Pular para o conteúdo

Carta a um amigo

21/02/2012

São Paulo, 31 de janeiro 2012.

-

Meu caro,
-
Estou em dívida com você. Em especial sobre as questões levantadas em outro e-mail. Saiba que é sempre uma alegria conversar com você. Neste últimos encontros eu estava realmente muito cansado e ao mesmo tempo muito alegre com o projeto teatral que estamos desenvolvendo na Trupe Sinhá Zózima. Sobre minha reflexão sobre o projeto, não se trata de otimismo ou pessimismo. Aliás, isto é uma grande bobagem. Nietzsche, no século XIX, já criticava esta lacuna entre bem e mal. Conceitos comuns em nossa cultura judaico-cristã. Claro que escrevo isto para provocá-lo. Porém, para ser franco não suporto qualquer coisa que pareça auto-ajuda. Mas não sou tão bravo assim, rapaz.
-
Fiquei feliz ao ouvir as suas ideias sobre uma possível exposição de artes visuais. Por isso mesmo tenho algumas indicações para você. Suas ideias estão em consonância com muitos artistas e vão além da fotografia. Creio que você deve pesquisar dois termos:
-
a) Performance;
b) Arte Multimídia.
-
Penso também que devemos ir à Bienal de Artes este ano. Não lembro em que mês ocorrerá. Também indico outros materiais, a partir do conceito que você comentou, aliás do que lhe interessa na fotografia: “captar o que o olho humano não capta”.
-
a) O livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e o filme do nosso querido cineasta, Fernando Meireles. O filme tem o mesmo nome do livro.
b) O belo documentário “Janela da alma” de João Jardim e Walter Carvalho.
c) O filme argentino, “O segredo de seus olhos”.
-
Se quiser realmente ficar louco, comece a estudar semiótica que apresenta conceitos imprescindíveis para quem deseja ser um fotógrafo de verdade. Indico fotógrafos que gosto muito:
-
a) Luiz Braga, fotógrafo paraense;
b) Sebastião Salgado;
c) Henri Cartier-Bresson;
e) Jindrich Streit;
f) August Sander;
g) Diane Arbus.
-
Um fotógrafo é, sobretudo, um artista. E um artista é, sobretudo, um
pesquisador. Portanto, nunca haverá verdadeiro fotógrafo que não seja um investigador inquieto. Indico também cineastas inquietos:
-
a) Ingmar Bergman – este é o maior de todos, um gênio – veja o filme “Persona” e “O Sétimo Selo”;
b) Felinni – grande mestre – veja o filme: “Oito e meio”;
c) Pasolini – veja o filme: “Teorema”;
d) Kurussaua – veja o filme: “Os sonhos”.
-
No Brasil, conheça Glauber Rocha. E se puder, esqueça os filmes americanos. São quase todos catastróficos, fracos e previsíveis. Mais do mesmo, sempre. E disseminam esta ideologia boba: “você tem que ser vitorioso”. Todos os filmes americanos se resumem nesta frase. É um mistura de culto ao capitalismo e ao pior da Teologia da Prosperidade. Parece-me que Calvino está mais vivo do que nunca. Filmes e desenhos americanos concernem no lixo do lixo da cultura. Salvam-se Orson Welles, Wood Allen e Scorcese. Geralmente filmes que ganham o Oscar são catastróficos. E para terminar de chutar o balde: você só será um verdadeiro leitor quando deixar de ler livros que estão na lista dos mais vendidos. Geralmente é literatura de quinta categoria. Coisa que não vale um centavo.
-
Cara, na verdade precisamos deixar de consumir o lixo da indústria cultural (Theodor Adorno escreveu muito sobre isso). Precisamos conhecer arte e literatura de verdade.
-
Penso que você deva começar a estudar e produzir boa fotografia.
-
Grande abraço, meu caro.
-
Utopia e luta, sempre!
-
Rudinei Borges
Um Comentário leave one →
  1. 22/02/2012 00:48

    Excelente carta! Creio que seu amigo ficou lisonjeado com suas opiniões e principalmente pelo cutucão que deu a ele.

    Um grande abraço,
    De um amigo muito grato pelos alertas…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s