a rua sétima

Notícias de Cuiabá

Publicado em Benjamim Moser, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Rubem Braga por Rudinei Borges em 22/12/2009

Roviária de Cuiabá

 

Cuiabá. Mato Grosso. 22 de dezembro 2009.

Saudações a todos.

Estou em Cuiabá, capital do Mato Grosso. Faz um calor infernal, indescritível, daqueles que nem Dante Alighieri saberia explicar. Cuibá tem muitas e muitas casa; poucos edifícios. Acho que aqui odeiam árvore, porque vi poucas. O cenário do estado é marcado por planntações de soja à beira da estrada. Vi um pouco de plantação de cana também. Há umas casas perdidas aqui e acolá entre serras, mas tudo parece plano. E o sol? Parece que a natureza esqueceu a existência da sombra. Só há sol. Muito sol. Como se fosse vários e se espalhassem pelo céu. Ah, nunca vi tanta gente que viaja de ônibus e reclama tanto. Eu já sei como é, por isso fico calado lendo e olhando pela janela. Sempre saio cheio de animação para escrever inúmeras histórias.

Encontrei o mesmo vendedor de passagens de ônibus numa das agências da rodoviária. O mesmo que me vendeu passagem para Itaituba ano passado. Estou usando o mesmo computador, na mesma Lan House que usei em 2008. A diferença é que as letras do declado desapareceram e  alguém as cobriu com um esmalte branco. Agora as letras ficaram enormes. O “r” está gigante.

A grande alegria que vivi na viagem de São Paulo para cá foi a minha leitura incessante da biografia de Clarice Lispector. “Clarice” do americano Benjamim Moser é um livro revelador e instigante. Toda a menina Clarice está lá com a sua família e sua história; desde a vinda da Ucrânia. Já estou na parte em que ela chega ao Rio de Janeiro e publica o seu primeiro romance “Perto do coração selvagem”.

Volta e meia mudo de canal e leio com grande alegria a novela “Campos gerais”, a históra do menino Miguilim, do nosso João Guimarães Rosa. Talvez Miguilim se tornará o livro da minha vida. Um amigo quando leu o meu primeiro livro publicado, “Chão de terra batida”, disse que eu deveria ler o livro de Guimarães. Bebi nas fontes do escritor mineiro indiretamente. Cheguei a ele via Adélia Prado e Manoel de Barros, dois poetas que me influenciam profundamente. É uma cosntrução das mais originais da língua portuguesa.

Por fim, também volta e meia leio alguma crônica de Rubem Braga. O livro “200 crônicas escolhidas” é uma espécie de presente para o leitor que viaja, pois dá para relacionar as paisagens citadas por Braga com o que estamos vendo. Sobre o livro encontrei um comentário de Braz Ogleari que afirma o seguinte: “com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta flagrantes da vida cotidiana que ele próprio viveu ou testemunhou”.

Então fica a sugestão dos meus três livros de viagem:

1. Clarice (de Benjamim Moser)

2. Campos gerais (de Guimarães Rosa)

3. 200 crônicas escolhidas (de Rubem Braga)

Hoje à noite parto para Guarantã (ainda no Mato Grosso, este estado que não termina nunca) e de lá vou para Itaituba, a cidade onde nasci no interior do Pará, que a personificação da distância. Aí sim vou encontrar muita lama e poeira na Rodovia Santarém-Cuibá. Espero que a viagem renda boas histórias.

Olha que eu ouvi de uma senhora resmungona. Ela reclamou tanto da viagem, porém quando olhou o céu ela disse: “gosto tanto do céu assim: azuzim, azuzim”. Anotei numa das páginas do livro do Guimarães.

Abraço apertado,

Rudinei Borges

Sobre “Campos Gerais” de João Guimarães Rosa

Disponível na página http://artistasdopovo.blogspot.com

O livro de Guimarães Rosa – Miguilim – contrasta um ambiente pobre num mundo rico – Minas Gerais ou como está no título da novela Campos Gerais. A cidade predominantemente rural e pequena, Mutum é o cenário de toda a história do Miguilim, que é uma pessoa que está lutando para chegar aos seus objetivos.

O autor traça uma história em que uma família simples vive seu dia-a-dia como muitas famílias rurais que ainda existem no Brasil. Guimarães Rosa faz uma imersão neste mundo trazendo a linguagem simples, típica da região com seus costumes e tradições, das pessoas do campo.

Para mim a cidade Mutum é uma crítica social, pois é uma região como várias pelo Brasil, é uma região abandonada pelo poder público onde quem sobrou, isto é, quem vive lá tem que se virar para ter uma vida melhor.

Um exemplo de que Guimarães Rosa cita a cultura da roça é quando o pai do Miguilim sai da fazenda para caminhar pelo mato com seus cachorros para caçar o coelho. Os cachorros são os auxílios da defesa do pai do Miguilim.

A obra tenta captar o cotidiano de um personagem que batalha, pensando que está vivendo em um mundo alternativo, diferente, sonha alto, mas que com ajuda dos outros, primeiramente com o Tio Terêz e depois com o irmão Dito, o Miguilim constrói a sua formação de visão do mundo, onde ele se esfoça e tem um reconhecimento de todos.

Apesar de suas fraquezas, seu aspecto raquítico ele tentou batalhar para conquistar o respeito do pai, que é um sujeito sofrido da vida e acha que todos os filhos tinham que passar o mesmo para se tornar homem de fato.

Miguilim pertence a uma família pobre, simples da roça brasileira em que a família funciona com um sistema patriarcal, isto é o pai é o chefe da família, Nhô Bernardo.

Ele é um pai autoritário que não dá muita atenção para o filho mais novo, o próprio Miguilim, a mãe Nhanina, que é uma submissa ao marido e que passa dias de tristeza numa região vazia e abandonada, acreditando numa vida melhor. A única pessoa com quem respeitava era a Vovó Izidra – a moralista da família.

Tem o Tio Terêz, que no começo era visto por Miguilim como um amigo, que no decorrer da história ele não é visto mais da mesma forma após a morte do pai, porque com o passar da novela, Miguilim desconfia que o Tio Terêz está traindo o pai com a mãe. Tem o braço direito do Miguilim, Dito, que sempre vai dar apoio em todos os momentos, até a morte. Durante a doença de Miguilim, o irmão ajudou na recuperação do protagonista da história com a energia da alegria. Dito é destacado como uma parte importante da novela. Pelo pai, ele é visto como sucessor da liderança da família pela ajuda na roça e por ter amadurecido rapidamente.

Dito ensina o pequeno Miguilim a viver a vida, aplica valores para o amadurecimento do jovem garoto. Apesar da história estar centrada ao redor do Miguilim, Quando Dito estava doente, a família tenta salvar a vida dele por meio de rituais e outros meios demonstrando que o Dito era uma esperança para o desenvolvimento da pequena comunidade.

Na história há vários casos de desrespeito à autoridade e também a repressão da autoridade como o caso que o Pai está batendo na mãe Nhanina por causa do Tio Terêz, em que o suspeita da traição, e o inocente Miguilim tenta defender a mãe entrando no meio da briga em que acaba apanhando.

O ápice da história, quando o Dito morre, Miguilim se sente desprotegido, pois o irmão era um conselheiro para enfrentar os desafios que a vida oferece. O Dito atua como a razão e utiliza o logos que é um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza. Isto é, Miguilim só tomava alguma atitude quando o Dito estava certo e até tentava imitar o irmão, quando ficou doente. O Miguilim era a ação e o Dito a razão, o pensamento.

Além disso, o autor tenta traçar os grupos sociais que vivem em Mutum, como os “vaqueiros”, que ensinam o Dito e Miguilim os conhecimentos sobre a criação de gado, como tirar leite, sarar uma “pisadura” ou então o grupo das “mulheres da cozinha” que citam o dia-a-dia da vida da Rosa, que está limpando as tripas do porco para cozinhar e é incubida as tarefas que tem maior iniciativa e capacidade de cálculo , a Nhanina, que está fazendo sobremesas, Mãitina, uma “negra fugida”, que pode ser até uma referência de escrava, ou sofrida pela vida, que faz os trabalhos mais pesados e que está desapontada por não ter reconhecimento e ainda é maltratada pela Vovó Izidra que a trata como uma “traste de negra pagã”. Tem também a Maria Pretinha que é a auxiliar da Rosa.

Outro ponto forte, que é quando o pai de Miguilim se mata, acontece uma “renovação do poder”, pois quando Nhô Bernardo é substituído pelo Tio Terêz., que tem interesse em se casar com o Nhanina.

Miguilim que era muito dependente para a mãe acaba conquistando sua ‘liberdade” quando um sujeito vem da cidade e dá os óculos para ele pois a grade dificuldade que carregou na história de dele era um problema de visão que criava outras visões outros mundos na personagem.

Os personagens como o Miguilim e Dito tem uma ligação muito forte e destaca a forte relação que os dois tinham de confiança num ambiente em que o pai é uma pessoa ignorante de conhecimento acadêmico, mas sábio com o conhecimento da vida, apesar da violência e da dureza, o pai mostrou seu lado frágil em dois momentos: quando o Miguilim quase morreu e quando o Dito morre.

Pois o pai fica desesperado com a enfermidade do irmão mais velho, a esperança da família para uma vida melhor e o Miguilim em que o pai fica arrependido porque se acha culpado pela doença de Miguilim, que se esforçou demais ao tentar fazer o mesmo trabalho que o irmão fazia. Para mim, a novela identifica muito a comunidades que estão espalhadas por este País, que tem seus laços sociais, familiares, com seus conflitos e rituais.

No final da história, com a “liberdade” conquistada, isto é, os óculos, Miguilim é convidado pelo sujeito que deu a possibilidade de corrigir a visão para viver na cidade, estudar, aprender um ofício e não depender mais da mãe como dependia.

Apesar de todo o sofrimento, a personagem Miguilim sofreu, batalhou, enfrentou desafios e teve uma vitória na vida, conseguindo enxergar e ter a possibilidade de estudar e ser independente para quem sabe um dia voltar a Mutum e ajudar sua família.

Morenidade

Publicado em Crônica de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 11/12/2009

 

Que é que o teu corpo tem que dá vontade de tê-lo perto sempre? Coisa estranha a morenidade do teu corpo. A morenidade de que gosto tanto. E repito aos ares: arte sublime a morenidade. Acerto de Deus que nem escureceu nem clareou. Deixou o teu corpo com o tom da tardinha, quando a noite vem chegando, mas o dia ainda insiste em ficar.

E o teu riso? Quem edificou a candura do teu riso? Quem mensurou esta mistura de dor e alegria numa dose só? E o teu olhar? De onde vem este modo de dizer as palavras em silêncio?

Dá vontade de partir para os campos e levar nas mãos uma gaiola como quem vai procurar passarinhos. Dá vontade de prender o teu corpo. De deixá-lo à vista. De domá-lo. Mas me diz: existe visão mais triste que um passarinho preso? Não há. Por isso, abdico do meu querer, do meu impulso. Vai. Eu me contento em assistir o teu corpo a caminho das ruas, tomando o sol das ruas. E sinto aquele nó.

Queria o teu corpo pra mim.   

[por Rudinei Borges]

[Fim de tarde chuvosa em Sampa. 11 de dezembro 2009]  

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Convite*Prêmio Canon 2009

Publicado em Prêmio Canon de Poesia 2009 por Rudinei Borges em 11/12/2009

Saudações. No dia 14 participo do lançamento da Antologia do II Prêmio Canon de Poesia. Tenho a alegria de ser um dos vencedores. São 50 poetas selecionados. Espero por todos.

Sarau Chama Poética

Publicado em Casa das rosas por Rudinei Borges em 11/12/2009

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Mário Bortolotto

Publicado em Mário Bortolotto por Rudinei Borges em 08/12/2009

Minha homenagem ao mestre, diretor, ator e dramaturgo: Mário Bortolotto! Força. A arte em São paulo, no Brasil, precisa de gente como você.

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O dia em que meu livro foi rejeitado

Publicado em Crônica, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 08/12/2009

Hoje à tarde recebi um NÃO na cara. NÃO com letra maiúscula mesmo. Desses NÃOS que deixam a gente amarelado, vermelho, com uma fontade de xingar a mãe de fulano, o pai de sicrano. Em minha santa ingenuidade inventei de levar para uma pequena biblioteca na Estação Paraíso do Metrô, aqui em São Paulo, o meu primeiro livro, Chão de terra batida. Queria doá-lo para a biblioteca. Esperava um riso da bibliotecária e um possível muito obrigado por colaborar com o projeto inovador de incentivo à leitura. Mas NÃO foi isto o que aconteceu. Ao contrário. Mostrei o livro. Ela olhou e disse: “NÃO posso aceitá-lo. Só nos interessa best sellers. Os livros mais vendidos”. Engoli a notícia. Deu aquele nó na garganta. Aquela raiva. Depois que eu vi a lista dos livros mais emprestados e deu um troço em mim. Aquilo então é que é best seller. Olhei para os lados. Agradeci por educação. Fui embora com o meu livro entre as mãos suadas. Acho que vou odiar para o resto da vida este estrangerismo, best seller. Best seller. Best seller. Best seller. Best seller. Best seller é o diabo.

Carta Erich Decat

Publicado em Erich Decat por Rudinei Borges em 07/12/2009

Brasília, 3 de dezembro 2009

Meu querido amigo e poeta,

Foi com grande alegria que recebi o seu livro. Li de uma só vez. À medida que lia era remetido às histórias que minha vó contava sobre o início de Brasília, quando eu era criança. Ou seja, os seus versos despertaram sentimentos há muito adormecidos. Gostei muito da simplicidade e da riqueza deles. Em especial, o trecho do poema O poeta, em que você diz: “tece metáforas em silêncio como se contasse segredos a ninguém”.

O seu Chão de terra batida é mágico e encanta a todos.

Forte abraço.

Do amigo Erich.

[Erich Decat é jornalista. É autor do livro Uma carona cultural: destino norte. O livro é resultado de uma instigante viagem de ônibus e barco para a Amazônia]

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Antônio Lázaro de Almeida Prado

Publicado em Antônio Lázaro de Almeida Prado por Rudinei Borges em 07/12/2009

[O poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado]


Nesta noite, passagem de domingo para segunda-feira, ando vasculhando em sites a poesia de Antônio Lazzaro. Aliás, ando vasculhando uma sensibilidade e rigor em falta em nossa poesia. Dá uma saudade quando recito baixinho os versos abaixo. Acho que poeta bom é aquele que consegue com que sintamos saudades de algo inominável. Este é o meu sentimento.


Alvíssaras

Que traz em seu alforje a madrugada?
E o áugure o que lê nas entrelinhas
Das arcanas entranhas do futuro?

