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19/03/2012

de manhã o meu suspiro se depara com as rotas do meu coração e disparo a voz do meu crime

Rudinei Borges (30 de maio 2011 – esboço)

19/03/2012

tenho ficado sozinho
com meus pastores de vento
deixado rastros de pássaros
voado à noite às vezes
perdido tempo com espinhos roseiras
pedido aos meus fantasmas que me deixem em paz
tenho amado uma estátua de vidro com olhos vendados
chorado à tarde pela manhã
tenho vivido quase sempre como um despatriado
caminhando pelas beiradas duma alameda sem nome
quase sempre diante de satã
quase sempre longe de deus

(Rudinei Borges)

Carta a um amigo

21/02/2012

São Paulo, 31 de janeiro 2012.

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Meu caro,
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Estou em dívida com você. Em especial sobre as questões levantadas em outro e-mail. Saiba que é sempre uma alegria conversar com você. Neste últimos encontros eu estava realmente muito cansado e ao mesmo tempo muito alegre com o projeto teatral que estamos desenvolvendo na Trupe Sinhá Zózima. Sobre minha reflexão sobre o projeto, não se trata de otimismo ou pessimismo. Aliás, isto é uma grande bobagem. Nietzsche, no século XIX, já criticava esta lacuna entre bem e mal. Conceitos comuns em nossa cultura judaico-cristã. Claro que escrevo isto para provocá-lo. Porém, para ser franco não suporto qualquer coisa que pareça auto-ajuda. Mas não sou tão bravo assim, rapaz.
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Fiquei feliz ao ouvir as suas ideias sobre uma possível exposição de artes visuais. Por isso mesmo tenho algumas indicações para você. Suas ideias estão em consonância com muitos artistas e vão além da fotografia. Creio que você deve pesquisar dois termos:
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a) Performance;
b) Arte Multimídia.
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Penso também que devemos ir à Bienal de Artes este ano. Não lembro em que mês ocorrerá. Também indico outros materiais, a partir do conceito que você comentou, aliás do que lhe interessa na fotografia: “captar o que o olho humano não capta”.
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a) O livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e o filme do nosso querido cineasta, Fernando Meireles. O filme tem o mesmo nome do livro.
b) O belo documentário “Janela da alma” de João Jardim e Walter Carvalho.
c) O filme argentino, “O segredo de seus olhos”.
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Se quiser realmente ficar louco, comece a estudar semiótica que apresenta conceitos imprescindíveis para quem deseja ser um fotógrafo de verdade. Indico fotógrafos que gosto muito:
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a) Luiz Braga, fotógrafo paraense;
b) Sebastião Salgado;
c) Henri Cartier-Bresson;
e) Jindrich Streit;
f) August Sander;
g) Diane Arbus.
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Um fotógrafo é, sobretudo, um artista. E um artista é, sobretudo, um
pesquisador. Portanto, nunca haverá verdadeiro fotógrafo que não seja um investigador inquieto. Indico também cineastas inquietos:
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a) Ingmar Bergman – este é o maior de todos, um gênio – veja o filme “Persona” e “O Sétimo Selo”;
b) Felinni – grande mestre – veja o filme: “Oito e meio”;
c) Pasolini – veja o filme: “Teorema”;
d) Kurussaua – veja o filme: “Os sonhos”.
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No Brasil, conheça Glauber Rocha. E se puder, esqueça os filmes americanos. São quase todos catastróficos, fracos e previsíveis. Mais do mesmo, sempre. E disseminam esta ideologia boba: “você tem que ser vitorioso”. Todos os filmes americanos se resumem nesta frase. É um mistura de culto ao capitalismo e ao pior da Teologia da Prosperidade. Parece-me que Calvino está mais vivo do que nunca. Filmes e desenhos americanos concernem no lixo do lixo da cultura. Salvam-se Orson Welles, Wood Allen e Scorcese. Geralmente filmes que ganham o Oscar são catastróficos. E para terminar de chutar o balde: você só será um verdadeiro leitor quando deixar de ler livros que estão na lista dos mais vendidos. Geralmente é literatura de quinta categoria. Coisa que não vale um centavo.
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Cara, na verdade precisamos deixar de consumir o lixo da indústria cultural (Theodor Adorno escreveu muito sobre isso). Precisamos conhecer arte e literatura de verdade.
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Penso que você deva começar a estudar e produzir boa fotografia.
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Grande abraço, meu caro.
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Utopia e luta, sempre!
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Rudinei Borges

A fotografia de Alejandro Stuart

21/02/2012

Compartilho abaixo fotos em preto e branco que considero interessantes. São do poeta e fotógrafo chileno Alejandro Stuart. Devo admitir que o meu trabalho literário é amplamente influenciado pela obra de muitos fotógrafos, em particular os que “capturam” rostos, o humano dos rostos, em preto e branco. 

1. Brasil, 1971

2. A nudez homoerótica

Entrevista ao Arteletra Literatura

07/02/2012

Compartilho com todos a entrevista que concedi ao programa Arteletra Literatura. Também participa o poeta Felipe Stefani.

