer assim: Hilda até quando é sublime tende ao obsceno; Piva, ainda quando é obsceno, tende ao sublime.

JU – Hilda Hilst enveredou pela poesia (de forte apelo lírico), pela prosa e pela dramaturgia. Não raro fundia os gêneros. Que avaliação o senhor faz da evolução de sua obra?

Pécora – Para mim, a obra de Hilda Hilst apenas se tornou grande depois que começou a escrever prosa. A poesia posterior à prosa ganha muito em intensidade e em variedade de registro. A produção teatral se faz de um jato, ao final dos 60, mas se desenvolve na forma peculiar de sua prosa de ficção, onde o fluxo de consciência se desdobra em várias emanações de uma mesma persona. É um fluxo dramático, como já disse. As crônicas são, em geral, fusões galhofeiras e aplicadas às circunstâncias do conjunto da obra.

JU – Hilda nunca pertenceu a uma escola literária. É possível classificar sua obra? Qual o seu lugar na literatura contemporânea brasileira?

Pécora – Em termos de escola literária poética, eu a colocaria na linhagem de Jorge de Lima. Em termos de prosa, não há escola alguma. É a escola Hilda de devastação crítica e autocrítica.

JU – Já a obra de Piva ficou praticamente circunscrita à poesia, demarcando um terreno visto por alguns como seminal, diferente de tudo que se produzia à época de seu primeiro livro, no início da década de 1960. Ao mesmo tempo, quase bissexto, o poeta percorreu caminhos de diferentes matizes. O que o senhor destacaria nessa trajetória?

Pécora – É engraçado: a poesia de Piva emerge regularmente de tempos em tempos, de 12 em 12 anos. Cada irrupção tem uma dominante diferente: beat, psicodélica, mágica… Mas tem sempre um viés do excesso, do que não cabe em si mesmo, do transgressivo como centro da vida. Ao contrário de Hilda, Piva nasce feito: sua primeira poesia já é grande.

JU – Qual o papel de Piva na poesia brasileira contemporânea?

Pécora – A poesia de Piva ainda compete por um lugar de destaque. Apenas gente do ramo a conhece. Mas a sua divulgação naturalmente tende a crescer, com as edições da Globo. Acho que tende a ocupar um lugar na linhagem de Murilo Mendes: de uma erótica voluntarista, metafísica e política.

JU – No prefácio do livro Um Estrangeiro na Legião, de Piva, o senhor escreveu que é “difícil não amar gente inconformada, num mundo de mansos”. Existe literatura sem inconformismo?

Pécora – Existe: a do tipo que ganha concursos e prêmios. Evidentemente não vale nada.

Quem é Alcir Pécora

Alcir Pécora é professor livre-docente e diretor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, onde leciona desde 1977. É autor, entre outros trabalhos, de Teatro do Sacramento (SP/Campinas, Edusp/Editora da Unicamp, 1994); Máquina de Gêneros (SP, Edusp, 2001); As Excelências do Governador, em co-autoria com Stuart Schwartz (SP, Companhia das Letras, 2002). É co-editor da revista Sibila.

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