Em seu ninho de fogo, generoso,
Que prepara em seu sangue o pelicano?
E Orfeu o que perscruta em sua lira?

Acaso já delira a pitonisa
Em sua embriaguez antevisora?
Qual a safra de sonhos do profeta?

Desvelo em seu tremor estas primícias
Do canto inaugural da Nova Idade,
E posso proferir meus vaticínios:

Haverá tanto amor na virgem Terra
Que seu mêstruo benéfico assegura
A vitória da Ovelha sobre o Lobo.

Tudo mais será escória do Passado,
Voz antiga, insensível, dispensável,
Que o fogo em seu ardor reduz a cinzas…

Embora infante boca do futuro
Já posso pronunciar meu Evangelho:
SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!



Sinfonias possíveis

Trago dentro de mim harmonizados
Muitos sons e canções, que não componho,
Tão vibrantes, coesos, concertados
Que enformam a textura de meu sonho.

Cantigas de ninar, trovas do povo,
Trinados matinais na voz dos ventos,
Capazes de gerar um canto novo
Capazes de aplacar dor ou lamentos.

Na força destes sons me fraternizo
Com a imensa harmonia do universo
Que moldo neste som claro e conciso.

E do instante pungente ou adverso
E de todo o sofrer me imunizo
No resgate eficaz de rima e verso.



Invenção da alegria

Há quem cultive a dor,
Eu invento a alegria.
De todo o meu amor,
Que vale mais que o dia,
Quero legar a história,
Quero deixar ao vento
(sem ais e sem lamento)
Uma justa memória
E enxuta fantasia.

Há quem celebre a morte,
Eu festejo a alegria.
Por graça ou por esporte
Ou mesmo por mania,
Quero inventar a vida,
Quero o melhor carinho
Doar a meu vizinho
Como a melhor partida
De sonho ou de poesia.

Há quem festeje o pranto,
Eu invento a alegria,
Razão maior do canto,
Antes que a cotovia
Arquive o nosso idílio,
Cancele o meu futuro,
Razão maior do puro
Clarão deste meu círio
Votado à alegria.


[Antônio Lázaro de Almeida Prado nasceu em Piracicaba, em outubro de 1925. Poeta, ensaísta, tradutor e jornalista, é Doutor e Livre-Docente em Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1953 a 1958.Transferiu-se para a UNESP (campus de Assis), do qual foi fundador, aposentando-se em 1982. É Professor Emérito da Faculdade de Ciências e Letras, e, ali, depois de Titular Fundador da Cadeira de Língua e Literatura Italiana, passou a Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada. Dentre suas obras publicadas, destaca-se o livro de poemas “Ciclo das Chamas”, lançado, recentemente, pela Ateliê-Editorial, em que se reúne parte de sua produção poética]

Capelinha de Nossa Senhora das Graças

Publicado em Chão de terra batida, Poesia Rudinei Borges por Rudinei Borges em 01/12/2009

O padre alemão falava enrolado. As meninas rezavam a Ave-Maria em latim. Dona Benedita no alpendre da casa contemplava um beija-flor namorando a roseira. O menino vestido de anjo subia a ladeira da Passagem Dr. Nelson. O rapaz olhava o semblante da moça morena. O homem carpia o terreiro da capelinha. Uma mulher anunciava o fim do mundo. A outra paparicava o marido que veio do garimpo. Um homem de chapéu dizia que não gostava de árvore. A professora contava a história de Francisco Orellana, o desbravador do Rio Amazonas. O sacristão puxava o sino da catedral de Sant’Ana. O velho coronel imaginava atrocidades. Um menino vendia peixe. O outro pescava tucunaré. Uma menina do povo munduruku fazia colares com penas de arara. Um barco partia para Aveiro. A freira dava bolo para as crianças. Um homem descalço suava e chorava. Carregava uma cruz pesada.

E eu nem sabia o que era Sexta-feira da Paixão.

[Publicado no livro Chão de terra batida. All Print Editora 2009]

Lição de arquitetura

Publicado em Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer por Rudinei Borges em 01/12/2009

Livraria da Esquina

Publicado em Poesia Rudinei Borges por Rudinei Borges em 01/12/2009

*para Luan Dukee


Todos os dias separo os horizontes,

Arrasto as portas,

Conto os meus dedos

Como o herói  mais fajunto desta rua.

Sou uma multidão.

Uma estranha multidão

Na livraria da esquina.

Sou esta arma cálida

Disposta a atirar.

Esboço de poema. Escrevi numa quarta-feria de novembro antes da meia-noite na Livraria da Esquina durante a apresentação das bandas “Volver” e “Madame Saatã”.

Barra Funda. São Paulo. SP

Fabiano Calixto

Publicado em Fabiano Calixto por Rudinei Borges em 01/12/2009

1. “A luz é uma sangria”.

2. “Quando a gente vive com muita pouca grana há uma necessidade atroz de se portar como cristão, de amar o próximo”.

3. “O Viaduto do Chá é uma cadela comendo lixo”.

4. “É preciso muita coragem para falar apenas o protuguês”.

5. “amor, isto é uma carta/deixe que achem que isto é um poema,/assim podemos dar boas risadas”.

* Versos do livro Sanguínea (Editora 34, 2007)

Fernando Pessoa * Tabacaria

Publicado em Fernando Pessoa por Rudinei Borges em 01/12/2009

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

Fernando Pessoa escreveu o poema Tabacaria em 15 de janeiro de 1928.

Muitos críticos consideram o maior poema em língua portuguesa do século XX.

Publicado em: Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar. 

Ferreira Gullar

Publicado em Ferreira Gullar por Rudinei Borges em 01/12/2009
O poeta Ferreira Gullar e Rudinei Borges

O poeta Ferreira Gullar e Rudinei Borges

 

 [Ferreira Gullar]

***

Publicado em Ramon Mello por Rudinei Borges em 01/12/2009

[No lançamento do livro Vinis Mofados do poeta Ramon Mello]

Affonso Romano de Sant’Anna

Publicado em Affonso Romano de Sant'Anna por Rudinei Borges em 30/11/2009

[O poeta Affonso Romano de Sant'Anna]

O meu livro “Chão de terra batida” chegou às mãos do grande e querido mestre, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Veja o comentário que o poeta fez em seu site.

O mundo visto das montanhas

Aqui, em  Friburgo,a lareira acesa (desculpem), no Rio aquele  calorão. Acabei de botar um agasalho. (Não me odeiem por causa disto). Flores para todo lado. E choveu, como antigamente, pontualmente, `as cinco em ponto da tarde, aquela hora fatídica de que fala Garcia Lorca, e a hora em que o marido da blogueira cubana desafiou para um duelo verbal, seus opositores.

Mas ligo a televisão.Tem um canal que só pego aqui-TV ESCOLA. E começam a passar um documentário sobre os italianos levados para campos de concentração. Oh! My God! (Sim, Deus hoje fala inglês!).

Deveriam mandar esse filme para o presidente do Irã, com saudações da mais alta (ou baixa) estima e des/consideração. Quem sabe ele se convence da tragédia dos judeus na II Guerra?

E fico sabendo, que os campos, funcionando desde 1933 haviam fulminado antes 500 mil alemães. Como, então, muitos alemães diziam que não sabiam de nada? 500 mil!… só de alemães antes de começarem a coletar ciganos, judeus e outros.

Tenho que aliviar essa carga pesada de informação. Trouxe para ler aquela que é a melhor revista hoje: BRASILEIROS. Procurem na internet e comprem na banca. A capa é esta:

Chega de revistas com  notinhas e fragmentos típicos da contemporaneidade.Finalmente, uma revista para se ler e pensar.

E leio o Novel Obs e trouxe as biografias de Rubem Braga e de Clarice Lispector para  fazer uma leitura cruzada- o que vai me render uma crônica para o próximo domingo. E trouxe livros de jovens autores para ler: um deles muito curioso – Rudinei Borges (autor de CHÃO DE TERRA BATIDA). Ele saiu lá de Itaituba/Pará e sobreviveu a um curso de   filosofia na USP. E leio Fala Brasil – jornal heróico de Rosane Scherer, lá de Porto Alegre,onde colaboro e li hoje,  n O Globo, a boa recepção aos livro de Flávio Carneiro, ex-aluno meu e de Marina e amigo nosso. Flávio está arrasando com esse livro policial- O CAMPEONADO( Ed.Rocco).

No mais Luciano Trigo continua aguardando que a imprensa acorde para o seu livro onde discute a arte contemporânea. E vou telefonar pro Roberto da Matta para comentar a homenagem a ele lá no Museu do Jambeiro/Niterói. Depois que saí, soube que ele não resistiu ao apelo e cantou seu repertório de Sinatra. Até os jambeiros se emocionaram…

***

* O comentário acima foi publicado no site de Affonso Romano de Sant’Anna.

[http://www.affonsoromano.com.br/blog/index.php?titulo=441]

+ poetas

Publicado em Cora Coralina, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Thiago de Mello por Rudinei Borges em 26/11/2009

[ Thiago de Mello]

 [Cora Coralina]

[Manoel de Barros]

[Ferreira Gullar]

Auto do mato

Publicado em Poesia Rudinei Borges por Rudinei Borges em 25/11/2009

 

Um dia vi Deus no meio do mato. Ele riu e fez um sinal com a mão para que eu chegasse bem perto dele. Eu deitei no colo de Deus e senti uma saudade forte dum tempo que não sei qual é.

Contei pra Deus que se eu não fosse menino queria ser um boto tucuxi pra ficar o dia todo brincando no rio. Mãe ralhou comigo. Disse que boto tucuxi não brinca o dia todo.

Deus me contou que se não fosse Deus queria ser uma aranha pra ficar o dia todo tecendo teias bonitas. Mãe ralhou com Deus. Disse que aranha não tece teias o dia todo.

*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)

Moacir Dias

Publicado em Poesia Rudinei Borges por Rudinei Borges em 25/11/2009


O vô tinha jeito de índio. Cabelo de índio. Cor de pele de índio. Mas o vô não sabia o que era oca e aldeia. Acho que o vô era uma mistura de índio com português.

O vô gostava de mato, dos mistérios do mato. Conhecia de longe paca, tatu, caititu, capivara. Já tinha visto onça e gato selvagem. Sabia nome de bicho que ninguém sabe, nome de árvore que ninguém sabe.

O vô também gostava de carpir, preparar a terra, plantar mandioca. Gostava de ver o mandiocal crescer ao redor da casa de barro. Tempos depois o vô arrancava a raiz, deixava a mandioca virar puba e colocava a massa num forno à lenha. Era assim que o vô fazia farinha.

Dava vontade de ter fome sempre.

*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)

A cacimba

Publicado em Poesia Rudinei Borges por Rudinei Borges em 25/11/2009

A vó tinha um quintal grande. Quintal tomado de árvore: pé de ingá, jambo, mangueira: casa de curió, marimbondo, periquito. No fundo do quintal, perto da cerca que dava com a casa da Dona Paula (uma negra risonha e brava), a vó mandou fazer uma cacimba.

Dentro da terra úmida fi cavam escondidas minas quietinhas e a água da cacimba era clara, fria. Deixava todo mundo arrepiado. Mas das minas saiam muçuns, bicho estranho. Eu tinha medo daquilo. Devia ser coisa do outro mundo. Coisa que aparece só em sonho. Coisa encantada. Mas eu não gostava de muçum. Nem pra fazer judiação. Nem pra levar nas aulas de ciências.

A vó também mandou fazer um jirau e as mulheres do bairro iam lavar as roupas do marido, dos filhos e do patrão. Aparecia roupa de toda parte. Roupa feia e bonita. Roupa rasgada e remendada. Foi lá que a mãe lavou a minha camisa da primeira comunhão. A toalha vermelha de mesa que eu achava bonita – a mãe colocava no natal. Eram tardes inteiras ali. Eu sentava debaixo das árvores e quando a mãe chamava ia com um balde tirar água da cacimba pra colocar numa bacia velha de alumínio.

Foi naquela cacimba que eu li pela primeira vez Fernando Pessoa.

*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)

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O poeta Mario Quintana

Publicado em Mario Quintana por Rudinei Borges em 25/11/2009

 

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Cemitério dos bichos

Publicado em Poesia Rudinei Borges, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 23/11/2009

Poema "Cemitérios dos bichos" de Rudinei Borges

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“O verso é meu ofício” – uma entrevista com Rudinei Borges

Publicado em Entrevista, Literatura, Literatura Brasileira, Livros de Rudinei Borges, Rudinei Borges por Rudinei Borges em 19/11/2009

por Cristina Lima*

Em 2009, o poeta e escritor paraense Rudinei Borges publicou o seu primeiro livro de poesia, Chão de terra batida (All Print Editora, 2009). Numa entrevista concedida via e-mail, Rudinei conta como a infância no interior da Amazônia influencia a sua criação poética. Acompanhe os principais momentos da entrevista.

Cristina Lima - Apresentação, poema que abre o seu primeiro livro, Chão de terra batida, inicia com o verso que diz “Eu nasci no mato, Joana”. Na parte final do livro em um texto que você nomeou de Autorretrato há outra vez esta afirmação, “sou um poeta do mato”. Por que esta fixação pelo mato? Qual o significado do mato ou da floresta em sua poesia?

Rudinei Borges - Não diria que há uma fixação pela imagem do mato. Mas, em verdade, há um itinerário a ser percorrido em meu primeiro livro e ele parte do tema da infância. Quando recordo os primeiros anos de minha vida, o que tenho guardado na memória são imagens da mata amazônica, da simplicidade do cotidiano, da figura materna e da imensidão das águas. Na Amazônia os rios são imensos. O mato talvez signifique o lugar primeiro. O que Bachelard chama de poética do espaço. É onde nasci e de onde vim. Quando afirmo que sou um poeta do mato não estou delimitando o meu espaço, mas reconhecendo a minha própria origem. Tenho textos e poemas que evocam uma realidade absolutamente urbana, como a vida em uma cidade cosmopolita como São Paulo. No entanto, o meu chão primeiro, a minha manjedoura, é o interior do Pará. E eu quis que o meu primeiro livro fosse impregnado desta saudade do mato, da floresta. É quase como uma tentativa de fundir e confundir a infância com o local onde ela aconteceu.