Raio

03/02/2012

Crônica de ano novo

03/01/2012

Por Rudinei Borges

Faz tempo não lembro mais nada. Só o sol azul sobre a parede do escombro misturando-se aos pigmentos de lodo. E uma mulher na janela do sobrado. Toda noite ela diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão. Faz tempo não me lembro de Deus. Na passagem de ano talvez. Um homem velho, à meia noite, acendeu a lareira e desenhou com as mãos cruzes miúdas sobre a testa, os olhos, a boca e o coração. Aquele homem velho fez-me lembrar de Deus.

Mas despois a imagem do fogo corroendo o eucalipto dentro da lareira perdeu-se. Só recordei-me agora e é provável que mais tarde esta mesma imagem se perca entre outras imagens-várias que nunca mais vi: um ciclone, um trem que vai de São João Del Rei para Tiradentes, um acidente de carro, o rosto de Lenin apavorado numa pintura no centro de São Paulo, uma mala pequena que veio da Ilha da Madeira na bagagem de duas portuguesas em 1970, a marcenaria onde comprávamos piões, um ventilador que rosnava à noite, uma carta que nunca enviei, um cavaleiro que jogava xadrez com a morte num filme de Ingmar Bergman, o aeroporto de Itaituba e a última ópera que assisti no teatro municipal. Ou outras lembranças consideradas importantes que desapareceram da minha memória: os olhos do meu pai, a voz do meu pai, o corpo do meu pai, o meu próprio pai. A primeira vez que beijei, a primeira vez que transei, a primeira vez que fui ao cinema, a primeira vez que vi o mar. A primeira vez que viajei para fora do Brasil (eu nunca viajei para fora do Brasil). E outras imagens que não consigo nomeá-las nem lembrá-las. Imagens que nunca existiram, nem existirão. Fantasmas de um tempo que não foi. Ou invenção da minha cabeça.

O fato é: foi na passagem de ano que me lembrei de Deus. E sei que os anos findam e começam. Amontoamo-nos em salas, ruas, igrejas e bares. E celebramos o ano que inicia, despedimo-nos do ano que termina. Porém, não sei por quais razões, não me recordo das passagens dos anos. O que fiz. Onde estava. Pouco importa. Não lembro.

Recordo-me que uma vez chegando a meia noite descobri que cupins alojaram-se em bando nos meus livros antigos e, na mesma hora, tratei de me livrar deles. Assim, de um ano para o outro, a última e a primeira coisa que fiz foi matar cupins. E, desde então, creio, tenho matado cupins.

E Deus? Sei pouco sobre o senhor dos auspícios. O que faz. Onde está. Não sei. Sei apenas que todos os dias, às dez horas da manhã, quando não há chuva, o sol mistura-se aos pigmentos de lodo na parede do escombro e permanece azul quase o tempo todo. E uma mulher na janela do sobrado toda noite diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão.


Cem melhores poemas do século XX

02/12/2011

1º A Terra Desolada (The Waste Land), de T.S. Eliot (1888-1965) – Nascido nos EUA, Eliot se sentia culturalmente ligado à Europa, tendo morado em Londres a maior parte da vida. Além de poeta, foi ensaísta e dramaturgo, tendo recebido o Nobel em 1948. No ano de 1922 publicou este poema-marco da literatura do século, em que constrói uma cerrada rede de referências à tradição literária européia na descrição de um continente devastado por um processo de desagregação que vinha desde o Renascimento.”Poesia”, trad. de Ivati Junqueira, Nova Fronteira.

2º Tabacaria, de Fernando Pessoa (1888-1935), sob o heterônimo de Álvaro de Campos – O poeta português é autor da mais original criação poética deste século, a heteronímia, ou seja, a criação de múltiplas personalidades poéticas com vida pessoal e espiritual própria. Campos é, segundo Pessoa, um engenheiro formado em Glasgow (Inglaterra). Vivendo integralmente os conflitos da modernidade, é o mais inquieto e exaltado dos heterônimos.”Obra Poética”, Nova Aguilar; “Ficções do Interlúdio”, Companhia das Letras. (Poema postado no comentário de nº 19 desta página, pelo leitor Ulisses Ferreira)

3º O Cemitério Marinho (Le Cimetiêre Marin), de Paul Valéry (1871-1945) – Valéry foi grande ensaísta e se via sobretudo como um homem devotado à inteligência. Daí viria sua relação tensa com a poesia que o tomaria um “poeta-não poeta”, na expressão de Augusto de Campos. “Cemitério Marinho” é a prova cabal do acerto de um de seus aforismos, que diz que poema é aquilo que não pode ser resumido.”O Cemitério Marinho”, trad. de Jorge Wanderley, Max Limonad.

4º Velejando para Bizâncio (Sailing to Byzantium), de William Butler Yeats (1865-1939) – O poeta e autor teatral irlandês recebeu o Nobel de 1923. Da plena maturidade são seus poemas mais citados, como este “Velejando para Bizâncio”, no qual a velhice e a morte, confrontadas com a permanência da arte, se vêem transfiguradas num espaço mítico além da vida.”W.B. Yeats – Poemas”, trad. de Paulo Vizioli, Companhia das letras.

