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Dizer adeus

05/07/2012

Esta provavelmente é a minha última publicação nesta página, companheira de tantas horas, gaveta aberta onde desvelei esboços de versos, fragmentos, textos e imagens tantas que moveram a minha pesquisa literária e teatral. Recebi muitas visitas. Agora o tempo é de muita escrita. Estou providenciando outro espaço dedicado ao teatro e à literatura. Depois retornarei aqui para dizer a todos o endereço de minha nova tenda, nova morada.

Utopia e luta a todos.

Rudinei Borges

19/03/2012

de manhã o meu suspiro se depara com as rotas do meu coração e disparo a voz do meu crime

Rudinei Borges (30 de maio 2011 – esboço)

19/03/2012

tenho ficado sozinho
com meus pastores de vento
deixado rastros de pássaros
voado à noite às vezes
perdido tempo com espinhos roseiras
pedido aos meus fantasmas que me deixem em paz
tenho amado uma estátua de vidro com olhos vendados
chorado à tarde pela manhã
tenho vivido quase sempre como um despatriado
caminhando pelas beiradas duma alameda sem nome
quase sempre diante de satã
quase sempre longe de deus

(Rudinei Borges)

Carta a um amigo

21/02/2012

São Paulo, 31 de janeiro 2012.

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Meu caro,
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Estou em dívida com você. Em especial sobre as questões levantadas em outro e-mail. Saiba que é sempre uma alegria conversar com você. Neste últimos encontros eu estava realmente muito cansado e ao mesmo tempo muito alegre com o projeto teatral que estamos desenvolvendo na Trupe Sinhá Zózima. Sobre minha reflexão sobre o projeto, não se trata de otimismo ou pessimismo. Aliás, isto é uma grande bobagem. Nietzsche, no século XIX, já criticava esta lacuna entre bem e mal. Conceitos comuns em nossa cultura judaico-cristã. Claro que escrevo isto para provocá-lo. Porém, para ser franco não suporto qualquer coisa que pareça auto-ajuda. Mas não sou tão bravo assim, rapaz.
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Fiquei feliz ao ouvir as suas ideias sobre uma possível exposição de artes visuais. Por isso mesmo tenho algumas indicações para você. Suas ideias estão em consonância com muitos artistas e vão além da fotografia. Creio que você deve pesquisar dois termos:
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a) Performance;
b) Arte Multimídia.
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Penso também que devemos ir à Bienal de Artes este ano. Não lembro em que mês ocorrerá. Também indico outros materiais, a partir do conceito que você comentou, aliás do que lhe interessa na fotografia: “captar o que o olho humano não capta”.
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a) O livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e o filme do nosso querido cineasta, Fernando Meireles. O filme tem o mesmo nome do livro.
b) O belo documentário “Janela da alma” de João Jardim e Walter Carvalho.
c) O filme argentino, “O segredo de seus olhos”.
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Se quiser realmente ficar louco, comece a estudar semiótica que apresenta conceitos imprescindíveis para quem deseja ser um fotógrafo de verdade. Indico fotógrafos que gosto muito:
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a) Luiz Braga, fotógrafo paraense;
b) Sebastião Salgado;
c) Henri Cartier-Bresson;
e) Jindrich Streit;
f) August Sander;
g) Diane Arbus.
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Um fotógrafo é, sobretudo, um artista. E um artista é, sobretudo, um
pesquisador. Portanto, nunca haverá verdadeiro fotógrafo que não seja um investigador inquieto. Indico também cineastas inquietos:
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a) Ingmar Bergman – este é o maior de todos, um gênio – veja o filme “Persona” e “O Sétimo Selo”;
b) Felinni – grande mestre – veja o filme: “Oito e meio”;
c) Pasolini – veja o filme: “Teorema”;
d) Kurussaua – veja o filme: “Os sonhos”.
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No Brasil, conheça Glauber Rocha. E se puder, esqueça os filmes americanos. São quase todos catastróficos, fracos e previsíveis. Mais do mesmo, sempre. E disseminam esta ideologia boba: “você tem que ser vitorioso”. Todos os filmes americanos se resumem nesta frase. É um mistura de culto ao capitalismo e ao pior da Teologia da Prosperidade. Parece-me que Calvino está mais vivo do que nunca. Filmes e desenhos americanos concernem no lixo do lixo da cultura. Salvam-se Orson Welles, Wood Allen e Scorcese. Geralmente filmes que ganham o Oscar são catastróficos. E para terminar de chutar o balde: você só será um verdadeiro leitor quando deixar de ler livros que estão na lista dos mais vendidos. Geralmente é literatura de quinta categoria. Coisa que não vale um centavo.
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Cara, na verdade precisamos deixar de consumir o lixo da indústria cultural (Theodor Adorno escreveu muito sobre isso). Precisamos conhecer arte e literatura de verdade.
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Penso que você deva começar a estudar e produzir boa fotografia.
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Grande abraço, meu caro.
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Utopia e luta, sempre!
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Rudinei Borges