C. L - Então, conte-nos sobre a cidade onde você nasceu.

R. B. - Eu nasci em Itaituba, cidade do oeste do Pará. Costumo enfatizar que fica às margens do Rio Tapajós, porque é um lugar muito bonito. Nasci na cidade, porém logo fui levado para o interior. Vivi nas rodovias Transamazônica e Santarém-Cuiabá. A minha mãe foi caseira de sítio, cozinheira de fazenda. Itaituba foi e ainda é um município muito grande. Deve ter uns cem mil habitantes. Em geral, é possível conhecer boa parte das pessoas. Foi um lugar famoso pela exploração de ouro. Cresci ouvindo histórias de garimpeiros. Vi mulheres criando os filhos sozinhas, enquanto os maridos desejavam a riqueza no Alto Tapajós. Creio que o ouro não deixou riqueza nenhuma para a cidade. Só a poluição ocasionada pelo uso de mercúrio. Os meus pais são migrantes e foram para o Pará com a abertura da rodovia Transamazônica. Foram acompanhando os meus avós e lá se conheceram. O que acho interessante é que o migrante é sempre tomado de esperança, ele acredita que o lugar para onde vai será melhor. Nem sempre é assim. Alguns chamam a estrada inaugurada pelos militares, que até hoje não foi pavimentada, de transamargura. Um apelido bem apropriado, eu acho. A vida não é fácil naquela parte do Brasil. Penso que o fato de a estrada não ser pavimentada propiciou que eu guardasse uma lembrança, um sentimento forte pelo barro. Na transamazônica há atoleiros gigantescos. Num dos meus versos eu escrevo: “no norte do Brasil há casa de barro em ruas de barro”. Outra vez tento fundir as imagens. As ruas de barro e as casas de barro são a mesma coisa. E termino com “um dia vi Deus empinando pipa”. O que percebo agora ao falar com você é que apesar de um provável cotidiano sofrível eu mantenho as mesmas esperanças do migrante. Tenho a impressão que em Chão de terra batida o cotidiano é cantado com certa ternura. De certa forma eu acredito no cotidiano. O cotidiano da pequena Itaituba e de todas as cidades muito me interessam.

C. L - Quando você veio para São Paulo?

R. B. - Eu mudei para São Paulo nos fins de janeiro de 2003. Tenho este hábito de usar a expressão “fins”. É uma quase certeza de que o fim nunca é um só. Há vários, então. Como deve haver inúmeros começos. Como comentei, eu cresci numa cidade pequena e cresci com o desejo de conhecer outras cidades. Por alguns anos, como muitos jovens, nutri um forte anseio de ir para lugares distantes. Queria viajar pelo mundo. Acho que tem algo haver com a leitura que fiz do diário de viagem de Ernesto Che Guevara ou com a vida de Rimbaud. Aliás, Rimbaud sempre me fascinou muito. Ele também veio do interior como eu. Porém, ainda não alcancei o mundo. O máximo que consegui chegar foi em São Paulo, que é um universo enigmático. Tenho vontade de deixar tudo e partir para uma viagem Brasil adentro, Amazônia adentro. Partir numa caravana como fez Mário de Andrade. Descer o inferno, como Drummond chamou a viagem de Mário. Um dia vi num livro uma foto de Mário de Andrade no porto velho de Santarém. Era uma fotografia antiga. Eu queria ser como aquele poeta que viajava atrás das raízes de seu país. Queria ser como o poeta que escreveu Macunaíma. Quando cheguei em São Paulo fui visitar o túmulo de Mário como um filho perdido que visita o pai distante. Senti alguma emoção. Engraçado, não escondo que sou guardador deste envolvimento familiar com as coisas. Lembro que certa vez peguei um caderno e fui perguntar para a vó o nome de todos os nossos parentes. Queria saber tudo. O nome de todos. Sou uma espécie de filho agarrado-desgarrado. Pareço distante, mas ao mesmo tempo ligado às minhas raízes. Preciso dizer que antes de vir para São Paulo, eu morei um ano em Santarém. Logo completei dezoito anos e terminei o Ensino Médio, em 2001, eu saí de casa. Em São Paulo me formei em Filosofia, comecei a lecionar e atualmente sou mestrando em Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo – USP.

C. L. – Você gosta de São Paulo?

R. B. - Gosto de Sampa. Por vezes, sinto certa aflição. É como se eu sentisse a cidade encravada dentro de mim. Preciso olhar o mar e os rios. O que é mais difícil é que não há um rio como o Tapajós na cidade de São Paulo. Por um tempo, eu achava inadmissível uma cidade que não fosse às margens de um rio. As cidades que são referências para mim estão localizadas às margens de grandes rios, como o Amazonas. Falo de Itaituba, Altamira, Santarém e Belém. Falo de Alenquer, Oriximiná, Óbidos e Monte Alegre. São todas cidades paraenses. Eu só conheci o mar em 2003. Faz pouco tempo. O meu mar era o Amazonas. São Paulo é um mundo misterioso de casas, edifícios, pontes, avenidas e pessoas diferentes. Inusitadas. Você olha para um lado e para o outro e ainda não conhece nada. Lembro que o que mais me impressionou no centro foi o Viaduto do Chá. Até hoje não sei as razões. O Viaduto do Chá esconde uma espécie de magia que eu não entendo. Juro que não entendo. Quando quero me sentir bem e em paz ando por ali. Atravesso o viaduto, contemplo o Vale do Anhangabaú e o Teatro Municipal. É um sentimento sem explicação. Muitos falam e têm razão: tudo acontece em São Paulo. A vida cultural é o que mais me anima. É possível conhecer poetas e escritores. É possível ir às peças de teatro mais experimentais. Tenho uma ligação forte com o teatro. E quando vejo o encontro de teatro e poesia sinto grande alegria. Em Itaituba, eu atuava em performances com poemas na escola, na igreja e até nas praças. Em São Paulo fiz por um tempo o curso do Teatro Escola Macunaíma, mas depois tranquei por falta de dinheiro. O teatro é um sonho que não consigo alcançar. Ora fica perto e ora está distante. Diante destes percalços, prometi que vou escrever peças de teatro, que vou manter uma relação com o teatro de algum modo. Penso que eu escolhi o teatro, mas o teatro não me escolheu. Gosto de atores como  Gero Camilo, Marat Descartes. Eles nem sabem que eu existo, mas gosto do trabalho deles. Certa noite, em 2008, vi uma peça em que atuava a atriz Juliana Galdino. Meu Deus, aquilo me levou a uma sensação do sublime que eu nunca havia experimentado. Voltando aos poetas e escritores, deixa-me confessar: desde a adolescência esperava conhecer os poetas Ferreira Gullar e Adélia Prado. Como também o meu mestre, Thiago de Mello, e o poeta Manoel de Barros. Conheci três deles. Faltou o Manoel de Barros. Sou da Amazônia, entretanto foi em São Paulo que pude conversar com o Thiago de Mello. Em São Paulo pude confirmar a sua real existência. Talvez eu leve pela vida toda o peso de não ter conhecido o poeta Manoel de Barros. Não tenho como ir ao estado onde ele mora. Nem tenho os contatos necessários para essa empreitada. Devo dizer também que em São Paulo a vida é cruel e difícil. As pessoas trabalham muito e talvez não vivam com a qualidade necessária. A educação e o transporte público, por exemplo, deixam muito a desejar. Conheci comunidades como Heliópolis. Lá a maior parte do que há para os jovens e as famílias é conquista ardorosa da comunidade e não necessariamente da autoridades ditas competentes. A violência me assusta. Já fui assaltado. A miséria nas ruas também é triste e vergonhosa. Isso é São Paulo.

C. L. - Você citou alguns poetas. Quais poetas mais o influenciam?

R. B. - As minhas influências são um paradoxo. Leio e estudo diferentes expressões da poesia e da prosa. Tudo o que é literatura me interessa, na verdade. No meu primeiro livro, Chão de terra batida, identifico algumas influências claras e até inegáveis. O meu modo de ser poeta em Chão de terra batida resulta da escolha por enxergar o cotidiano com paixão e esperança. O meu objetivo foi cantar e encontrar significado nas pequenas coisas da infância. Quis encher a minha infância e de todos os meninos da Amazônia de um significado universal. Os poemas têm caráter narrativo, por isso a maioria deles foi escrito em prosa. Acredito que essa é uma de minhas principais características nesse meu primeiro empreendimento literário. Essa escolha é o resultado do meu envolvimento principalmente com a poesia de Adélia Prado e Manoel de Barros. E penso que também da leitura de Manuel Bandeira e Mário Quintana. O livro sobre nada de Manoel de Barros me deixou enlouquecido. E Oráculo de maio de Adélia Prado me fez receber multas da biblioteca municipal da cidade onde nasci. Atualmente não consigo desgrudar de Libertinagem e Estrela da manhã de Bandeira. Ninguém consegue. Libertinagem é um clássico de todos os tempos da poesia brasileira. Eu vivo os meus dias convivendo com o porquinho-da-índia, com Tereza e Irene Preta. Fale-me de poema mais extraordinário que Vou-me embora pra Pasárgada? Eu recitava aquele poema para todo mundo. Agora, por exemplo, estou labutando com a poesia completa de Mario Quintana. Foi a leitura de uma antologia de Quintana que me fez decidir por publicar primeiro os poemas de Chão de terra batida. Penso que os poetas que citei têm algo em comum, como o lirismo, a simplicidade disfarçada e um jeito prosaico de escrever os versos. O que eles escrevem parece simples, mas logo numa outra leitura encontramos uma variedade de significados e sugestões. Nos últimos dias li alguns versos de Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais de Cora Coralina. Causa fascinação versos como “vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo”. O que mais gostei foi do famoso Poema do milho e, em particular, quando em certa altura do poema, Cora escreve: “Em qualquer parte da terra um homem está plantando, recriando a vida. Recomeçando o mundo”. Quero beber da simplicidade grandiosa desses poetas.

C. L - E os outros poetas e escritores? De quem você gosta em particular?

R. B. - Passei a minha adolescência inteira lendo Drummond. E Drummond pesa nos ombros, porque é extraordinário. É muito difícil esquivar-se da influência do poeta mineiro. Tenho paixão pelo Drummond de Rosa do povo. Da mesma forma amo o Gullar do Poema sujo e o Thiago de Mello de Faz escuro mas eu canto. A poesia compadecida pela miséria humana me interessa. Escrevi um poema longo de caráter social. Ainda não o publiquei e nem sei quando o tornarei público. Chama-o provisoriamente de Carne hostil. Eu o escrevi em 2005. Não o concluí. Ele surgiu depois de dois anos morando em São Paulo, num período em que eu ia de ônibus para a faculdade. Saía cedo de casa. Ia do extremo da zona sul para o Ipiranga. A vida das pessoas indo para o trabalho foi o que me motivou. Retornei a labutar com o Carne hostil em 2009. Porém, eu o acho um tanto panfletário. Outros escritores causaram tempestades em minha busca literária. Posso citar T.S. Eliot, Federico García Lorca, Rainer Maria Rilke, Bukowski, Tagore, Tristan Corbière, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa e Rimbaud. De todos estes que elenquei creio que os que mais leio são T.S. Eliot, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Rilke. Não tenho nenhum receio em dizer que os meus poemas de cabeceira são A terra desolada de Eliot; Tabacaria e Guardador de rebanhos de Pessoa; Divã do Tamarit de García Lorca; Os primeiros poemas de Rilke; Dispersão de Mário de Sá. Também todo o livro Libertinagem de Bandeira. É evidente que são os meus poetas de agora. Outros vão chegar. Leio Folhas de relva de Walt Whitman aos pedaços. Aos pedaços também leio Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa, que é verdadeira poesia. Aos pedaços leio Assim falou Zaratustra de Niezsche e o teatro de Samuel Beckett. Este ano li alguns livros do poeta Roberto Piva. Não posso esquecer outros textos que estão sempre comigo como Chove nos campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir. A minha vida seria uma chatice sem essa gente toda. Também guardo algumas fotografias. Elas me ajudam a escrever.

C. L. - Você cita Dalcídio Jurandir na epígrafe de seu livro. Por que todo este carinho por esse escritor?

R. B. - Porque devo muito do que sou à leitura de Chove nos campos de Cachoeira e de outros romances de Dalcídio Jurandir. Se eu fosse para uma ilha deserta levaria esse livro. Talvez você não compreenda, mas Dalcídio conseguiu traduzir em seu primeiro romance muito da alma amazônica, da infância dos meninos da Amazônia. Não posso negar que sou ou fui uma espécie de Alfredo, o personagem principal de Chove nos campos de Cachoeira. Sempre com o desejo árduo de partir, de ir para além dos campos molhados. Dalcídio conta a história de famílias da vila de Cachoeira, que hoje é uma cidade da Ilha do Marajó. Acho que Dalcídio se quisesse poderia trocar o nome de Alfredo pela palavra liberdade. Teria o mesmo sentido. Eu li este livro com dezessete anos, numa viagem de barco para Belém. Foram três dias olhando as margens do rio Amazonas e lendo as páginas de Dalcídio.  Aquilo me encantou de tal modo que não sei o que deu em mim. Foi a partir deste fato que me entendi como sujeito amazônico, como parte de uma gente, de uma região do Brasil. O que é a Amazônia? As pessoas não sabem. Não nos compreendem. Não nos conhecem. A Amazônia é a parte esquecida da família. E a literatura amazônica? Quem sabe o que se escreve ali? Dalcídio foi um dos maiores prosadores brasileiros do século XX e poucos críticos e estudiosos o conhecem. Fico com a triste sensação de que a literatura amazônica tende a ficar no ostracismo. Espero que isto mude com o advento da internet, com os avanços tecnológicos dos meios de comunicação. A literatura é a alma de um povo. É um dos modos mais significativos para expressar o que um povo é. Eu creio nisso.

C. L. - O escritor paraense Edilson Pantoja, em um comentário sobre o seu livro Chão de terra batida, afirma que as principais referências de seus poemas são femininas, como a mãe e a avó. Ele também afirma que essas referências femininas parecem constituir figura da própria Amazônia. Como você recebeu este comentário?

R. B. - O Edilson Pantoja é da nova geração de escritores paraenses. Faz pouco tempo ele lançou o romance Albergue Noturno. Não o conheço pessoalmente. Mantenho contato com Edilson através da internet. Pantoja, decerto, fez uma leitura atenta de meu texto. Ele notou algo que tomei consciência após escrever a maioria dos poemas de meu livro. Isto que ele chama de referência feminina. Essa referência se deve em grande parte à minha própria história. Fui criado por minha mãe, pois o meu pai se desgarrou de nossa família muito cedo. Cresci sem pai e a figura de minha mãe tem um sentido todo especial em minha criação. Minha mãe foi e é para mim um grande exemplo coragem e persistência. Ela é destas mulheres brasileiras tomadas de uma força inacreditável mesmo nos momentos mais difíceis. Minha mãe trabalhou duramente para que eu pudesse estudar. Ela sempre me incentivou a escrever, sempre gostou de me ouvir recitar. Na verdade, a minha mãe cresceu ouvindo poemas de cordel. Era comum em Ananás, Tocantins, cidade onde ela nasceu, a leitura de romances de cordel. Talvez por isso ela admirasse tanto o filho que se dizia poeta. Mas nunca escrevi poemas de cordel. Lembro de certa tarde quando a minha mãe chegou do trabalho com um calhamaço sobre o romantismo. Devorei aquilo no mesmo dia. Admirava os poemas de Fagundes Varela para o filho morto. Acho que daí vem esta referência. A própria floresta amazônica lembra um grande útero onde estão presentes várias formas de vida.