5º Hugh Selwin Mauberley, de Erza Pound (1885-1972) – Este poema escrito em 1920 é o trabalho longo de leitura mais fluente do autor, já que é em grande parte escrito em forma mais tradicional e tem um eixo narrativo claro, o dos descaminhos do poeta americano E.P. e de seu duplo britânico, Mauberley, ameaçados de esterilidade artística. ”Poesia”, trad. de Augusto de Campos, Hucitec.

6º Pranto por Ignacio Sánchez Mejías (Llanto por Ignacio Sánchez Mejías), de Federico García Lorca (1899-1936) -Lorca foi tanto o poeta popular do “Romanceiro Gitano” (1928) quanto àquele que se horrorizou, fascinado, diante da metrópole, em ”O Poeta em Nova York”, publicado postumamente em 1940. Foi assassinado aos 38 anos pelos franquistas no início da Guerra Civil Espanhola.”Obra Poética”, trad. de William Agel de Mello, Martins Fontes.

7º Elegias de Duíno (Duineser Elegien), de Rainer Maria Rilke (1875-1926) – Nascido em Praga, levou uma vida aristocrática, patrocinado pela nobreza européia. As ”Elegias de Duíno” emprestam seu nome do castelo próximo a Trieste onde começaram a ser compostas nos anos de 1910-1912. Só foram concluídas mais de dez anos depois.”Elegias de Duíno”, trad. de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

 8º À Espera dos Bárbaros, de Konstantinos Kaváfis (1863-1933) – O mais importante poeta grego deste século nasceu em Alexandria, no Egito, e morou na Inglaterra. Em “A Espera dos Bárbaros”, poema ao mesmo tempo político e ontológico, aparece a duração de um espaço em que nada se faz porque os bárbaros atacarão.”Poemas”, trad. de José Paulo Paes, Nova Fronteira. (Poema postado no comentário de nº 06 desta página)

 9º Zona (Zone), de Guillaume Apollinaire (1880-1918) – Poeta francês e patriota, apesar de nascido em Roma, teve uma biografia acidentada, que inclui participação voluntária como soldado na Primeira Guerra. Em “Zona” (1913), Apollinaire elimina a pontuação e cria um ritmo nervoso; abole o que faz um canto de louvor à modernidade.”Alcools”, Gallimard, 34 francos.

10º Mensagem, de Fernando Pessoa (1888-1935) – Pessoa ele mesmo nasceu em Lisboa e passou seus anos de formação na África do Sul. Dos vários livros projetados e até efetivamente escritos por ele, ”Mensagem” (1934) foi o único publicado em vida.”Obra Poética”, Nova Aguilar. ”Mensagem”, Companhia das Letras.

11º A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (The Love Song of J. Alfred Prufrock), de T.S Eliot (1888-1965) – Publicado pela primeira vez em 1915 numa revista literária de Chicago, abriria o primeiro livro de Eliot, de 1917.”Poesia”, trad. De Ivan Junqueira, Nova Fronteira.

12º Quatro Quartetos, de T.S. Eliot – “Poesia”, trad. de Ivan Junqueira, Nova Fronteira.

 13º Cantos, de Ezra Pound – “Cantos&ampp;p;ammp;quuot;, trad. de José Lino Grünewald, Nova Fronteira .

14º Em Meu Ofício ou Arte Taciturna, de Dylan Thomas (1914-1955) – Nasceu no País de Gales, trabalhou como repórter. Sua poesia, às vezes de tom religioso, revisita temas como a infância e a morte. “Poemas Reunidos” (1934-1953), trad. de Ivan Junqueira, José Olympio.

15º O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) – Quando escreveu este poema, no final da década de 40, Cabral julgou que seria o último. O fluxo das memórias e o do rio Capibaribe se fundem nele para fazer um retrato tenso e novo do Recife. – “O Cão sem Plumas”, Nova Fronteira.

 16º Quarta-Feira de Cinzas de T.S.Eliot, “Poesia”, trad. de Ivan Junqueira, Nova Fronteira.

17º Noite Insular, Jardins Invisíveis, de Lezama Lima (1910-1976) – Poeta cubano, fundador da revista “Verbum”, em 1937. Em 1959, foi nomeado por Fidel Castro diretor do departamento de literatura e publicações do Conselho Nacional de Cultura. E autor do romance ”Paradiso” (1966), lançado no Brasil em 1987. Publicou também os livros de poemas “Morte de Narciso” (1937) e “Inimigo Rumor” (1941).”Poesia Completa”, Alianza Editorial, 3.562 pesetas (Espanha).

18º Campo de Flores, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Desde sua estréia, em 1930, com “Alguma Poesia”, Drummond se tornou poeta central para a literatura brasileira. Fechando a segunda seção de “Claro Enigma” (1951), “Campo de Flores” fala do tema do amor na maturidade. – “Claro Enigma”, Record.