Entrevista ao Arteletra Literatura

07/02/2012

Compartilho com todos a entrevista que concedi ao programa Arteletra Literatura. Também participa o poeta Felipe Stefani.

Raio

03/02/2012

Crônica de ano novo

03/01/2012

Por Rudinei Borges

Faz tempo não lembro mais nada. Só o sol azul sobre a parede do escombro misturando-se aos pigmentos de lodo. E uma mulher na janela do sobrado. Toda noite ela diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão. Faz tempo não me lembro de Deus. Na passagem de ano talvez. Um homem velho, à meia noite, acendeu a lareira e desenhou com as mãos cruzes miúdas sobre a testa, os olhos, a boca e o coração. Aquele homem velho fez-me lembrar de Deus.

Mas despois a imagem do fogo corroendo o eucalipto dentro da lareira perdeu-se. Só recordei-me agora e é provável que mais tarde esta mesma imagem se perca entre outras imagens-várias que nunca mais vi: um ciclone, um trem que vai de São João Del Rei para Tiradentes, um acidente de carro, o rosto de Lenin apavorado numa pintura no centro de São Paulo, uma mala pequena que veio da Ilha da Madeira na bagagem de duas portuguesas em 1970, a marcenaria onde comprávamos piões, um ventilador que rosnava à noite, uma carta que nunca enviei, um cavaleiro que jogava xadrez com a morte num filme de Ingmar Bergman, o aeroporto de Itaituba e a última ópera que assisti no teatro municipal. Ou outras lembranças consideradas importantes que desapareceram da minha memória: os olhos do meu pai, a voz do meu pai, o corpo do meu pai, o meu próprio pai. A primeira vez que beijei, a primeira vez que transei, a primeira vez que fui ao cinema, a primeira vez que vi o mar. A primeira vez que viajei para fora do Brasil (eu nunca viajei para fora do Brasil). E outras imagens que não consigo nomeá-las nem lembrá-las. Imagens que nunca existiram, nem existirão. Fantasmas de um tempo que não foi. Ou invenção da minha cabeça.

O fato é: foi na passagem de ano que me lembrei de Deus. E sei que os anos findam e começam. Amontoamo-nos em salas, ruas, igrejas e bares. E celebramos o ano que inicia, despedimo-nos do ano que termina. Porém, não sei por quais razões, não me recordo das passagens dos anos. O que fiz. Onde estava. Pouco importa. Não lembro.

Recordo-me que uma vez chegando a meia noite descobri que cupins alojaram-se em bando nos meus livros antigos e, na mesma hora, tratei de me livrar deles. Assim, de um ano para o outro, a última e a primeira coisa que fiz foi matar cupins. E, desde então, creio, tenho matado cupins.

E Deus? Sei pouco sobre o senhor dos auspícios. O que faz. Onde está. Não sei. Sei apenas que todos os dias, às dez horas da manhã, quando não há chuva, o sol mistura-se aos pigmentos de lodo na parede do escombro e permanece azul quase o tempo todo. E uma mulher na janela do sobrado toda noite diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão.