crônicas
Crônica de escola
“… vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba.” (Machado de Assis – Conto de escola)
Comecei a estudar só aos sete anos, quando a minha família deixou a Rodovia Cuiabá-Santarém e foi morar na cidade. Em verdade, nesta época eu não entendia o que era escola. Sentia apenas uma admiração engraçada por quem sabia ler. Queria decifrar as palavras pequenas que ficavam embaixo das ilustrações grandes dos livros de conto e fábula. Era o desejo de desvendar mistérios, de descobrir o tesouro enterrado.Fui matriculado numa escola velha, de parede e portas riscadas e o teto cheio de goteiras. A lousa tinha buraquinhos teimosos. Da cozinha chegava um cheiro bom de mingau de aveia. A escola Raimundo Pereira Brasil levava nome de coronel da borracha, do tempo em que muitos homens na Amazônia esbanjavam riquezas. Muitos ali eram filhos de garimpeiros que iam para o Alto Rio Tapajós tentar a sorte de toda maneira, por vezes sucumbindo às doenças e à violência nos garimpos.
A professora despertava uma mistura de respeito e paixão quando olhava para os alunos vestidos de camiseta branca e calça em tergal azul-marinho. Ela entrava na sala de aula com um monte de livros, com desenhos de bichos e letras. E nos fazia colorir os desenhos de bichos e letras, depois colocava num mural. Assim, descobri as vogais e consoantes. E vi nascer numa lauda branca do meu primeiro caderno o meu nome que não era de coronel da borracha nem de garimpeiro, mas somente um menino filho de migrantes vindos das terras do Tocantins. Também vi nascer o nome das coisas nas placas das lojas, nas bancas da feira: quiabo, farinha, pirarucu, cará, ingá e arroz. Aprendi a escrever o nome da mãe, da vó, do vô, dos irmãos. O nome dos parentes vivos e mortos. O nome dos parentes que estavam pra nascer. Era uma vontade desmesurada de escrever e soletrar as palavras, uma espécie ingênua de encantaria que beirava o sublime.
No recreio o mundo girava e o silêncio das aulas perdia-se num monte de cochichos, risos incandescentes e gritos desavisados. Corria-se não sei pra onde. Escondia-se feito mariposa nas árvores. E todos os raios do sol ganhavam uma ternura estranha como se não houvesse sofrimento fora dali. A escola velha parecia novinha em folha. O ânimo reinava mesmo com a diretora brava e as lágrimas quando as notas eram abaixo da média.
Com as palavras também vieram os números e a tabuada e os cálculos infindos: duas mangas mais duas mangas. Quanto custa o suco de cupuaçu? Qual o preço da cocada? Aprendi a contar o troco, a comprar pão na Padaria do Celso. E vi que conseguir dinheiro custava o suor dos homens, a vida dos homens.
Atrás da escola havia um matagal imenso, casa de passarinho e calango. Lá o vento brincava com os galhos das árvores altas que se aproximavam das nuvens em forma de cavalos valentes. Eu tinha medo. Diziam que naquele matagal morava a Matinta Perera. Conforme a lenda, a Matinta Perera ou Matim-Taperê é uma velha acompanhada de um pássaro, que emite um assobio agudo. Ocasião em que se promete tabaco ou fumo. A velha carrega a sina de “virar” Matinta Perera. À noite ela se transforma num ser espantoso e assombra as pessoas.
O que mais marcou o meu primeiro ano na escola foi o dia em que a professora faltou e um professor substituto veio com um livro grosso e o abriu para que as histórias que moravam lá dentro viessem nos visitar. Vi passear diante de meus olhos a boneca Emília e o saci-pererê; o menino maluquinho; o pavão misterioso; a pequena vendedora de fósforo; o patinho feio; o Visconde de Sabugosa; Pinóquio e Gepeto; Chicó e João Grilo. No fim da aula o professor abriu o livro de Saint-Exupéry e leu a seguinte passagem: “A raposa conversava com o principezinho: A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!”
Desde então, também quis criar histórias e labutar com as palavras como labutam os escritores e os poetas. E para isso era preciso, além de imaginação, muito conhecimento. Era preciso conquistar uma minuciosa intimidade com a língua que falamos e com o modo de escrevê-la.
Dentro da pequena sala de aula o mundo grande, o mundão, veio até mim com os seus percalços e armadilhas. E pude, e posso, trilhar o meu desajeitado itinerário, onde planto sementes e tempestades.
Nunca mais vi a minha primeira professora e, hoje, pouco sei de meus colegas. Mas guardo uma fotografia viva e colorida em minhas memórias. É como se estivessem todos lá e eu me orgulhasse dia a dia de tê-los conhecido.
*Publicado no livro Construindo saberes (In House, 2009).
Carta para Rosalva Borges
Tenho guardado todo o mistério, minha mãe. Por um instante sentei no chão da sala. Tudo está escuro e silencioso. São 3 horas da madrugada e somente eu estou acordado, como costumava fazer em nossa casa em Itaituba. Na nossa pequena casa no beco da Sétima Rua eu inventava poetas. Tudo o que é belo e sagrado está agora diante de mim como num álbum de fotografia: o semblante da vó; a água fria da cacimba; o cheiro do barro; os jambeiros e mangueiras; os buritizais; as notícias de Ananás; os parentes em Manaus; a capelinha de Nossa Senhora das Graças; a estrada enlameada da vicinal; os festejos de Sant’Ana; a mata e o rio Tapajós; o cemitério Santo Antônio; o Colégio Isaac Newton; a prefeitura velha. Tudo o que eu havia guardado na arca do esquecimento apareceu num cheiro forte de jambu e copaíba. Numa cantoria breve. São as mulheres na procissão, a minha gente amazônica, o meu povo moreno.
Estão todos aqui. Depois que passei quase três dias dentro de um ônibus numa viagem de São Paulo para o Pará todos os encantados da mata vieram morar nos meus olhos. E mesmo que eu queira não posso negar que qualquer coisa árdua acontece quando chego ao cais, quando os barcos vão para além das ilhas ou quando atracam. São os mesmos barcos. Talvez seja isto que me faça retornar a este tempo que não foi: a infância. Esta fortaleza longínqua e próxima sob os meus pés, no chão destas casas, onde servem suco de cupuaçu em copos de alumínio.
Eis aqui o livro que neguei, as palavras que deixei escapar. O menino do beco trouxe as suas memórias. E um dia talvez outros meninos vão lê-las sentados no trapiche, quando for inverno e só restar o aconchego da rede. Reuni uma mistura de poema, conto e crônica. Resgatei relatos que escrevi entre treze e dezenove anos. Tempo em que ainda morava em Itaituba. Todas as cores, ritmos e cheiros são locais.
Desejo que a senhora fique orgulhosa de cada palavra, de cada imagem. É a alegria pouca que posso oferecer.
Com amor,
Rudinei Borges.
*Carta de abertura do livro Chão de terra batida.