19º – Blanco, de Octavio Paz (1914-1998) -Prêmio Nobel de 1990, o mexicano Octavio Paz é o único poeta que tem a mesma dimensão internacional dos ficcionistas latino-americanos. Como poeta, publicou ”Pedra de sol”, que, entre outros temas, revisita sua participação na Guerra Civil Espanhola e a experiência poética múltipla deste ”Blanco”. – ”Transblanco”, trad. de Haroldo de Campos, Siciliano.

20º Leda e o Cisne, de William Butler Yeats – ”Poemas”, trad. de Paulo Vizioli, Companhia das Letras.

21º Jubileu, de Vladímir Maiakóvski (1893-11111930) – Nascido na Geórgia, Maiakóvski foi um entusiasta da Revolução Russa, enfrentando o desafio de escrever uma poesia engajada e ao mesmo tempo inovadora e pessoal por meio da ”linguagem da rua”. Suicidou-se seis anos após escrever ”Jubileu”. – ”Maiakóvski”, trad. de Haroldo de Campos, Perspectiva.

22º Orfeu. Eurídice. Hermes, de Rainer Maria Rilke – ”Rilke: Poesia-Coisa”, trad. de Augusto de Campos, Imago.

23º Esboço de uma Serpente, de Paul Valéry — “Poésies”, Gallimard, 34 francos (França).

24º Manhã, de Giuseppe Ungaretti (1888-19700000) – Na juventude lutou na Primeira Guerra. viveu no Brasil entre 1937 e 1942, tendo sido professor da USP. Obra-prima na captação de um momento num poeta que deseja uma poesia reduzida ao mínimo de palavras, eis todo o poema ”Manhã”, na tradução de Haroldo de Campos: ”Deslumbro-me/ de imenso”. Publicou, entre outros, ”Sentimento do Tempo” (1930), e ”A Dor” (1947).- ”Vita d’ un Uomo – Tutte le Poesie”, Mondadori, 24.00000 liras (Itália).

 25º Os Doze, de Aleksandr Blok (1880-1921) — Filho de intelectuais, Blok é considerado o grande poeta simbolista russo. A partir da fracassada revolução de 1905, sua poesia ganhou um realismo que se vê em ”Os Doze” (1918) e que descreve a marcha de 12 soldados sobre a cidade. – ”Poesia Russa Moderna”, trad. de Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos.

26º O Fogo de Cada Dia, de Octavio Paz (1914-1998) – ”Obra Poética (1935-1988)”, Seix Barral, 3.800 pesetas (Espanha).

27º Sutra do Girassol, de Allen Ginsberg (11111926-1997) – Neste poema, Ginsberg fala de si ao laadoo de seu companheiro de geração ”beatnik”, Jack Kerouac (1922-1969). Sua linguagem torrencial, cheia de referências pessoais, da conta do que é típico em Ginsberg, que criou celeuma já com seu livro de estréia, ”Uivo e Outros Poemas” (1956), cujo poema-titulo chegou a ser proibido por obscenidade. – “Uivo, Kaddish e Outros Poemas”, trad. de Cláudio Willer, L&PM.

28º Romanceiro Gitano, de Federico García Lorca – “Obra Poética Completa”, trad. de WiIliam Agel de Mello.

29º Poema do Fim, de Marina Tzvietáieva (1892-1941) – Nome central da moderna poesia russa e européia, colocou-se em sua poesia contra a Revolução Russa e, mais tarde, contra o fascismo. Ao ver o marido ser fuzilado e a filha mandada para um campo de concentração, suicidou-se. – Poemas da autora saíram em ”Poesia Sempre” n. 7, em trad. de Augusto e Haroldo de Campos (Fundação Biblioteca Nacional, fax 0/xx/2l/220-4173).

 30º Ode Marítima, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa – ”Ficções do Interlúdio”, Companhia das Letras; ”Obra Poética”, Nova Aguilar.

31º A Pantera, de Rainer Maria Rilke – ”Rilke: Poesia-Coisa”, trad. de Augusto de Campos, Imago.

32º As Jovens Parcas, de Paul Valéry – ”Linguaviagem”, trad. de Augusto de Campos, Cia. das Letras.

33º A Torre, de William Butler Yeats – ”The Tower”, Pengum, 3,99 libras (Reino Unido). Uma tradução de Augusto de Campos para o poema foi publicada no Mais! em 14/6/98.

34º Xenia, de Eugenio Montale (1896-1981) – Ganhador do Nobel de 1975, o poeta italiano desejou ser cantor lírico, mas foi impedido pela Primeira Guerra. Sua poesia às vezes se aproxima da prosa, tal o uso que faz de elementos não-poéticos. – ”Poesias”, trad. De Geraldo Holanda Cavalcanti, Record.

35º A Segunda Vinda, de William Butler Yeats – “Poemas”, trad. de Paulo Vizioli, Companhia das Letras.

 36º A Enguia, de Eugenio Montale (1896-19811111) – “Poesias”, trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti, Record.