C. L. – A religiosidade é outro tema frequente em seu livro. Em poemas como Auto do Mato, você apresenta a figura de Deus com certo humanismo. Há uma tentativa de humanizar o divino em sua poesia? Outra questão interessante é da referência aos santos, comum na cultura popular brasileira.

R. B. – Como já comentei, eu nasci no interior do Pará, numa região de muitos migrantes vindos do nordeste e sul do Brasil. Todos eles levaram para as fazendas e sítios, às margens da rodovia Transamazônica, elementos típicos de sua religiosidade, fé e crenças. Mas também as cidades ribeirinhas do Tapajós e do Amazonas são marcadamente caracterizadas pelos festejos de seus santos padroeiros, por procissões belíssimas. É o que acontece com o Círio de Nazaré em Belém. Uma vez participei do Círio de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santarém. Eu fiquei impressionado com as ruas enfeitadas e com a quantidade de pessoas caminhando numa manhã ensolarada. E não vou esquecer por nada neste mundo das procissões de Sant’Ana, padroeira da cidade onde nasci. A procissão acontece em julho. Faz alguns anos que não participo. Em verdade, eu cresci meio às pequenas comunidades eclesiais de base da Amazônia que surgiram na década de 1970. Cresci meio às rezas das capelinhas, meios às novenas dos santos. Por isso, quando retomo o tema da infância em Chão de terra batida, retomo também a religiosidade característica da região de onde vim. Que não é uma religiosidade institucional. Acredito que o modo como o povo vive a sua fé transcende às instituições. Deste modo, quando penso a figura de Deus eu o apresento como um amigo de infância, como um menino. Não tenho pretensões de adentrar questões teológicas ou filosóficas. O meu desejo foi reaver a minha maneira contraditória de significar a vida e a fé. Acho que é isso.

C. L. - Você citou que mantêm contato com outros escritores pela internet. Qual a relação de um poeta que se denomina do mato com o este meio de comunicação? Como você avalia os blogs e sites de literatura?

R. B. - Utilizo o computador e a internet com freqüência. Nos fins de 2007 criei um blog, depois o abandonei. Agora disponibilizo alguns textos num blog chamado A rua sétima. A internet é um instrumento muito importante a serviço dos escritores. Assim, os novos poetas podem divulgar poemas e outras criações. Publicar um livro no Brasil, principalmente de poesia, é uma batalha homérica. E nem todo mundo tem condições de arcar com os custos de uma publicação independente. Pela internet tenho conquistado novos leitores e o que escrevo pode chegar a todas as regiões do Brasil. Os sites e portais que publicam textos de novos escritores são relevantes. Posso citar o site Jornal de Poesia, o Recanto das Letras e o Portal Literal. Lembro que os primeiros poemas que li de Lêdo Ivo, por exemplo, eu os encontrei no Jornal de Poesia. Depois passei para os livros. Já li bons textos na rede. Outros nem tanto. O leitor precisar ficar atento. Precisa ser seletivo. Talvez o mal da internet seja o imediatismo. Muitos esquecem a lição de João Cabral, da necessidade de lutar com as palavras e de que a boa poesia e a boa prosa resultam de um trabalho constante de seus autores. Não existe mágica. A literatura de qualidade não cai do céu. Isso não implica que devemos abandonar a sensibilidade. Encontro muitos desabafos em blogs e sites, mas precisamos ir além disso. Uma obra literária não pode ser sustentada somente com comentários sobre a festa do último domingo. É preciso muito mais. Com o computador adquiri novos hábitos. Antes escrevia só em blocos de papel. Agora produzo no próprio computador. Mas quando saio às ruas ou ando de ônibus sempre estou com um pequeno caderno para anotações. Por vezes, nasce de repente uma frase ou um verso. Também há um movimento interessante que é o da poesia virtual, ligada à animação, ao web desing. Preciso experimentar isso.

C. L. – Você termina o poema Apresentação com uma síntese de seu trabalho como poeta. Você escreveu: “O verso é meu ofício”. Como é o seu processo de criação?

R. B. – O meu processo de criação é vagaroso, porém constante. Eu escrevo com certa voracidade, mas misturo os projetos. Não sou muito organizado. Estou tentando priorizar o que vou escrever. Como inicio vários textos num mesmo período, demoro a conclui-los. Já iniciei romances, novelas e contos. E não levei nenhum projeto adiante. Perco com esse processo. Sem esquecer as idéias que surgem na rua ou no meio da noite e não tenho onde anotá-las. Elas também se perdem. Já escrevi vários poemas que estão longe de uma qualidade desejável. Nem tudo que escrevemos deve ser publicado. Sou exigente. Mas escrevo com leveza. Acredito que estou começando a me entender como escritor, como poeta. Aos poucos estou deixando nascer um certo Rudinei Borges, que é a soma de inúmeros livros lidos, a soma de muitas vozes e histórias ouvidas nas ruas. No entanto, o meu maior instrumento de trabalho é a minha memória. Por vezes, tenho a impressão que há uma sina da qual não poderei me livrar, a sina de memorialista. Eu estou impregnado das imagens do passado. Estou impregnado de minha própria infância e dos personagens daquela época. Sim, o verso é meu ofício. A memória é minha sina. Não quero perder isso.

*Cristina Lima é estudante do Curso de Letras da Universidade de São Paulo, USP.

O menino perdido

Publicado em Poesia, Poesia Rudinei Borges, Rudinei Borges, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 18/11/2009

(Por Rudinei Borges)

Sou o menino do beco.

Tenaz. Cavo.

O menino perdido.

Três dias esquecido na mata.

O menino encontrado morto.

O menino encontrado vivo.

Colecionador de oráculos.

Guardador de árvores.

Feito de remos e barcos.

Tábuas partidas e canoas.

 

Sou o pastor inefável do fundo do rio.

O velho violeiro do cais.

O pescador de lampreias.

Nas mãos o rastro das foices

Desenha canteiros de açucenas.

Nos pés a aurora campeia

Rumo às colinas.

 

Sou o amor que rebenta na tarde.

O filho mais velho do vento.

O filho mais novo do tempo.

O irmão do meio da noite.

 

Tudo em mim é porto.

Barcos imaginários.

Trens imaginários.

Casas e homens de barro.

Rostos e mãos tecidos de luz.

Carta de Maria Clara Spinelli sobre o livro “Chão de terra batida”

Publicado em Cartas, Maria Clara Spinelli por Rudinei Borges em 17/11/2009
Campo de trigo

Campo de trigo

“Eu quero viver.”  (Chico Mendes)

Rudinei Borges,

O que dizer agora que terminei de ler o seu livro – Chão de Terra Batida – e estou tão tocada… Assim como em toda a leitura, eu me emocionei…

Dizer que me identifico muito com você? Com sua história? Com sua Vida?

Dizer que a dor e delícia de existir são universais?

Dizer que também sou do interior, (e sonho) e penso no caminho que você está trilhando em uma das maiores metrópoles do mundo. Como é difícil. Como é bonito. Como é corajoso. Como é grande. Como é solitário.

E fico feliz por você realizar o que eu ainda não tenho. (E talvez nunca terei). E viver…

Acho que seu livro é um pouco de mim também. Ou muito.

Eu… Sou uma pessoa em construção.

Muito obrigada, Rudinei.

Seguimos…

Beijos e Rosas,
Maria Clara

17.nov.09

Fotos de Sampa

Publicado em Fotografia, São Paulo por Rudinei Borges em 16/11/2009

Outro dia saí por aí tirando fotografias do velho centro de São Paulo. Comecei no Mosteiro São Bento e fui terminar na Av. Paulista. Depois posto as fotos.

Prêmio Canon de Poesia 2009

Saudações literárias!

Esta semana recebi notícias do II Prêmio Canon de Poesia 2009. O meu poema “Altar” foi selecionado para compor a antologia que será lançada na Casa das Rosas em São Paulo no dia 14 de Dezembro, às 19h. Abaixo saiba mais sobre o concurso.

Prêmio Canon

Publicação da obra em antologia do II Prêmio Literário Canon de Poesia 2009, selo editorial Fábrica de Livros / Scortecci Editora, reunindo por ordem alfabética, 50 (cinquenta) POESIAS e seus AUTORES (minibiografia), conforme seleção e escolha irrevogável da Comissão Julgadora.

Características da obra: 1500 (mil e quinhentos) exemplares, formato 14 x 20,7 cm, em Impressão Digital P&B, capa 4 (quatro) cores, com aproximadamente 100 páginas, com ISBN e Ficha Catalográfica.

Os 50 (cinqüenta) participantes escolhidos com as melhores POESIAS receberão como prêmio e a título de Direito Autoral, 10 (dez) exemplares da obra, além da divulgação e promoção da poesia pela Canon do Brasil pelo período de um ano em ações de Marketing e Propaganda.

***

Carta de Maria Clara Spinelli

Publicado em Cartas, Cinema, Maria Clara Spinelli por Rudinei Borges em 30/10/2009

A atriz Maria Clara Spinelli

A atriz Maria Clara Spinelli

 

Não publique cartas. É demasiadamente pessoal. Mas ontem recebi estas breves palavras da atriz Maria Clara Spinelli por quem nutro enorme carinho e não pude deixar de compartilhar com todos. Maria Clara está no filme brasileiro Quanto dura o amor. Grande abraço a todos. Muito grato, Maria Clara. Um dia escrevo um texto de teatro para você. (Rudinei Borges)

Rudinei,

Recebi ontem, surpresa, seu livro de presente: Chão de terra batida.

Fiquei muito feliz pelo carinho e gentileza, obrigada!

Lerei com carinho também… e depois comento contigo.

Beijos e rosas,

Maria Clara.

Assis, SP. 28 de outubro 2009

Vocabulário

Publicado em Albano Martins, Literatura, Literatura portuguesa, Poesia por Rudinei Borges em 30/10/2009

As palavras dos poemas em prosa de Albano Martins (1930), poeta português. Uma agradável descoberta. Uma janela aberta para o que é lírico e terno. Abaixo reuni alguns vocábulos que ando invetigando no longo poema Rodomel Rodoendro.

A morte chega ao pôr-do-sol, agarrrada aos pulsos, aos joelhos.

Lúbricos gladíolos

Carbúnculos

Giestas

Caruma

Lucilações

Rododentros

Fuligem das casas

Vagares e desoras

Rés da neblina

Amarfanhado

Furtivas

Salitre

Oblígua

Aloendro

Interstícios

Estorninho

Dardo

Diques

Algures

Epiderme

Surdina

Enfloram

Bivalves

Algures

Corolas

Capitéis

Abóbodas

Ameias

A voz rouca do cuco

Abjeções do real

Aspereza do aguilhão

Vertigem dos cumes

Incólume

Rizomas de aço

Ardósia do vento

O vôo raso do melros

Castanhas glaucas

Aninham as cordonizes

Alcatruzes

Hausto

Pressurosas e maternas sulfamidas

Surda alcatéia

Espaço esventrado

Trnaslúcidos retábulos de seda

Vinho esfusiante

Esgares e soluços

Mochos

Eiras de trigo vermelho

Longe o trilo dos pardais

Almofada do feno

Os tordos que adormeciam sob as folhas sangrentas

Ébrios

Aurora borel

Serôdias primícias

A modéstia do lume crepitando

Ao zênite oporás o nadir

Fosso

Saia cerzida das maçãs camoesas

O que é aparente é que é real.

Há um rio correndo entre as falanges dos dedos.

A verdade da vida não é a própria vida, mas o que nela se vela ou se esconde.

Voz emuldecida

Pitonisa

Velas pandas

Frutos do solstício

Bojo estival

Substantivo epiceno

Flor do hibisco

ECLIPSE “Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.”

 

Altar

Publicado em Poesia, Poesia Brasileira, Poesia Rudinei Borges, Rudinei Borges, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 28/10/2009

Altar Colagens

Encontrei esta montagem no site Alumiações da Lu barbosa (http://alumiacoes.blogspot.com/). Fiquei muito contente e impressionado.

Poema de amor

por Rudinei Borges

 

 

Mania feia esta de dizer eu te amo.

Vício ignóbil de linguagem.

Amor é coisa sagrada.

Não se pode invocar em vão.

É como o nome de Deus.

Não adianta chamar toda hora.

 

O amor é surdo.

É mistério que ninguém consegue expressar em palavras.

Nem com a conjugação correta dos verbos.

Nem com prosopopéias e metáforas.

Arrojos. Acrobacias. Subterfúgios.

Devaneios. Solilóquios. Sussurros.

 

Amor é bicho difícil de domesticar.

Espírito encantado das colinas.

Pluma que se perde ao vento,

mas por vezes cai em nossas mãos.

É grão de mostarda. É mar morto. Capadócia.

 

Amor é viagem que a gente imagina.

Sonho em madrugada fria.

É sobrado velho pintado com as cores do inefável.

Por isso, é bonito. Cega a vista. Cega a alma.

Deixa a gente louco. Estarrecido. Calado.

Cheio de lágrimas no canto dos olhos.

 

Amor é canção de roda. Esconde-esconde.

É o amigo invisível dos meninos que correm na praça.

Carta amarelada das mulheres no alpendre.

Rosto na janela.

É pão sobre a mesa.

Risada interminável.

 

Amor é gesto. É corpo.

São olhares que se entrecruzam de manhãzinha.

Não é dizer. Não é conversa.

É ato abrupto. Abraço apertado.

 

Amor é silêncio.

Menção Honrosa

Hoje à tarde tive a alegria de receber esta notícia: recebi uma menção honrosa no Concurso Nacional de Poesia da Secretaria de Cultura do Paraná. A menção se deve ao poema Meninos da Sétima Rua que publiquei no meu primeiro livro, Chão de terra batida (AllPrint 2009). Abaixo apresento o poema, que é uma referência à rua da minha infância, a Sétima Rua. Lugar até hoje cheio de barro e lama no bairro onde eu cresci, Liberdade. É interessante que A Sétima Rua também é o nome que dei a esta minha página na internet.

O concurso recebeu  3285 poemas de todo o país.

Creio que o meu poema é singela homenagem a todos os meninos da Amazônia e da cidade onde nasci, Itaituba, no interior do Pará.


Meninos da sétima rua


Tenho saudades do que é breve

e vai para além dos barcos.

Esvai com a alvorada.


