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Brasileiros e futebol

Por Rudinei Borges

Os brasileiros gostam demasiadamente de futebol. E nosso grande mérito é uma bola dourada trazida por homens suados, brasileiros como nós. (Não, as brasileiras não foram feitas para um esporte tão brutal). De fato, o futebol é uma porta aberta ao sublime. Ridículos? Ridículos são aqueles que querem refutar a beleza dessa paixão nacional – estes escritores que nunca publicaram.

Trata-se, entretanto, de uma verdade (a nossa pobre verdade). E nem a epistemologia pode negar: os brasileiros amam futebol como amam a Deus e a pátria e a mãe e a miséria que recebem para manter o corpo em pé. Os brasileiros choram e gritam e riem e matam por futebol. Temos uma causa nobre para tudo isso. Trata-se do grande enigma que Mário e Oswald de Andrade não entenderam. Que os tropicalistas esqueceram. Estava errado Sérgio Buarque de Holanda. Não somos homens cordiais. Somos apaixonados por futebol. Que o resto do mundo desconheça os nossos poetas e cineastas e romancistas e artistas plásticos, mas que conheça os nossos jogadores de futebol.

 Nem Theodor Adorno, Walter Benjamim e toda a Escola de Frankfurt entenderiam esse fenômeno absurdo. Porque o futebol é a prova evidente de nossa insuficiência. É um dogma. Perdoem-me, porém não somos os melhores porque temos os melhores jogadores. Isso revela o quão nosso orgulho é superficial. Não podemos limitar toda a cultura de um povo a isso. A seleção brasileira de futebol não é, e nem representa, o povo brasileiro (perdoem-me outra vez). A seleção brasileira é a representação de um Brasil mentiroso e ilusório que querem enfiar goela abaixo como se fôssemos tolos. Não somos.

 Engano-me, deveras: Sérgio Buarque estava certo: somos cordiais e o futebol é o antídoto que garante a nossa cordialidade. Ou somos o povo mais criativo da história, porque conseguimos passar por desgraças terríveis com humor e simpatia, porque enganamos com uma elegância invejável. O que somente Vladimir e Estragon, os vagabundos inventados por Samuel Beckett em Esperando Godot, conseguiram.

 Os dois personagens de Beckett ficam uma imensidão de horas criando bobagens para passar o tempo enquanto esperam o enigmático Godot, aquele que ninguém sabe quem é nem o que é. Alguns estudiosos afirmam que Godot é uma espécie de deus e outros que é a morte, o que implica numa referência metafórica à existência do homem neste mundo. Ou seja, a vida (a nossa vida) é desprovida de sentido, não uma há objetividade palpável. Assim, temos que inventar joguinhos para que o tempo passe e tudo fique menos cruel.

 Diante da monstruosidade denunciada por Beckett podemos chegar a uma consideração: o futebol é um louvável invento. Com esse esporte estamos aptos a suportar a falta de sentido da vida sem nos preocuparmos com a possibilidade do suicídio. Um dia haveremos de encontrar Godot. O encontro com ele é o nosso vil destino. Deveremos encará-lo. O futebol pode ser um bom entretenimento enquanto ele não chega.

 Neste aspecto, tudo o que resta é desinteressante (ou não). Sócrates e Aristóteles não nos interessam. E Marx é mesmo um filósofo subversivo. E Hilda Hilst foi uma escritora depressiva que se alojou por anos num sítio distante. Para que criticar esse amor do brasileiro por futebol em detrimento a pouca seriedade com que ele olha a educação no país? Nós lembramos os nomes das modelos bonitas com quem Ronaldo namorou. Nós não lembramos o nome do último deputado federal para quem votamos, menos ainda do último vereador. E quem lembrará deste pequeno artigo que analisa o futebol como uma farsa? O futebol é uma farsa dos governos, das elites, da mídia? Não sei. Todavia, o futebol é um consenso e devemos duvidar do que é consenso, nem que seja para torná-lo mais consenso. Duvidemos (mesmo para passar ou matar o tempo). Há grandes interesses naquilo que é instaurado como verdade.

Bem, em outra peça de Beckett o jogo termina e aí não podemos ficar enganando. Em Fim de partida as nossas medíocres verdades são postas às claras. Quando finda o jogo desligamos a televisão (ou deixamos o estádio) e tudo o que lutamos trabalhosamente para esquecer volta à tona. A nossa humilde pequenez reaparece. Por certo (se formos espertos) guardaremos alguma gotícula de esperança em qualquer coisa estrambótica ou não. A nossa tentativa valeu à pena.

 Para além de todas as partidas (de futebol ou não) teremos de enfrentar os espectros reais de nossa existência. Nós homens somos animais espertos e dentre as idiotices que inventamos o futebol, decerto, é a mais terna, a mais branda.

 Penso que Ernesto López não gosta de futebol. Perdoe-me, por fim.

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