37 De Todas as Obras, de Bertolt Brecht (11111898-1956) – O principal interesse do escritor alemmão foi o teatro, que revolucionou, mas escreveu poesia por toda a vida. – “Poemas – 1913-1956″, trad. de Paulo César Souza, Brasiliense.

38º Cortejo, de Guillaume Apollinaire “Oeuvres Poétiques Complétes”, Gallimard, 290 francos (França).

39º Stretto, de Paul Cela (1920-1970) -Poeta romeno de expressão alemã, Celan chegou a ser preso num campo de concentração. Suicidou-se em Paris. – “Cristal”, trad. de Claudia Cavalcanti, Iluminuras.

 40º brIlha, de e.e. cummings (1894-1962) – OOO lado mais conhecido de sua poesia está nos poemas em que trabalha com a tipografia, decompondo as palavras e introduzindo uma série de sinais, em especial parênteses. – “Poem(a)s”, trad. de Augusto de Campos, Francisco Alves.

41º Trilce, de Cesar Vallejo (1892-1938) – OOO peruano Vallejo teve a marca simbolista típica de sua geração na juventude. Posteriormente, notabilizou-se por sua poesia de cunho social, mas jamais abriu mão do impulso experimental, visível neste “Trilce” (1922). – “Trilce”, Cátedra, 1.142 pesetas (Espanha).

42º Altazor, de Vicente Huidobro (1893-19477777) – Chileno, Huidobro viveu em Paris e Madri. “Altazor” é um longo poema em que se mostra bem, em invenções vocabulares e livres associações, o caráter experimental de sua poesia. – ”Altazor e Outros Poemas”, trad. De Antônio Risério e Paulo César de Souza, ArtEditora.

43º Fragmento, de Miklos Radnoti (1909-1944) – Em seu país, a Hungria, Radnoti é um mártir do Holocausto, já que foi fuzilado pelos nazistas. – Pode ser encontrado em inglês, em ”Foamy Sky – The Major Poems of Miklos Radnoti”, trad. de Frederick Turner e Zsuzsanna Ozsvath, Books on Demand.

44º Dói Demais, de Attila József (1905-19377777) – Húngaro, foi membro do então ilegal Partido Comunista e disse sobre si mesmo ser o poeta do proletariado. Fez de sua mãe, uma lavadeira, símbolo da classe trabalhadora. – Pode ser encontrado em inglês, em ”Winter Night”, trad. de John Batki, Oberlin College Press.

 45º No Túmulo de Christian Rosencreutz, de Fernando Pessoa – ”Obra Poética”, Nova Aguilar.

46º Ode Inacabada à Lama, de Francis Ponge (1899-1988) – Poeta francês que buscou afastar a poesia do eu, aproximando-a dos objetos. O mais conhecido de seus livros é ”O Parti-Pris das Coisas” (1942). – ”Oeuvres Complétes”, Gallimard, 390 francos (França).

 47º O Torso Arcaico de Apoio, de Rainer Maria Rilke – Não há tradução brasileira disponível. (Poema postado no comentário de nº10, por Tejo (tradução de Manuel Bandeira)

48º Os Passos Longínquos, de César Vallejo (1892-1938) – ”Obra Poética Completa”, Alianza, 2.010 pesetas (Espanha).

49º El Hombre, de William Carlos Williams (1883-1963) – O poeta norte-americano foi escritor político, autor de peças, contos e romances, além de poemas. ”Poemas”, trad. de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

50º Meus Versos São de Chumbo, de Jaroslav Seifert (1901-1986) – Foi o primeiro autor tcheco a ganhar, em 1984, o Prêmio Nobel. Há outros poemas do autor na antalogia ”Céu Vazio”, trad. De Alksandar Jovanovic, Hucitec.

 51º A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade – ”Claro Enigma”, Record.

52º A Ponte, de Hart Crane (1899-1932) – Escrito em 1930, este poema longo em 15 partes é a tentativa de fazer um épico moderno que celebrasse o poder humano de reunir passado e presente. – ”Complete Poems of Hart Crane”, W.W. Norton.

53º Dia de Outono, de R. M. Rilke – ”Poemas”, trad. José Paulo Paes, Companhia das Letras.

54º Treze Maneiras de Olhar para um Melro, de Wallace Stevens (1879-1955) – Um dos mais importantes poetas norte-americanos, sua poesia é numas vezes discursiva, noutras bem concisa. – ”Poemas”, trad. de Paulo Henriques Brito, Companhia das Letras.

55º Domingo de Manhã, de Wallace Stevens – “Poemas”, Companhia das Letras.

56º Sonetos a Orfeu, de R. M. Rilke “Poemas” – Companhia das Letras.

57º Vigília, de Giuseppe Ungaretti – Em “Poesia Alheia”, trad. Nelson Ascher, Imago.

58º Perfil Grego, de Iannis Ritsos (1909-1999990) – Comunista, o poeta grego foi preso pelos nazistas; depois, sua militância política lhe custaria o exílio. Há outros poemas do autor em “Gaveta do Tradutor”, trad. de José Paulo Paes, Letras Contemporâneas.