Saudades do menino cálido

que se perdeu nos campos

entre o cais e o beco

e a tenra ilusão dos fósseis.


Saudades daquele menino

amante das ruas,

andarilhos das tardes.

O meu menino.

Eu mesmo.

As poesias vencedoras do Prêmio Helena Kolody

Como está a produção poética brasileira atual? A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná divulgou na segunda-feira (19) a relação dos vencedores do Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody. Aqui, agora, as três poesias vencedoras que ajudarão você a julgar como está a produção poética brasileira atual. O juri foi formado pelo escritor paranaense Domingos Pellegrini, o poeta gaúcho Fabricio Carpinejar e a escritora e músicista paranaense Estrela Leminski.

Em primeiro lugar Andreza Silva Pereira, de Cuiabá – MT, com a poesia:

Sal-dor


Sal-dor

Lágrima por mais que doa, voa

E deixa sal de conservar caminho


Em segundo lugar, Claudia Schroeder, de Porto Alegre – RS, com a poesia:

Jantar

A música estranha
o vinho pálido-branco
o aspargo
a couve-chinesa
(o menu para um a francesa).
Ah, como são tristes
os pratos
de porção única
quando há espaço
para dois
na mesa.


Em terceiro lugar, Valberto Cardoso da Silva, de João Pessoa – PB, com a poesia:

Pré-destino

Guardados fiquemos

Do útero ao túmulo


Por enquanto monólogo

Depois silêncio

Entre as 12 menções honrosas do concurso, apenas dois do Paraná: Carlos Barbosa Junior, de Curitiba e Rodrigo Domit, que nasceu em Curitiba, criou-se em Londrina, mas atualmente mora no Rio de Janeiro.

Eis todas as menções honrosas:

Inscrição nº: 020
Autor: Marcos Antonio de Oliveira Ferreira – Recife PE
Poesia: QUASE-CRÔNICA DO ADEUS

Inscrição nº: 1438
Autor: Valeria Mares Alvares – Belo Horizonte MG
Poesia: A POESIA

Inscrição nº: 2466
Autor: Rodrigo Domit – Rio de Janeiro RJ
Poesia: CURIOSA

Inscrição nº: 3138
Autor: Marcus Vinicius Quiroga – Rio de Janeiro RJ
Poesia: DA ARTE DE SE OLHAR NO ESPELHO

Inscrição nº: 2213
Autor: Rodrigo Fernandez Pinto – Maceió AL
Poesia: O ODOR DAS COISAS EM PÂNICO

Inscrição nº: 2500
Autor: Carlos Barbosa Junior – Curitiba PR
Poesia: MANHÃ

Inscrição nº: 0435
Autor: Ricardo Luiz de Souza Thomé – Rio de Janeiro RJ
Poesia: JURAS E PROMESSAS

Inscrição nº: 1084
Autor: Eduardo Dominguez Trindade – Rio de Janeiro RJ
Poesia: AUSÊNCIA

Inscrição nº: 2391
Autor: João Goulart de Souza Gomes – Salvador BA
Poesia: PLUVIAL

Inscrição nº: 2868
Autor: Rafael Alexandre Gomes dos Prazeres – Salvador BA
Poesia: HIPERTEXTO DE FIDELIDADE

Inscrição nº: 2317
Autor: Rudinei Borges – São Paulo SP
Poesia: MENINOS DA SÉTIMA RUA

Inscrição nº: 3130
Autor: Germana Lima de Almeida – Fortaleza CE
Poesia: NÓS

Poema

por Rudinei Borges

Tenho saudade ínfima infinita
Não sei de quem
Não sei de que
Agora você dorme

Tenho saudade de um rosto perdido
Numa rua que dá com o Viaduto do Chá
Um rosto ofuscado embassado
Um rosto sem nome
Ninguém

(Vai até aí. Não sei o que escrever)

Noite de 20. 10. 2009

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Chão de terra batida – Lançamento dia 7 de novembro 2009

capa

Chão de terra batida

CHÃO DE TERRA BATIDA

por Rudinei Borges


Lançamento dia 7 de novembro, às 19h.


All Print Editora e Gráfica Ltda.
Espaço Cultural Antonio Adolpho
Rua Ibituruna, 550 – Jd. Saúde – São Paulo – SP
(próx. Estação Saúde do Metrô)
Fone: (11) 2478-3413

*

O CHÃO DE RUDINEI BORGES

por Edner Morelli

A literatura de Rudinei Borges impressiona pela sua simplicidade, comprovando que a boa obra literária nem sempre precisa se apoiar num hermetismo estético que, muitas vezes, não diz nada. Por meio de uma prosa memorialista, algo que transita entre o regional e o universal, o autor, com invejável tom poético, apresenta-nos uma revisitação de seu espaço primeiro, no caso, o interior do Pará. Ao optar pela primeira pessoa, a obra adquire certa atmosfera autobiográfica, porém, nunca se esquecendo da possibilidade de representação que as imagens literárias nos proporcionam.

O texto de Rudinei, materializado em seu primeiro livro Chão de terra batida, beira o relato pessoal, misto de crônica e conto fragmentado, com perdão da redundância. Obviamente, por trás dessa economia de meios de linguagem, os textos desse livro guardam uma potencialidade infindável de sugestões poéticas, como verificamos no texto abaixo, que vai do tom impressionista-cotidiano à surpreendente reflexão existencial-filosófica:

Altar

Mãe rezava o rosário inteiro

antes de dormir.

E eu baixinho repetia

as palavras da mãe:

amar significa olhar para as coisas

sem sentir saudades delas.


Rudinei cria, ou melhor, re-cria sua própria mitologia, ao recuperar as figuras familiares mais íntimas, os espaços mais longínquos de sua infância-raiz, apontando para um movimento curioso de representação, que abrange o lado interior e exterior do poeta. Como uma fotografia em prosa, Rudinei nos oferece uma visita ao seu mundo particular, pois só ele esteve in locus nessas reminiscências, que esse livro possui a pretensão literária de eternizá-las.

*

REPERCUSSÃO

“Chão de terra batida é um microcosmo onde o leitor caminha pelas terras e sente os cheiros e os sabores da infância, as brincadeiras de criança, as travessuras de menino levado, aquele tempo que não morre e que nos acompanha durante toda a vida e nos dá conforto quando há solidão”. (Felipe Garcia de Medeiros)

Chão de terra batida é um livro mítico. Ele remonta ao barro primitivo para tocar no mistério da gênese. Não da Phýsys enquanto mundo objetivo, mas do Cosmos subjetivo da poesia de Rudinei Borges. Narrativa em que as principais referências são femininas: a mãe, a vó, a Amazônia, grande ventre do qual aquelas parecem constituir figura. O livro conta, em instantâneos plenos de beleza e encanto, a conformação da poesia e do poetar na alma do menino. E, não obstante, na subjetividade do processo, uma viva comunicação se estabelece. O leitor se vê no poeta: Mistério da poesia!” (Edilson Pantoja)

“Os poemas de Chão de terra batida possuem uma propriedade peculiar: conseguem nos impregnar da mesma nostalgia de seu autor, como se odores, sabores e outras sensações que percorrem o livro se integrassem às lembranças de cada leitor. Epifanias que eclodem de cenas cotidianas revelam um universo repleto de singelas riquezas, para o qual somos transportados, por força do claro estilo de Rudinei Borges. A propósito deste estilo, o rigor de quem procura a palavra exata e a simplicidade derivada da opção por prescindir de efeitos vazios se encontram em medidas precisas na escrita de Rudinei, o que nos faz crer estarmos diante de um poeta destinado a se consolidar entre os melhores”. (Carlos Alberto Rodrigues Pereira)

Chão de terra batida é um mergulho nas águas densas das sensações, as mesmas águas em que navegam as pequenas embarcações que os olhos do menino avistavam do cais. Entre ruas e personagens, Rudinei Borges se debruça sobre o passado, resgata impressões do cotidiano e irrompe o universo cultural de sua terra, a Amazônia. O que mais agrada em Chão de terra batida é a capacidade do autor em olhar o passado sem distanciar-se do presente e correlatamente projetar o futuro. A maneira como Rudinei interage com a temporalidade torna este livro imprescindível”. (Sidnei Ferreira de Vares)

***

Dimensões.Br – Contos fantásticos

Publicado em Conto, Literatura Brasileira, Sem categoria, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 14/09/2009

No dia 3 de outubro acontecerá o lançamento da Antologia de Contos Fantásticos “Dimensões.BR”. Eu participo com um pequeno conto, “A Bruxa da Avenida Nazaré”. O lançamento acontece das 15h até 20h. Será na Biblioteca Viriato Correa.

Endereço: Rua Sena Madureira, 298, Vila Mariana (Próximo à Estação de Metrô).

O melhor do conto brasileiro

por Rudinei Borges

Penso que o que vivemos é importante para criarmos, mas não é o bastante. A característica principal do conto brasileiro nos últimos anos é a narrativa curta. Eu diria que os autores querem ir direto ao ponto sem enrolar o leitor.

Alguns contistas brasileiros são interessantes e quero indicar cinco nomes apenas:

1. Dalton Trevisan
2. Caio Fernando Abreu
3. Marcelino Freire
4. Nelson de Oliveira
5. Edilson Pantoja

Há outros, porém cito os que mais leio atualmente. Os três últimos são nossos contemporâneos. O Marcelino e o Nelson eu conheço pessoalmente. E têm livros pertinentes e são “desbocados” com grande estilo.

“Rasif: mar que arrebenta” de Marcelino Freire talvez seja um exemplo do que temos de melhor no conto brasileiro nos últimos dois anos. O livro “Ódio sutenido” de Nelson de Oliveira é recheado de boas narrativas.

Edilson Pantoja é de Belém e escreveu um livro ótimo, “Albergue Noturno”. O seu livro é meio romance e meio conto. Ele também publica narrativas curtas e surpreendentes na internet. A página dele é www.alberguenoturno.blogspot.com.

Vale a pena conhecê-los!

Canto de atravessar – Carimbó

Publicado em Amazônia, Carimbó por Rudinei Borges em 04/09/2009
A dança do Carimbó

A dança do Carimbó

Para matar a saudade da Amazônia posto a letra de um carimbó, ritmo musical e manifestação folclórica comum no Pará. O mais triste é que a palavra “carimbó” nem aparece no dicionário.

Canto de atravessar

O pescador quer beber
Vai beber no Guajará
Vento no bote, força no remo,
Canto de atravessar

O pescador quer beber
Vai beber no Guajará
Vento no bote, força no remo
Canto de atravessar

Sentir a força do vento que vem do norte
Levantei peguei o bote
Naveguei pra Gapuiá
Tava tão forte essa maré tava de morte
Quase que virou o bote, fez bote rodopiar

Virei a proa pro rumo de São José
Pra não pegar contra maré pra ver se dava pra chegar

Cheiro de peixe, pitiú, olho de boto
Barco que dorme no porto de costa pro Guajará

Vem morena, vem de Canapijó
Vem mostrar pra gente como se dança o Carimbó
Quero te ver morena, quero que venha só
Pra dançar o tipiti e também o Carimbó

Sentir a força do vento que vem do norte
Levantei peguei o bote
Naveguei pra Guapiá
Tava tão forte essa maré tava de morte
Quase que virou o bote, fez bote rodopiar

Virei a proa pro rumo de São josé
Pra não pegar contra maré
Pra ver se dava pra chegar

Cheiro de peixe pitiú olho de boto
Barco que dorme no porto de costa pro Guajará

Vem morena, vem de Canapijó
Vem mostrar para gente como se dança o Carimbó
Quero te ver morena, quero que venha só
Pra dançar o Tipití e também o Carimbó.

Essencial de Milton Hatoum

 

O escritor Milton Hatoum

O escritor Milton Hatoum

Tenho me dedicado à leitura incessante dos escritos de Milton Hatoum. Fico, a cada livro, impressionado com a capacidade da narrativa de Hatoum em adentrar o universo da complexidade existencial do ser humano. Reúno abaixo três comentários sobre três romances de Milton Hatoum: Relato de um certo oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte. Creio que apresentam os aspectos principais dos romances mencionados. Infelizmente os autores dos comentários não são citados nos sites onde foram publicados.

Relato de um certo oriente

Este é o relato da volta de uma mulher, após longos anos de ausência, à cidade de sua infância, Manaus, num diálogo com o irmão distante. História de um regresso à vida em família e ao mais íntimo, no fundo é uma complexa viagem da memória a uma ilha do passado, onde o destino do indivíduo se enlaça ao do grupo familiar na busca de si mesmo e do outro. Odisséia sem deuses ou maravilhas de uma pobre heroína desgarrada, cujo destino problemático tem seus fios no enredo de um romance, tramado com calma e sabedoria pela mão surpreendente de um jovem escritor.

O romance é aqui uma arquitetura imaginária: a arte de reconstruir, no lugar das lembranças e vãos do esquecimento, a casa que se foi. Uma casa, um mundo. Um mundo até certo ponto único, exótico e enigmático em sua estranha poesia, mas capaz de se impor ao leitor com alto poder de convicção.

Não se resiste ao fascínio dessa prosa evocativa, traçada com raro senso plástico e pendor lírico: viagem encantatória por meandros de frases longas e límpidas, num ritmo de recorrências e remansos, de regresso à cidade ilhada pelo rio e a floresta amazônica, onde uma família de imigrantes libaneses, há muito ali radicada, vive seu drama de paixões contraditórias, de culpas e franjas de luto ao redor de mortes trágicas. A essa ilha familiar retorna a narrativa como a um ponto de recordações, aberto à atmosfera ambígua de um certo Oriente, espaço flutuante aonde velhas tradições religiosas e culturais vieram se misturar às margens da terra, com a aura do sagrado e o gosto sensual de coisas e palavras.

A narração remonta ao passado por lances retrospectivos, pela voz da narradora em que se encaixam outras vozes num coral coeso, lembrando a tradição oral dos narradores orientais: caixa de surpresas, de que saltam as múltiplas faces das personagens, num jogo de sombra e silêncio, sob a luz ardente do Amazonas. Nela se guardam as hesitações e lacunas da memória, o que não se alcança do passado, modo oblíquo de se deparar com os limites do conhecimento do outro e de si mesmo, enigma último do ser.

Reino de figuras fugazes, mas fortes: Emir, que transita para a morte, levando nas mãos a misteriosa flor em que se cifra seu destino; o fotógrafo alemão Dorner, que capta com sua generosa atenção o final simbólico do suicida; o leitor calado e solitário da Parisiense, velho comerciante árabe, capaz de contar histórias parecidas às das Mil e uma noites; e a extraordinária Emilie, matriarca e matriz de toda a vida da casa, que traz aninhado no colo o novelo de história da família, origem e fim do enredo do romance.

