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Interpelações sobre a pequena Maisa

Por Rudinei Borges

Hoje assisti Maisa. Não a grande cantora Maysa que, neste ano, foi tema da minissérie da Rede Globo dirigida por Jaime Monjardim e escrita por Manoel Carlos, mas a pequena apresentadora Maisa, que tem um programa infantil no SBT e, às vezes, flerta com Silvio Santos aos domingos. Ela usava um vestidinho branco e os cachos dos cabelos eram impecáveis. Com um sorriso quase constante conversava com os telespectadores por telefone e no fim de cada bloco dançava, de modo desengonçado, dublando uma música cantada em inglês. Tudo certo. É uma criança talentosa.

Por um momento fiquei indagando como é Maisa em casa e na escola ou como é a sua relação com crianças da mesma idade. Não que isso me interesse de maneira especial. Afinal, Maisa tem pai e mãe que com certeza cuidam do bem estar e do desenvolvimento saudável da filha prodígio. Porém – e em verdade -, esta menina parece-me personificar o fascínio que as crianças exercem na televisão brasileira, em particular em alguns programas musicais de auditório, como o de Raul Gil, onde Maisa começou ainda muito criança. Aliás, depois que ela foi contrata pelo SBT tornou-se quase onipresente na desgostosa programação da emissora. Maisa segura a audiência e até ganhou, num destes sábados, da experiente Xuxa, a “rainha dos baixinhos”. Trata-se de uma marca de sucesso, um fenômeno – como Maisa é chamada em uma propaganda de esponja de aço. E pelo visto o SBT vai explorá-la até que o público não suporte mais vê-la na televisão. Ou não. Não sei ao certo em que vai resultar o caso de Maisa. Talvez ela consiga alongar a sua carreira televisiva por anos, como fez Angélica, que começou cedinho a fazer comerciais e a aparecer nos programas do saudoso Chacrinha. Naquela época a criança já exercia fascínio no telespectador.

Não sou contrário à aparição de crianças na televisão. Muitas delas em filmes, por exemplo, são capazes de atuações extraordinárias, como o menino que interpretou Pixote no filme de Hector Babenco. Ou Daniel Oliveira que fez uma atuação inesquecível, junto à Fernanda Montenegro, em Central do Brasil de Walter Salles. Até hoje fico encantado com a espontaneidade de Daniel naquele filme de fotografia e roteiro singelos. A televisão, por vezes, abusa da imagem da criança. E, sem exageros, elas parecem um conjunto engraçado de marionetes que agem sob o comando de diretores e apresentadores. E o futuro delas dependerá exatamente do fascínio que exercem, ou seja, da audiência que darão. Se não ganham a simpatia do telespectador logo são deixadas de lado. A fila anda e outras crianças aparecem para tomar o lugar.

Além do interesse das emissoras há o desejo dos pais de verem os filhos brilharem. O sonhado quinze minutos de fama é disputado por milhares de famílias que vêem nos filhos a esperança de deixar o ostracismo. Elas talvez alcancem aquilo que os pais sempre quiseram, mas não tiveram oportunidade. Neste sentido, a procura pelos programas de calouros é enorme e enorme também é a vontade de conquistar a fama. Questiono-me por que alguns pais inscrevem os seus filhos para cantar quando eles não sabem. As crianças findam por enfrentar situações de vexame diante de platéias lotadas. Não sei se este anseio pelo sucesso é realmente vontade dos filhos ou se é dos pais.

Uma questão que também me interpela é a situação financeira dessas crianças. Não sei ao certo, no entanto o que vejo é uma maioria vinda de famílias pobres,o que é explorado para a comoção do público. É como se dissessem: “olha, tão pobrezinha, mas tem tanto talento”. Ser pobre é um quesito a mais para que a criança exerça a fascinação. É como um exercício de redenção, pois conceder oportunidade para que ela cante é como livrá-la dos malefícios da pobreza. Os apresentadores se gabam do ato de caridade. São verdadeiros heróis. Não digo que seja uma ação de má-fé. Não me iludo, porém, a ponto de acreditar que a engrenagem televisa não saiba tirar vantagem do que o talento das crianças pode oferecer. Quando Maisa perder o sucesso aparecerá outras Maisas adaptadas a uma nova realidade e a um novo público. Assim, é o ciclo e o itinerário das crianças nas emissoras de TV. Em todo caso, creio que Maisa é uma significativa fonte de renda para a sua família. A qualidade de vida da apresentadora está garantida, enquanto as outras crianças têm que se contentar com o cachê do Raul, que deve ser maior que o Bolsa-família do governo federal.

Retornando ao começo, perguntou-me quem e como será Maisa no futuro: a imagem que fizeram dela no meio televisivo? Decerto, tanta exposição terá alguma interferência na formação da personalidade da pequena apresentadora, como tem nas outras crianças de outros programas. Agora, resta saber se os pais estão preparados para isso e se as crianças estão prontas para assumir aquilo que, sinceramente, não sei se é a escolha delas.

Há algo em que devemos concordar: a idéia de sucesso e de fama é uma construção social. Nenhuma criança nasce com o estranho sonho de fazer sucesso, de ser amada e aclamada por milhares de pessoas. Afinal, a maioria vive no anonimato e vive muito bem. A televisão não comporta espaço para todas as crianças que possuem talentos artísticos. É preciso interpelar as condições em que surge a iniciativa dos pais que levam os filhos para os programas de TV. Adiante, quando estiverem crescidinhos, os filhos cobrarão por isso. E creio que poderão tomar as suas próprias decisões. Longa vida à Maisa.

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