59º Poema dos Dons, de Jorge Luis Borges (11111899-1986) – O grande autor do “boom” lattinno-americano, o argentino é muito mais lembrado por seus contos do que por sua refinada poesia. – “Obras Completas”, vol. 2, trad. de Josely Vianna Baptista, Globo.

60º O Guardador de Rebanhos, de AIberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa – Segundo Pessoa, Caeiro nasceu em 1889 e era um homem inculto que sempre viveu numa aldeia. E reconhecido como o mestre dos outros heterônimos e do próprio Pessoa. – ”Ficções do Interlúdio”, Companhia das Letras.

61º Nalgum lugar em que nunca estive, de e…..e. cummings (1894-1962) – ”Poem(a)s”, trad. de Augusto de Campos, Francisco Alves.

62º Omeros, de Derek Walcott (1930) – Poeta caribenho de expressão inglesa, ganhador do Nobel em 1992, procura criar uma arte que dê conta da fusão cultural de sua região. – ”Omeros”, trad. de Paulo Vizioli, Companhia das Letras.

63º Degraus, de Hermann Hesse (1877-1962) Autor do romance ”Lobo da Estepe” (1927), como poeta não dispensou um certo sentimentalismo ao explorar temas como a infância, a solidão. Ganhou o Nobel em 1946. – ”Gesammelte Werke”, Suhrkamp, 148 marcos (Alemanha).

64º A Serguei Iessiênin de Vládimir Maiakóvski (1893-1930) – ‘Poemas”, Perspectiva.

65º O Duro Cerne da Beleza, de WiIliam Carlos Williams – “Poemas”, trad. José Paulo Paes, Companhia das Letras.

66º – Sestina: Altaforte, de Ezra Pound “Poesia”, Hucitec.

67º – Argumentum et Silentio, de Celan “Gesammelte Werke – Gedichte”, Suhrkamp, 49,80 marcos (Alemanha).

68º- Encantação pelo Riso, de Vielimir Klebnikov (1885-1922) – Poeta russo considerado o líder do cubo-futurismo. – “Poesia Russa Modema”, Brasiliense.

69 Anabase, de Saint-John Perse (l887-1975) – Pseudônimo do diplomata francês Alexis Léger. Teve sua nacionalidade cassada na Segunda Guerra quando foi viver nos EUA. Só regressou a seu país em 1957. Ganhou o Nobel em 1960. ”Éloges”, Gallimard.

70º Voz a Ti Devida, de Pedro Salinas (1892-1951) – O poeta espanhol notabilizou-se com seus poemas de amor. – ”Voz a Ti Debida”, Losada, 617 pesetas.

71º Réquiem, de Ana Akhmátova (1888-1966) Fundadora do acmeísmo, corrente que se situa entre o simbolismo e o futurismo, a poeta russa foi considerada decadente durante a época do ”realismo socialista”. Sua poesia refinada e melancólica, mostra-se inteira em ”Réquiem”, um conjunto de pequenos poemas escritos entre 1925 e 1930. – ”Réquiem e Outros Poemas”, Art Editora.

72º As Janelas, de Apollinaire – ”Oeuvres Poétiques Complètes” (Gallimard).

73º A Ponte Mirabeau, de Guillaume Apollinaire – “Oeuvres Poétiques Complètes”.

74º Oxford, de W.H. Auden (1907-1973) – O poeta britânico compartilhou com T.S. Eliot o pessimismo sobre o presente, mas não celebrou o passado: sendo homem da esquerda, viu o futuro com os olhos da utopia. Tematizou o amor homossexual e a religião. – ”Poemas”, trad. de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

75º Em Memória de Yeats, de W.H. Auden – ”Poemas”, Companhia das Letras.

76º Briggflatts, de Basil Bunting (1900-1985) – E o poeta inglês mais conhecido nos Estados Unidos. Só se projetou em seu país aos 66 anos, com ”Briggflatts”, poema autobiográfico em que procurou explorar os aspectos linguísticos e antropológicos de sua região natal. – ”The Complete Poems”, Oxford University Press, 11,99 libras (Reino Unido).

77º No Centenário de Mondrian, de João Cabral de Melo Neto – ”Obra Poética”, Nova Aguillar.

78º Serpente, de D.H. Lawrence (1885-1930) — O ficcionista, crítico e poeta inglês ficou conhecido por romances como – ”Filhos e Amantes” (1913) e ”O Amante Lady Chatterley” (1928), processado como pornográfico. A divulgação de sua melhor poesia se fez postumamente. – ”The Complete Poems”, Penguim.

79º Áporo, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – ”A Rosa do Povo”, Record.

80º Dizer Tudo, de Paul Éluard (1895-1952) — Na adolescência, o francês Éluard teve tuberculose e foi companheiro de tratamento e de leitura de poesia do brasileiro Manuel Bandeira num sanatório na Suíça. Foi um dos grandes mestres do surrealismo. – ”Oeuvres Complètes 1913-1953″ (2 vols.), Gallimard, 700 francos (França).

81º Liberdade, de Paul Éluard (1895-1952) – Em ”Gaveta do Tradutor”, trad. de José Paulo Paes, Ed. Letras Contemporâneas.

82º Morte sem Fim, de José Gorostiza (1901-1973) – O poeta mexicano preferiu, de maneira geral, o poema curto, mas este ”Morte sem Fim” (1931) é um texto longo em que reaparecem as grandes essências que ele mesmo definiu como suas prediletas amor, morte, Deus. – ”Poesia Completa”, Fondo de Cultura Economica, 2.284 pesetas (Espanha).

83º Romance Sonâmbulo, de Federico García Lorca – ”Obra Poética Completa”, Martins Fontes.

84º Pedra de Sol, de Octavio Paz – ”Pedra de Sol”, Guanabara

85º Autopsicografia de Fernando. Pessoa – ”Obra Poética”, Nova Aguilar.

86º Os Cisnes Selvagens de Coole, de William Butler Yeats – ”Poemas”, Companhia das Letras.

87º Canção do Mal-Amado, de Guillaume Apolinaire – ”Oeuvres Poétiques Complètes” (Gallimard).

88º Sobre a Poesia Moderna, Wallace Stevens – ”Poemas”, Companhia das Letras.

89º Sobre o Pobre BB, de Bertold Bretcht – Em ”Poesia Alheia”, trad. De Nelson Ascher, Imago.

90º Tristia, de Óssip Mandeistam (1891-1938) – Nasceu em Varsóvia e, muito jovem, esteve em Paris, aproximando-se do simbolismo francês. Mais tarde, tornou-se participante de destaque do acmeísmo.Há outro poema do autor na revista ”Poesia Sempre” nº 7, abril/99, trad. de Haroldo de Campos (Fundação Biblioteca Nacional, fax 0/xx/211220-4173).

91º Miniatura Medieval, de Wislawa Szymbosrka (1923) – A escritora polonesa ganhou o Prêmio Nobbel de 1996. Estreou em 1952 com ”Por Isso Vivemos” e pertence a uma rica geração de artistas poloneses, entre os quais se inclui o cineasta Andrzej Wajda. – Há outros poema do autora em ”Poesia Alheia” (Imago) e na antologia ”Céu Vazio” (Hucitec).

92º Fuga sobre a Morte, de Paul Celan ”Cristal”, trad. de Claudia Cavalcanti, Iluminuras.

93º Ode ao Rei do Harlem, de Federico García Lorca – ”Obra Poética Completa”. M. Fontes.

94º Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro (18999990-1916) – Apesar de ter se suicidado com apenas 26 anos, pôde escrever o suficiente para ser o principal autor português do início do século, ao lado de Fernando Pessoa.”Poesia”, Iluminuras. – “Obra Poética”, Nova Aguilar.

 95º Os Peixes, de Marianne Moore (1887-1972) – Norte-Americana, foi professora universitária. Virtuose da versificação, trabalhou com a decomposição dos versos e da sintaxe. – “Poemas”, trad. de José Antonio Arantes, Companhia das Letras.

 96º Provérbios e Cantares, de Antonio Machado (1876-1939) – Nascido em Sevilha, passou seus anos de formação em Madri. A extrema simplicidade formal da poesia de Machado esconde, porém, uma grande complexidade. – “Poesias Completas”, Espasa Calpe, 1.005 pesetas (Fspanha).

 97º As Ratazanas, de Georg Traki (1887-1914) – O austríaco foi um expressionista que enlouqueceu com os horrores da Primeira Guerra, na qual serviu como enfermeiro. – “Poemas à Noite”, trad. de Marco Lucchesi, Topbooks.

 98º A Outra Tradição, de Josh Ashberry (1927) – Poeta americano que pertenceu à chamada Escola de Nova York. Sua poesia é auto-referencial e expressa uma visão de mundo cética, mas que não perde o humor.Há outro poema do autor em ”Poesia Alheia”, trad. de Nelson Ascher, Imago.

 99º Acalanto, de Elizaheth Bishop (1911-1979) – A escritora norte-americana viveu no Brasil em Ouro Preto e no Rio de Janeiro por 16 anos. Além de poesia, escreveu contos, memórias e tem uma rica obra em cartas.”Poemas”, trad. de Horácio Costa, Companhia das Letras.

 100º Homem e Mulher Passam pelo Pavilhão de cancerosos, de Gottfried Benn (1886-1956) – A poesia inicial deste autor alemão é expressionista. Sua poesia madura, como a reunida no volume “Poemas Estáticos” (1948), é hermética e niilista. – Em ”Poesia Alheia”, Imago.

 Folha de São Paulo, 02/01/2000

Jindrich Streit n. 1

02/12/2011

fotografia: jindrich streit

esteio

02/12/2011

os que

partem

(hora ou outra)

mostram

(cedo ou tarde)

quão

solitários

somos

partida: poema de rudinei borges

foto: jindrich streit

Escombros 1

02/12/2011

Agruras n.1

02/12/2011

1.