Como outros em nosso tempo, é este o relato de uma volta à casa já desfeita, reconstruída  pelo esforço ascético de um observador de olhar penetrante, mas pudoroso, que recorda e  imagina. História de uma busca impossível, o romance é ainda uma vez aqui a aventura do conhecimento que empreende o espírito quando se acabam os caminhos. É aí que começam as viagens da memória.

 Dois irmãos

 O romance tem como centro do enredo a história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, o Caçula, e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Na mesma casa, localizada em bairro portuário de Manaus, moram Domingas, a empregada da família, e seu filho Nael, um menino cuja infância é moldada pela condição de filho da empregada.

 Na tentativa de buscar a identidade de seu pai entre os homens da casa, Nael narra os acontecimentos que lá se passam, testemunhando vingança, paixão e relações arriscadas. É por meio de seu ponto de vista que o leitor entra em contato com Halim, o pai, sempre à espera da decisão mais acertada diante dos abismos familiares; com a desmedida dedicação da esposa Zana ao filho preferido Omar; com o trauma de Yaqub, o filho que, adolescente, foi separado da família; com a relação amorosa entre Rânia e seus irmãos; com a vida simples e cheia de renúncias da mãe Domingas.

A história inicia com a volta de Yaqub, que, por ordem do pai, fora enviado, com treze anos, ao sul do Líbano um ano antes da 2ª Guerra, no intuito de aliviar os atritos entre os irmãos. Considerado frágil e demasiadamente problemático, Omar fica no Brasil, solidificando-se, assim, a proteção iniciada na infância.

 Cinco anos mais tarde, a volta de Yaqub marca a existência de uma nova pessoa: um jovem calado e cheio de mistérios que escondiam os segredos de sua permanência fora do país. Sozinho, segue para São Paulo, onde, recusando a ajuda financeira dos pais, forma-se em Engenharia Civil e se casa de forma misteriosa, comunicando a família por meio de um telegrama. Enquanto Yaqub trilhava os caminhos do sucesso, Omar se perdia em bebedeiras, noitadas e sucessivos escândalos.

 Ao ser enviado a São Paulo para tentar obter o êxito do irmão, descobre que ele se casou justamente com a jovem Lívia, paixão de ambos desde a infância e causadora de uma séria briga entre os dois. Faz desenhos obscenos nas fotos do álbum de casamento do irmão, apertando ainda mais os laços de inimizade entre os dois. Em seguida, rouba dinheiro do irmão e foge para os Estados Unidos.

Morre Halim e, pouco tempo depois, Omar faz amizade com o indiano Rochiram, que pretendia construir um hotel em Manaus. Zana, na tentativa de unir os filhos e desejosa de que abrissem uma construtora, escreve a Yaqub, que vai à cidade a negócios, ignorando a participação do irmão. Ao sentir-se traído, Omar espanca Yaqub, mandando-o para o hospital. Inicia-se, então, uma verdadeira caçada que se encerra com a prisão e condenação do Caçula a dois anos e sete meses de reclusão.

 O indiano Rochiram, vendo seus negócios fracassarem, exige que a irmã dos gêmeos, Rânia, venda a casa em que vivem para pagamento das dívidas. Surge, assim, no local, a Casa Rochiram, uma loja de quinquilharias importadas de Miami e Panamá. Nael fica com um pequeno quadrado no quintal, ao qual Rânia denominou herança.

Durante todo o desenrolar da história, Nael lutava ao lado da mãe, assoberbado, sem muito tempo para os estudos. Sente-se, com isso, injustiçado. Nunca desistiu de arrancar dos membros da família a identidade de seu pai, que sabia estar em um dos gêmeos. No jogo de interditos, juntando os cacos do passado, Nael se empenha em descobrir a verdade e, somente após trinta anos, quando quase todos já estão mortos, é que parece motivado a olhar para as personagens.

 Cinzas do norte

 Com o romance Cinzas do Norte, Milton Hatoum cumpriu seu objetivo de escrever a “história moral de sua geração”.

Cinzas do norte, o romance mais abertamente político de Hatoum, inicia-se no mesmo registro desencantado que termina Dois irmãos. É um romance com uma linguagem seca e objetiva, que conta uma das possíveis estórias de uma geração que sonhou um mundo mais justo apenas para encontrá-lo em cinzas na sua maturidade. Estamos diante de um mundo onde nada resta. O título é emblemático; é praticamente um programa para a narrativa.

O “Norte” do título não indica direção possível, capaz de guiar alguém por caminhos incertos, mas um fim, cinzas de um projeto pessoal interrompido, caso do artista Raimundo. O título é uma metáfora de muitas coisas, de personagens que acabam em cinzas, da cidade que é destruída e reconstruída várias vezes, como são as cidades latino-americanas, desse Norte de um itinerário que é a própria definição clássica do romance, uma trajetória de vida que termina em cinzas, tragada pelas adversidades, pelos desencontros, pelo destino que também se torna cinzas.

A própria história do autor serve como base, ainda que, diga-se, o romance não seja autobiográfico. Mesmo assim, o escritor parte de fundações reais para erguer sua ficção. Os dois protagonistas são contemporâneos de Hatoum, nascidos no início dos anos 50. Ao longo da trama, acompanham o que ele mesmo viu: o golpe de 1964, os Anos de Chumbo, o milagre econômico e a abertura. O colégio Pedro II de Manaus, por onde passam Lavo e Mundo, teve como aluno o autor.

A ditadura militar não exerce um papel central no romance; não há digressões humanitárias ou políticas e nem um panorama artístico e cultural do período. Os elementos que compõem o cenário para a trama estão lá e têm, é verdade, um propósito, mas o fundamental está mais naquilo que não se diz diretamente: há em Cinzas do Norte uma atmosfera que cerca os personagens, mas que só pode ser apreendida na própria narrativa, à medida que se avança no romance.

 Para além dos elementos “cenográficos”, de contexto, da arquitetura de paisagens e tipos humanos, é preciso que se saiba captar os ecos de uma época e de um lugar, para traduzi-los em palavras que expressem a relação de seus personagens com o mundo e com a vida, que, no fim das contas, é tudo o que importa.

A narrativa se passa na capital amazonense, Manaus, cidade natal de Hatoum. É um enredo aflito e amargo. Ao final, o livro deixa o gosto do passado que assombra o presente, difícil de digerir.

A história contrapõe duas famílias, uma rica e a outra pobre, e os pontos de vista se multiplicam à medida que a história vai revelando hiatos e reversões. Se o romance anterior, Dois irmãos, tinha o poder intrínseco ao drama do núcleo familiar, este seduz o leitor pela costura oculta, pelo mosaico de desencontros. Em Cinzas do Norte mal entramos, e a sensação fragmentária se instala; não estamos diante de uma ordem que passo a passo implodirá, e sim de uma desarmonia vigente. À trama de Cinzas do Norte, Hatoum deu mais vazão à ironia e à amargura.

Os personagens são patéticos, desgraçados, úmidos e viscosos como a natureza amazônica; nem por isso deixamos de nos sentir em suas peles, de partilhar sua dor e impotência. Isso é o que só grandes escritores podem fazer. Hatoum também abre mais espaço para a descrição de exteriores, embora seja por excelência um escritor intimista, e tal combinação reafirma sua qualidade rara na literatura brasileira, tradicionalmente polarizada em tais abordagens. Ele capta o clima e a topografia de sua região, mas não é um regionalista; ao mesmo tempo, cria uma galeria de personagens com profundidade psicológica, sem fazer literatura urbana. Seu quadro vai do meio ambiente ao vazio da alma, fundindo o social e o existencial.

A obra tem uma abundância de personagens completos, com passado, presente e futuro.

Como já vimos, Cinzas do Norte traz uma história que se passa entre os primeiros anos do Golpe Militar de 1964 até a abertura democrática dos anos 1980. Nesse período, acompanham-se principalmente as trajetórias paralelas de dois amigos, Lavo (o narrador) e Mundo (o protagonista central), da infância à idade adulta.

Mundo, ou Raimundo, sonha ser artista. É apaixonado por desenho desde pequeno e ignora qualquer educação formal. Nascido numa família rica e decadente, vive numa contenda cruel com o pai, o milionário Jano, amigo dos militares, que não aceita que o filho troque os negócios da família pela arte, e tenta esmigalhar seu sonho. Ele despreza a rebeldia e os talentos artísticos do filho, com quem disputa o amor da mulher, Alícia, mãe do garoto, que por outro lado, estimula o talento do filho. No correr das páginas, vão surgindo intrigas e vínculos mal resolvidos entre os dois núcleos, e tudo é desvendado com sutileza, às vezes apenas sugerido. Outros narradores somam-se a Lavo, e as diferentes versões da história acabam por formar um círculo que se fecha apenas nas linhas finais.

Lavo, que narra tudo em primeira pessoa, é um órfão, perdeu os pais em um naufrágio e foi criado por tia Ramira e tio Ranulfo, ambos irmãos de sua falecida mãe. Ramira era costureira e apaixonada por Jano, e Ranulfo, ex-namorado, ex-cunhado e eterno amante de Alícia, mãe de Mundo, que o trocou pelo dinheiro e o status de Jano.

Lavo é um narrador observador: ainda que todos os fatos narrados estejam diretamente ligados a sua vida, conta a história do lado de fora. Torna-se ao fim advogado de detentos esquecidos nas prisões.

Ranulfo é um típico boêmio errante, e também instigava Mundo a levar a sério seus desejos artísticos.

Nesta história, Lavo apresenta e relata a vida do seu tio Ran, Ranulfo, um artista perdido nas terras, nas ruas que nasciam, na grande Manaus; conhecedor das águas, dos rios de águas em que se derrete a imensa Amazônia, serpenteando, ondulando, para os caboclos que, de tanto ver, apenas os acompanham, levados pelo banzeiro dos rios, dos paranás, dos furos. Tio Ran, que ao final da sua vida, quando cansado de tudo perder, menos a sua liberdade, se embalava na rede emprestada por um amigo, lendo um romance. Ramira, sua irmã, sempre incomodada com a vida estranha que levava seu irmão, e que Lavo ouviu, ainda na meninice: “Estou trabalhando, mana”. Mais tarde, Lavo entenderia que esta era uma das definições de literatura.

O amor de Ranulfo por Alícia foi a grande causa da sua vida. Alícia, mãe de Mundo, retrato da cabocla amazonense, inconfundível na sua beleza e nos seus conflitos; miscigenação da riqueza e da miséria; conflito da ancestralidade e da confusão de raças, culturas e sangues; incompatibilidade necessária e busca da unidade humana no outro. Tudo isto nela se confunde. Ela que não sabia, que nunca soube quem era seu pai, talvez um francês que só deixou um vestígio nas Cinzas do Norte. A mulher pobre que um dia aportou na beira do rio Negro, acompanhada por sua irmã Algisa e uma índia, mantenedora de exóticos costumes, casou-se com um descendente de portugueses. Este, homem rico e mesquinho, dono da Vila Amazônia, próxima de Parintins, meu berço, a Ilha Encantada, terra do Garantido e do Caprichoso, deveria ser o pai de Mundo, o filho que nunca foi seu filho, porque era filho de Aranda, falso artista da Manaus que se abria para o mundo, e porque Jano queria um herdeiro e não um filho para a sua imensa fortuna. O nascimento deste menino marcou o distanciamento entre Alícia e Jano, abreviatura de Trajano.

Hatoum constrói assim aos poucos a dúvida sobre a paternidade de Mundo. Cartas de tio Ran para Mundo recheiam o livro, intercaladas com os capítulos.

 Mundo e Lavo são dois opostos que representam os caminhos que marcaram a juventude daquela geração: ser artista e/ou engajado e lutar pelas mudanças, ou se conformar e virar um engravatado, quieto e com o salário garantido no fim do mês. Como diz Mundo, “ou a obediência estúpida ou a revolta”, sem saber, em sua radicalidade ingênua, o quanto esses dois caminhos, apesar de todas as diferenças, terminam parecidos (“neste mundo, quem vive é que vê o pior”, diz o chofer de Jano). Terminam na desilusão, implacável.

A amizade de Lavo e Mundo não é óbvia. Mais do que afeto, o que sentem um pelo outro é uma espécie de necessidade, uma inveja mútua. Lavo inveja a coragem, a ousadia, o talento e o inconformismo de Mundo. E este se ressente da suposta liberdade do amigo, que não tem um pai ou alguém para o impedir de realizar seus sonhos, mesmo porque Lavo não tem sonhos. Falta-lhe a obstinação. Torna-se advogado por falta de vontade de decidir qualquer outra coisa.

A dissolução familiar ainda é um tema forte para o autor, o ódio entre pai e filho é ainda mais assombroso. A literatura de Hatoum nutre-se de conflitos. Conflito cultural, com o ocidental e o oriental que se fundem, mas que mantêm sua obra sempre universal, nunca regionalista. Conflito entre a tradição familiar, geracional, e a modernidade industrial que sufoca, oprime, desvirtua Manaus, expulsa os moradores da beira do rio. Conflito entre a natureza dos rios e igarapés, além da floresta amazônica, e a concretude urbana, as praças rasgadas por avenidas. Conflito entre a linguagem culta, elegante, e a coloquial, herdada da oralidade e presente na segunda pessoa utilizada nos diálogos. O adjetivo mais adequado à prosa de Hatoum: hipnótica.

Cinzas do Norte instaura ainda uma discussão interessante sobre a função da arte. Engajada ou comercial? Experimental ou convencional? Mundo acredita que o artista verdadeiro é o da obra destruída. Enxerga uma função social em sua arte, uma discussão que vem desde Sartre e Glauber. Arana, seu guru, contrasta as vertentes; tem vontade de soar artístico, mas faz trabalhos por encomenda e exibições para turistas. No fim, torna-se exportador de objetos feitos com madeira nobre, valiosos lá fora, e ganha muito dinheiro. Já sobre a literatura, Lavo aprende com seu tio, escrever é trabalhar com a imaginação dos outros e com a sua própria.

O desejo de pertencer a algum lugar e a sensação permanente de deslocamento, onde quer que se esteja, são outros dilemas comuns aos personagens. Manaus, com seu calor opressivo e suas fronteiras ilhadas por braços de rio, é uma espécie de clausura para os protagonistas de Cinzas do Norte. Mas sair de lá não representa liberdade. Mundo circula pelo Rio de Janeiro, por Berlim e Londres, apenas para se perceber preso ao passado que sua cidade de origem representa: “Minha reclusão não é atributo da geografia”, conclui ele, numa carta a Lavo.

É assim que, nas trajetórias de Lavo e Mundo, reencontramos, ao mesmo tempo com surpresa e familiaridade, a história de vidas que ficaram pelo caminho, os amores irrealizados pelo medo, as esperanças que se perderam no tempo. É quando escritor e leitor, reunidos no pacto silencioso da palavra que aponta para um mundo em que nada lhes é estranho, recolhem, cada um a seu modo, os restos calcinados em um lugar não tão distante.

Trecho do livro

Caminhavam juntos, sob o sol ou nos dias de chuva, Fogo e Jano, seu dono. O cachorro se adiantava, virava o focinho para o lado, esperava, se empinava um pouco, farejava o cheiro do homem, escutava os sons roucos da voz: “Vamos logo, Fogo… Vai, vai andando”.

Eram inseparáveis: Fogo dormia perto da cama do casal, e Alícia não suportava isso. Quando o cão trazia carrapatos para a cama, ela o enxotava, Jano protestava, o bicho soltava ganidos, ninguém dormia. Então Fogo voltava, quieto e mudo, e se aninhava no cantinho dele, forrado com uma pele de jaguatirica. Ela ia dormir no quarto do filho. Nos últimos meses da vida de Jano foi assim: Fogo e seu dono num quarto, e a mulher, sozinha, no quarto do filho ausente. O cachorro tinha na pelagem umas manchas amareladas que o menino detestava porque um dia o pai dissera: “Manchas que brilham que nem ouro. Aliás, Fogo é um dos meus tesouros”.

Antes de conviver com Mundo no ginásio Pedro II, eu o vi uma vez no centro da praça São Sebastião: magricelo, cabeça quase raspada, sentado nas pedras que desenham ondas pretas e brancas. Ao lado de uma moça, ele mirava a nau de bronze do continente Europa; olhava o barco do monumento e desenhava com uma cara de espanto, mordendo os lábios e movendo a cabeça com meneios rápidos como os de um pássaro. Parei para ver o desenho: um barquinho torto e esquisito no meio de um mar escuro que podia ser o rio Negro ou o Amazonas. Além do mar, uma faixa branca. Dobrou o papel com um gesto insolente, me encarou como se eu fosse intruso; de repente se levantou e estendeu a mão, me oferecendo o papel dobrado.

“Mundo?”, perguntei, antes de agradecer.

Sorriu com o canto da boca, os olhos escuros ainda assustados.

“Naiá, esse aí é o sobrinho do Ranulfo?”

A moça o agarrou pela cintura, e os dois se afastaram, o rosto de Mundo voltado para mim e em seguida para o monumento.

Foi o primeiro desenho que ganhei dele: um barco adernado, rumando para um espaço vazio, e toda vez que passava perto da nau Europa, lembrava do desenho de Mundo.

Só fui tornar a encontrá-lo em meados de abril de 1964, quando as aulas do ginásio Pedro II iam recomeçar depois do golpe militar. Os bedéis pareciam mais arrogantes e ferozes, cumpriam a disciplina à risca, nos tratavam com escárnio. Bombom de Aço, o chefe deles, mexia com as alunas, zombava dos mais tímidos, engrossava a voz antes de fazer a vistoria da farda: “Bora logo, seus idiotas: calados e em fila indiana”.

Naquela manhã, o portão do colégio estava fechado durante o recreio, e a chuva confinava os ginasianos sob os pórticos revestidos de mármore. Antes de soar a sirene, apareceu uma mulher segurando uma sombrinha vermelha que protegia apenas o corpo do estudante que a acompanhava; tinham quase a mesma altura. Bombom se precipitou para abrir o portão para os dois, que subiram lentamente a escadaria. Os alunos se dispersaram para que eles atravessassem o saguão; não olharam para ninguém, foram observados por todos. O bedel os conduziu à sala do diretor, e quando a sirene disparou, a mulher reapareceu, sozinha, o cabelo ondulado úmido; a blusa de seda, molhada, provocou assobios dos veteranos. A morena de cerca de trinta anos desceu com pressa a escadaria; na calçada, abriu a sombrinha e aproximou o rosto das grades de ferro. Viu-me encostado a uma coluna e me chamou: era um absurdo não ir visitá-la, mas de agora em diante eu não teria mais desculpas, seu filho ia estudar no Pedro II. Concordei com um gesto tímido, e ela ainda disse: “Penso na tua mãe como se estivesse viva”. Era Alícia, a mãe de Mundo.

No começo ele foi apenas um colega de sala. Esquivo, o mais estranho de todos, e dono de certas regalias. Nas manhãs chuvosas, um dkv preto vinha pela Rui Barbosa e estacionava no pátio lateral. Mundo subia a escada, protegido por um guarda-chuva que o chofer segurava. Este dizia ao bedel: “Aí está o menino”. Mas, quando Mundo chegava atrasado, tinha que esperar o intervalo seguinte. Nós o víamos rondar o coreto da praça das Acácias, depois sentar num banco e desenhar um bicho-preguiça, uma garça, o rosto de um transeunte. As regras disciplinares o transtornavam; mesmo assim, o desleixo da farda e do corpo crescia, enraivecendo os bedéis: cabelo despenteado, rosto sonolento, mãos sujas de tinta; a insígnia dourada inclinada na gravata, o nó frouxo no colarinho, ombreiras desabotoadas. Ele usava uma meia de cada cor, arregaçava as mangas, não polia a fivela do cinturão. Bombom o barrava e ameaçava: preguiçoso, displicente, pensava que filhote de papai tinha vez ali? Mundo não respondia: sentava atrás da última fila, isolado, perto da janela aberta para a praça. Nos dias de chuva forte, passava o recreio em pé, diante dessa janela, observando as árvores que a tempestade derrubara, os jacarés entre as pedras, as aves aninhadas à beira do pequeno lago, alguém sentado num banco, solitário, à mercê das rajadas, e, mais longe — naquela época o horizonte ainda era visível —, as casinhas de madeira inundadas ou submersas e os barcos e canoas emborcados ou à deriva nos igarapés do centro de Manaus.

Nos intervalos, caminhava sem medo no meio dos veteranos valentões, ignorando as ameaças, arriscando-se a levar um empurrão ou tapa. No silêncio nervoso de uma prova de matemática, ouvíamos o ruído da ponta do lápis no papel, rabiscando seres e objetos; mesmo assim, ele respondia às questões e era o primeiro a terminar a prova. No fim do ano, Mundo nos surpreendeu: aprovado em todas as disciplinas.

 Créditos

 O resumo do livro Relato de um certo oriente e Dois irmãos foi publicado no site www. resumos.netsaber.com.br. O autor não é citado.

 O comentário sobre o romance Cinzas do norte foi publicado no site www.passeiweb.com. O autor também não é citado.

Samuel Beckett

Publicado em Artes cênicas, Ato sem palavra I, Literatura, Samuel Beckett, Teatro por Rudinei Borges em 25/08/2009
Samuel Beckett

Samuel Beckett

Dramaturgo, romancista, poeta e ensaísta irlandês (13/4/1906-29/12/1989). É considerado o pai do teatro do absurdo e um dos autores mais influentes do teatro contemporâneo. Recebe o Prêmio Nobel de Literatura de 1969.

Samuel Barclay Beckett, nascido em Foxrock, perto de Dublin, inicia em 1930 a carreira literária com o poema Whoroscope, título composto das palavras “prostituta” e “horóscopo”. No ano seguinte escreve um ensaio sobre Marcel Proust.

Fixa-se em Paris a partir de 1937 e participa da Resistência Francesa durante a II Guerra Mundial. Faz uma obra bilíngüe, escrevendo em inglês e em francês. Seu primeiro romance, Murphy, publicado em inglês em 1938, é traduzido por ele próprio para o francês em 1947.

Revoluciona a linguagem teatral com a peça Esperando Godot (1953), que o torna conhecido internacionalmente. Autor pessimista, Beckett nega a possibilidade de comunicação entre os indivíduos por meio da linguagem. Exemplos desse pessimismo, além de Esperando Godot, são as peças Fim de Partida (1957), Dias Felizes (1961) e Não Eu (1972), a pantomima Ato sem Palavras (1957) e o romance Como É (1961).

Sentimento do mundo – Drummond

Publicado em Carlos Drummond de Andrade, Literatura, Literatura Brasileira, Poesia, Poesia Brasileira por Rudinei Borges em 24/08/2009
Foto: não sei quem é o autor

Foto: não sei quem é o autor

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Os estatutos do homem – Thiago de Mello

Publicado em Literatura, Literatura Brasileira, Poesia, Poesia Brasileira, Thiago de Mello por Rudinei Borges em 24/08/2009

 

(Ato Institucional Permanente)
 
                                          A Carlos Heitor Cony
 
    Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
 
   Artigo II

   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
 
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
 
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.

 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino.
 
 
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa.
 
 
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
 
   Artigo VII

   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo.
 
 
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor.
 
 
   Artigo IX

   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura.
 
 
   Artigo X

   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco.
 
 
   Artigo XI
 
   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã.
 
 
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.

 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
   Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou.
 
 
   Artigo Final.
 
   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.

Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

Carta de Marina Silva

Publicado em Notícias por Rudinei Borges em 19/08/2009

Por um instante abdiquei de publicar tópicos com poesia e crítica literária para apresentar na íntegra a carta em que a  senadora Marina Silva anuncia a sua saída do PT (Partido dos Trabalhadores). Creio que é um ato significativo. Marina Silva é uma das principais lideranças políticas do Brasil, principalmente por sua trajetória incansável de luta pelo meio ambiente. Eis abaixo as palavras ternas e corajosas de Marina:

“Brasília, 19 de agosto de 2009

Caro companheiro Ricardo Berzoini,

Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.

O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.

Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão  que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.

Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.

Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.

É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas públicas para mantê-las.

Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil – com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais – é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte por quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.

Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.

Saudações fraternas,

Marina Silva”.

A máquina do mundo

Publicado em Carlos Drummond de Andrade, Literatura, Literatura Brasileira, Poesia, Poesia Brasileira por Rudinei Borges em 13/08/2009

por Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

 Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300. 

 

 

 

Cordel do fogo encantado

Publicado em Música, Sem categoria por Rudinei Borges em 06/08/2009

Há poucas coisas que me deixam tão entusiasmado.

Rasif, mar que arrebenta

Publicado em Artes cênicas, Marcelino Freire, Sesc/SP, Teatro por Rudinei Borges em 06/08/2009

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Esptáculo baseado em doze dos dezessete contos do livro Rasif, mar que arrebenta, do autor pernambucano Marcelino Freire. Como em Angu de Sangue, primeiro espetáculo do Coletivo Angu de Teatro, os textos de Marcelino, em sua maioria monólogos em tom de desabafo que, segundo o autor, tratam de seu “desespero renovado”, foram transportos quase que totalmente na íntegra para a cena, e mesmo as senhas para a concepção do espetáculo – “mar e pedra”, “língua e luta”, “amor e guerra” – vêm da própria circularidade e do encantamento do discurso do autor, que considera “cirandas” os próprios contos.

A peça faz parte do projeto Palco Giratório 2009 do SESC e está e já foi apresentada em várias cidades do Brasil.

Apresentação da poesia brasileira

Publicado em Antonio Candido, Literatura, Literatura Brasileira, Manuel Bandeira, Poesia, Poesia Brasileira por Rudinei Borges em 06/08/2009
O poeta Manuel Bandeira

O poeta Manuel Bandeira

Autor: Manuel Bandeira

Editora: Cosac Naify

Em Apresentação da Poesia Brasileira, publicado em 1946, o poeta Maunel Bandeira observava que os primeiros indícios de uam poesia de fato brasileira surgiram com os poetas árcades. Neles, escreveu, notava-se “alguma coisa que representa, na emoção mais sincera ou no aproveitamento do elemento brasileiro, uma força renovadora ainda sem consciência de si mesma”. Tateando o terreno da evolução da poesia no país e destacando a cultura intelectual que surgia em Minas Gerais no período, Bandeira se aproximava da tese posterior de Antonio Candido, em seu clássico Formação da Literatura Brasileira (1975).

Prosa acanhada: crítica e literatura brasileira contemporânea

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por Mauricio Salles

A prosa não anda em pauta diferente da acanhada produção poética, ao fim destes primeiros anos 2000. Acaba por revelar o que se percebe na produção artística brasileira, gritantemente no cinema e na música. (Artes cênicas e plásticas mostram maior vitalidade e variedade de registros, de recursos). Uma disciplinarização do lugar autoral se apresenta vinculável a procedimentos de normativização do saber-poder legitimados e visibilizados. Leem-se em autoral um desenho administrativo-editorial, um desígnio resenhado por jornais-corporações, finalmente acolhidos pela comunidade acadêmica como código e cânone.

O que se observa é uma correção de tom na prosa. Há uma homogeneidade na manutenção de um padrão médio acerca do que se imagina como o Brasil, do que se entende como narrativa. Nada próximo de um alto repertório, pois a grande qualidade pode provir de um referencial baixo ou elevado. Talvez haja até uma preocupação com uma elevação culturalista e discursiva nesse sentido, porém o resultado longe está de uma literatura com grandes voos e resultados. Há que se buscar o novo deste tempo, que não é mera reciclagem de estilos – no compasso de uma desgastada reescrita de textos-chave da história da literatura –, muito menos o retorno a algum fundamento classicizante ou disciplinar (como por exemplo a sociologia que dá prêmio ou o romancear da história nos moldes metadiscursivos levados à exaustão). Interessa o que é só de agora, como está na etimologia da palavra “moderno”, e se refaz para além da adequação a uma ideia inconsistente e infindável de tardomodernidade.

Entre os autores citados na questão, penso que Bernardo Carvalho é um dos poucos produtores de narrativas surgidos da década de 1980 para cá que merecem atenção, pelo fato de ser o mais preparado, o mais culto e abrangente na sua leitura da arte e da cultura atuais. Nem sempre há equilíbrio em sua produção. No entanto, livros como Medo de Sade e Nove noites vão além da moldura pós-borgeana em que seu trabalho vinha se mantendo, jogando de modo criativo com a história e a paródia, a pesquisa e as formas do falso. No que envolve, também, as relações entre escrita e viagem, há formulações intrigantes em seus livros, muito acima do registro-padrão nacional.

Penso que há uma matriz inventiva da prosa ficcional no Brasil, acentuada a partir dos anos 1970, que repercute nos melhores momentos de Bernardo Carvalho. É pena que não seja desdobrada, atualizada. Um veio trilhado por José Agrippino de Paula e Rubem Fonseca (uma década antes), prosseguido por Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll e Valêncio Xavier, de forma muito própria, com grande potencial de linguagem e abertura na visão do Brasil contemporâneo. Um livro essencial – um dos títulos mais incríveis publicados nos últimos dez anos – como Sexo provém dessa vertente, mas parece não ter resultado numa consequência produtiva para o próprio autor, André Sant’Anna. Fica como um belo, raro exemplo do que pode a narratividade no Brasil, em seu poder de leitura de nossos arquétipos sociais, comportamentais, sexuais, sem perda de foco crítico e experimentalismo.