O dramaturgo precisa mover o corpo para as trincheiras, precisa tecer itinerários para os extremos. Adentrar o pântano. Mergulhado em suor, deve desvendar rostos sufocados na penumbra.

2.

O material da minha arte é o fracasso. Quando escrevo sobre agonia e solidão não é uma afirmação pessoal. Trata-se do desejo que adentrar o antro humano, de desvendar as agruras.

3.

Hora ou outra tomamos consciência que somos, sobretudo, solitários. Que a solidão é inerente ao ser humano.

4.

O poeta-dramaturgo desvenda raios e memórias. Desvenda rostos.

Stand-up e escritores

02/12/2011

O universo literário nos últimos anos no Brasil resume-se ao Stand-up dos escritores. As feiras, congressos, oficinas e debates literários estão lotados de escritores espetaculosos, falastrões e engraçadinhos. Vendem o bem estar para que os seus livros também vendam. A figura do escritor, neste caso, ficou maior que a sua obra. Aliás, o escritor não precisa mais escrever. O artista não precisa mais criar. Só aparecer. Basta a ação performática em público. O Stand-up contínuo. O Brasil e o mundo precisam de escritores que escrevam de verdade. E não do SHOW DO EU que assolou a literatura atual.

d)

24/11/2011

mor(te)
mor(daça)
mor(rer)
mor(ar)
maré

(Rudinei Borges)

c)

24/11/2011

não temo(s) a morte
não temo(s) o tempo
não temo(s)

(Rudinei Borges)

b)

24/11/2011

ad-
vogo
a vertigem/
lodo

(Rudinei Borges)

a)

24/11/2011

re-
ceio
a seiva/
cio

(Rudinei Borges)

Lumiar

22/11/2011

Anda, vem jantar,
Vem comer, vem beber, farrear
Até chegar Lumiar
E depois deitar no sereno
Só pra poder dormir e sonhar
Pra passar a noite
Caçando sapo, contando caso
De como deve ser Lumiar

Acordar, Lumiar, sem chorar,
Sem falar, sem quer
Acordar em lumiar
Levantar e fazer café
Só pra sair caçar e pescar
E passar o dia
Moendo cana, caçando lua
Clarear de vez Lumiar

Amor, Lumiar,
Pra viver, pra gostar,
Pra chover, pra tratar de vadiar
Descansar os olhos, olhar e ver e respirar
Só pra não ver o tempo passar
Pra passar o tempo
Até chover, até lembrar
De como deve ser Lumiar

Anda, vem cantar,
Vem dormir, vem sonhar, pra viver
Até chegar em Lumiar

Estender o sol na varanda até queimar
Só pra não ter mais nada a perder
Pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar
Clarear de vez Lumiar

lumiar: beto guedes e lô borges

Manifesto Antro-pófago

21/11/2011

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

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Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismo (sic). De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

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Tupi, or not tupi that is the question.

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Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

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Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

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Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

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O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

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Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos turistas. No país da cobra grande.

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Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

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Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade prelógica para o Sr. Levi Bruhl estudar.

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Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

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Filiação. O contacto com o Brasil Caraíba. Oú Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, á Revolução Bolchevista, á Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

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Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

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Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

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Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

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O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

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Só podemos atender ao mundo orecular.

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Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

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Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O individuo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

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Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

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O instinto Caraíba.

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Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte doeu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

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Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

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Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas operas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

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Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipejú. [1]

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A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxilio de algumas formas gramaticais.

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Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o
Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?.

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Contra as historias do homem, que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

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A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

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Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

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Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É a mentira muitas vezes repetida.

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Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

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Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

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Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social planetário.

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As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios, e o tédio especulativo.

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De William James a Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

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O páter-famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a pro-curiosa [sic].[2]

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É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar a idéa de Deus. Mas o caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

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O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

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Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

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Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

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A alegria é a prova dos nove.

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No matriarcado de Pindorama.

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Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

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Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças publicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

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Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

________________

A alegria é a prova dos nove.

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A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados do catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

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Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

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A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

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Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciarias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE.
Em Piratininga.
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. [3]

In: Revista de Antropofagia, São Paulo, 1 (1), maio de 1928.


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Notas:

[1] “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim.” In: O selvagem, de Couto de Magalhães.
[2] Provavelmente um erro de impressão. Talvez deva-se ler “prole curiosa”.
[3] O Bispo Pero Sardinha foi devorado pelos caetés em 1556.

Noite de alegria

20/11/2011

Noite de alegria. Nem consigo acreditar. Recebi, neste sábado, o prêmio de Melhor Ator no 1° Festival de Cenas Extraordinárias do Brasil (Festex) organizado pelo Teatro Real  de São Caetano do Sul, São Paulo. E ainda tive a alegria de encontrar os atores da Cia. Asfalto de Poesia que receberam o prêmio de Melhor Cena e Melhor atriz. O meu experimento cênico foi uma anti-invenção do livro Chão de Terra Batida. Sem texto, só pretextos, vivi o desafio de criar  a dramaturgia apenas com o material que vinha da memória.