Curiosamente, é com José Agrippino de Paula que dialoga André Sant’Anna, em Sexo, como se vê nas etiquetas prototípicas da sexualidade e da sociabilidade, num certo andamento pop, extraindo força, também, das multidões de corpos à deriva, em desregramento, bem próximo de Lugar público, não apenas de Pan América: Epopeia. Uma referência que vem, aliás, de Sérgio Sant’Anna, um entusiasta e interlocutor das melhores conquistas criadoras do autor de Pan América, como se lê no seu primeiro grande livro, Confissões de Ralfo: Uma autobiografia imaginária. Sérgio Sant’Anna vem dando, aliás, sequência ao que seria a continuidade de um trabalho inaugurado por José Agrippino, caso ele não interrompesse sua atividade de escritor. A postura de Sant’Anna merece ser não só destacada, mas destrinchada para bem da nossa atualidade, da capacidade de leitura da Tragédia Brasileira aliada a um alto grau de inventividade e pesquisa. A escrita narrativa precisa de um corte conceitual à altura do saber existente em nossa época, sem ser cerebral e teorizante (como ocorre no proseado de alguns escritores profissionais). Muito ao contrário, Sérgio Sant’Anna está bem aí.

Recuperando-se certos títulos como Armadilha para Lamartine, Quatro-olhos, A rainha dos cárceres da Grécia, Qadós, só para ficarmos na década de 1970 e não falarmos, um pouco mais atrás, de Samuel Rawet, Maura Lopes Cançado, Campos de Carvalho, visível se mostra a pequenez do atual panorama da narrativa no século xxi. Isso sem falar do livro inigualável, inquietantemente contemporâneo que é Lugar público, mais até do que Pan América, extraordinário e inaugural, portador, contudo, da marca de uma estética de época. Tenho pessoalmente mais interesse, como estudioso e produtor de narrativas, pelas cadernetas onde José Agrippino escreveu Os favorecidos de madame Estereofônica do que pela produção dos autores em circulação. Pois vem dali um compromisso com a experimentação e não com as demarcações de interesse por um lugar midiático e cultural ativado por imprensa-mercado editorial-universidade, um circuito reprodutor do mesmo tipo de atitude pretensamente autoral, destituída de radicalidade e investigação. É o que mais falta e deveria ser a busca de toda prosa.

De um modo muito curioso, na cena cultural de hoje a afirmação da arte se mostra como um dos atos mais políticos e libertadores, pois em sua esfera se trava contato com vários planos de atuação e conhecimento. Esse comprometimento possibilita a refiguração de corpos e modos de ser-viver numa época altamente indagativa e convidativa, como a de agora, à criação, em que tudo está por acontecer.

Nomes como Sérgio Sant’Anna são uma raridade. Ele não para de se repensar, lançando-se a investigações, inclusive, na área teatral, por onde incursionou nos anos 1980 com Ensaio no 1, de Bia Lessa. Veja-se sua presença como autor e atuante na peça O auto da defunta nua (através de sua imagem videográfica de autor no meio da cena), atualmente em cartaz em São Paulo. Onde se encontram textos melhores do que em O monstro? No entanto, não houve nenhuma matéria de capa nos cadernos ilustrados ou de variedades sobre esse evento que é o ato de Sant’Anna na praça Roosevelt. Os que menos aparecem são os autores, de fato, importantes. Aqueles hiperfotografados nas celebrações apequenadas do mesmo, da mesma cena, nada acrescentam a não ser a seu capital cultural, segregador de vida inteligente, trabalho amortecido neles mesmos, cada vez mais para dentro do mercado dos rostos congelados.

Mais uma vez se torna claro que são autores e livros como Lugar público e O monstro, obscurecidos pelo marketing concentrado nos “literatos de prêmio” (como está numa canção esquecida de Capinam), que vão interessar, passado o tempo das autopromoções. Vão estar entre os escritos que vibram inquietações, investigações sobre a arte, o lugar obscuro que é o Brasil, o interesse pela leitura, e não nos retratos panorâmicos, demarcadores de territórios regionais e culturais, quando não em exposição da vida pessoal, através do apelo verista à autobiografia. A narrativa do Brasil ainda está envolvida com uma ideia de verdade e testemunho totalmente inserida na cultura interativa, do reality doc. show. Não enfrenta, entretanto, o poder de fabulação obtido pelo império áudio-visual cotidiano, no país da telenovela, em que pouco se lê.

É o que parece esboçar a pouca informação conhecida sobre Os favorecidos de madame Estereofônica, um longo e fragmentário texto em torno do universo televisivo. Uma dimensão ficcionalizadora que se presentifica em Pynchon e já foi pontuada por Puig e Cabrera Infante, em relação à cultura da imagem, no contexto das Américas. Enquanto isso, os editores posam, com sua empáfia, como se tivessem a palavra final, a noção-chave do que é grande e valoroso, forjando nomes e tendências da literatura média, facilmente abarcados pelo poder universitário de reproduzir lugares-comuns dos espaços midiáticos, incapaz que é de descobrir outras escritas, outras noções de autoria.

 Pulicado na Revista Sibila:

www.sibila.com.br

O silêncio

Publicado em Literatura Brasileira, Poesia, Poesia Rudinei Borges, Textos de Rudinei Borges por Rudinei Borges em 02/08/2009

O silêncio do meu silêncio

é a Estrela Dalva quietinha

no céu de terça-feira.

(Rudinei Borges)

Cedo ou tarde

Publicado em Albano Martins, Poesia por Rudinei Borges em 31/07/2009

Devias saber

que é sempre tarde

que se nasce, que é

sempre cedo

que se morre. E devias

saber também

que a nenhuma árvore

é lícito escolher

o ramo onde as aves

fazem ninho e as flores

procriam.

(Albano Martins, poeta português)

Pécora revisita transgressão lírica (e obscena) de Hilda e Piva

Publicado em Alcir Pécora, Literatura, Literatura Brasileira, Roberto Piva por Rudinei Borges em 23/07/2009
O poeta Roberto Piva

O poeta Roberto Piva

Alcir Pécora
Alcir Pécora

À procura de uma fotografia de Hilda Hilst encontrei esta entrevista de Álvaro Kassab, em que o crítico e pesquisador Alcir Pécora comenta a obra de Hilda Hilst e Roberto Piva. A entrevista foi publicada no Jornal da Universidade de Campinas em março de 2007.

A entrevista

São obras de intensidade incômoda: performáticas, escandalosas, brutais. Sobretudo são obras sem o menor pudor: trata-se, em ambos os casos, de uma literatura cujo fulcro é o obsceno. Isto os afasta do mainstream da literatura brasileira, sempre muito comportado. Curioso isso: país bandalho, literatura pudica”. As obras em questão são de Hilda Hilst (1930-2004) e de Roberto Piva (1937). O diagnóstico é do professor Alcir Pecora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), a quem coube a organização das obras reunidas dos dois escritores paulistas. Os livros vêm sendo publicados pela Editora Globo. Nesta entrevista, o intelectual fala sobre o seu trabalho e do papel de Piva e Hilda – o acervo da escritora está depositado no Centro de Documentação “Alexandre Eulálio” (Cedae) do IEL. “Eles são, em parte, personagens de sua literatura”.

 

Jornal da Unicamp – O que lhe atraiu na proposta de organização das obras completas de Hilda Hilst e Roberto Piva? Por que lhe ocorreu se dedicar editorialmente à obra desses dois autores?

Alcir Pécora – A condição básica da minha aceitação, em ambos os casos, foi o meu sentimento da qualidade excepcional das duas obras no panorama da literatura brasileira.

JU – Embora tenham publicado os primeiros livros há mais de mais de 40 anos, ambos foram durante décadas praticamente ignorados pela crítica, pela academia e pelo mercado editorial (vale lembrar que as edições eram, invariavelmente, artesanais). Despreparo da crítica ou falta de difusão da obra?

Pécora – As duas coisas existem. Acrescento o seguinte: a literatura de ambos é de legibilidade difícil no âmbito das correntes predominantes da produção e da crítica literária brasileira pós-45: não tem filiação construtivista, nem concretista; não tem enredo realista, não tem temas nacionalistas, nem tem militância política convencional, embora as obras de ambos sejam altamente políticas e intervencionistas. São obras de intensidade incômoda: performáticas, escandalosas, brutais. Sobretudo são obras sem o menor pudor: trata-se, em ambos os casos, de uma literatura cujo fulcro é o obsceno. Isto os afasta do mainstream da literatura brasileira, sempre muito comportado. Curioso isso: país bandalho, literatura pudica.

JU – Por outro lado, não deixa de ser curioso que tanto Hilda como Piva tenham sido sistematicamente rotulados – nem sempre de forma lisonjeira – pela mídia em geral, quando não por seus pares. Os adjetivos (“malditos”, “marginais” etc) passaram a ser usados sem cerimônia, sobretudo depois de um certo reconhecimento público. A que o senhor atribui essa fábrica de estereótipos?

Pécora – Em parte, os rótulos de malditos e marginais são produzidos pelos fãs de ambos. É coisa que lhes traz certa admiração adolescente e romântica. Mas é verdade, o mesmo traço trai preconceito e distância. A crítica séria, nos dois casos, tendeu a lavar as mãos. O que se passa é o seguinte: ambos os autores são muito interessantes pessoalmente, são gente muito incomum, culta, falante, divertida, bem-nascida, que impressiona à primeira vista e que espanta e depois faz a festa dos entrevistadores.
Era impossível ficar ao lado da Hilda e não ir às lágrimas de tanto rir, ou de tanto ser importunado. Muita gente até hoje tem medo de chegar perto do Piva e ouvir o que não quer. A obra exigente dos dois autores, que postula uma leitura atenta, reflexiva, acaba superada pela facilidade dessa imagem pública atraente de loucos ou desbocados. Em parte, pois, eles são vítimas da própria exuberância; não seria um problema tão grande, se aliado a isso não houvesse uma imensa preguiça e incompetência de ler.

JU – No campo, digamos, comportamental, Hilda e Piva, deliberadamente ou não, recorreram à iconoclastia e ao experimentalismo. Em que medida esses componentes migraram para a obra dos dois?

Pécora – Eu tenderia mais a explorar o lado inverso da sua afirmação, pois Hilda e Piva, em parte, são personagens de sua literatura. Eles se autocriaram com base em suas próprias metáforas. Tornaram-se, por assim dizer, o suporte material de sua obra.

JU – Existem outros pontos de contato entre as obras de ambos? Se sim, quais seriam?

Pécora – Até agora, só falamos dos pontos de contato. Acrescento mais um: o valor da amizade como afeto decisivo na obra de ambos. Mas é igualmente interessante falar de suas diferenças. Em termos poéticos, Hilda lida basicamente com modelos da tradição ibérica, em particular da chamada poesia mística, de S. Juan de la Cruz, de Sór Juana, e da poesia órfica do século XX, de Rilke a Jorge de Lima. Na prosa, o registro de Hilda é tendencialmente baixo, econômico e dialógico: Beckett e Joyce são referências importantes aqui. O procedimento fundamental é o de um fluxo de consciência altamente dramatizado.
Já Piva tem sempre um ritmo exaltatório, ditirâmbico, e suas referências fundamentais são a poesia de Walt Whitman, dos beats, do surrealismo etc.; mas articula todo esse esporro libertário com a poesia cerebral de Dante, sua mais extensiva referência. Em ambos os poetas, há uma espécie de dialética entre o muito alto e o muito baixo. Só lhes falta completamente o senso do medíocre. Para ensaiar uma comparação brusca final, podíamos dizer assim: Hilda até quando é sublime tende ao obsceno; Piva, ainda quando é obsceno, tende ao sublime.

JU – Hilda Hilst enveredou pela poesia (de forte apelo lírico), pela prosa e pela dramaturgia. Não raro fundia os gêneros. Que avaliação o senhor faz da evolução de sua obra?

Pécora – Para mim, a obra de Hilda Hilst apenas se tornou grande depois que começou a escrever prosa. A poesia posterior à prosa ganha muito em intensidade e em variedade de registro. A produção teatral se faz de um jato, ao final dos 60, mas se desenvolve na forma peculiar de sua prosa de ficção, onde o fluxo de consciência se desdobra em várias emanações de uma mesma persona. É um fluxo dramático, como já disse. As crônicas são, em geral, fusões galhofeiras e aplicadas às circunstâncias do conjunto da obra.

JU – Hilda nunca pertenceu a uma escola literária. É possível classificar sua obra? Qual o seu lugar na literatura contemporânea brasileira?

Pécora – Em termos de escola literária poética, eu a colocaria na linhagem de Jorge de Lima. Em termos de prosa, não há escola alguma. É a escola Hilda de devastação crítica e autocrítica.

JU – Já a obra de Piva ficou praticamente circunscrita à poesia, demarcando um terreno visto por alguns como seminal, diferente de tudo que se produzia à época de seu primeiro livro, no início da década de 1960. Ao mesmo tempo, quase bissexto, o poeta percorreu caminhos de diferentes matizes. O que o senhor destacaria nessa trajetória?

Pécora – É engraçado: a poesia de Piva emerge regularmente de tempos em tempos, de 12 em 12 anos. Cada irrupção tem uma dominante diferente: beat, psicodélica, mágica… Mas tem sempre um viés do excesso, do que não cabe em si mesmo, do transgressivo como centro da vida. Ao contrário de Hilda, Piva nasce feito: sua primeira poesia já é grande.

JU – Qual o papel de Piva na poesia brasileira contemporânea?

Pécora – A poesia de Piva ainda compete por um lugar de destaque. Apenas gente do ramo a conhece. Mas a sua divulgação naturalmente tende a crescer, com as edições da Globo. Acho que tende a ocupar um lugar na linhagem de Murilo Mendes: de uma erótica voluntarista, metafísica e política.

JU – No prefácio do livro Um Estrangeiro na Legião, de Piva, o senhor escreveu que é “difícil não amar gente inconformada, num mundo de mansos”. Existe literatura sem inconformismo?

Pécora – Existe: a do tipo que ganha concursos e prêmios. Evidentemente não vale nada.

Quem é Alcir Pécora

Alcir Pécora é professor livre-docente e diretor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, onde leciona desde 1977. É autor, entre outros trabalhos, de Teatro do Sacramento (SP/Campinas, Edusp/Editora da Unicamp, 1994); Máquina de Gêneros (SP, Edusp, 2001); As Excelências do Governador, em co-autoria com Stuart Schwartz (SP, Companhia das Letras, 2002). É co-editor da revista Sibila.