The Velvet Underground
The Velvet Underground foi uma banda de Art rock norte-americana, formada em 1964 por Lou Reed (voz e guitarra), Sterling Morrison (guitarra), John Cale (baixo), Doug Yule (que substituiu Cale em 1968), Nico (voz), Angus MacAlise (bateria) e Maureen Tucker (que substituiu Angus MacAlise)
Os Velvet Underground foram uma banda de vanguarda na década de 60, caracterizados por um estilo experimental, pouco comercial para a época. A banda tinha como mentor intelectual (e, mais importante, financiador) o artista plástico estadunidense Andy Warhol, que se dizia cansado da pintura e promovia incursões por outros campos artísticos como a música e o cinema. Apesar das suas grandes músicas, a banda não fez sucesso enquanto esteve ativa, seus álbums não vendiam muito e sempre haviam conflitos internos. A inclusão de Nico no VU foi imposta por Andy Warhol, mas ocorreu rejeição e conflito por parte da banda. Como uma forma de objeção, o nome do grupo no primeiro álbum foi “The Velvet Underground & Nico”, excluindo-a, de certa forma, da banda. Logo após o lançamento do álbum “White Light/White Heat” Andy Warhol foi despedido e Nico foi retirada da banda.
O primeiro disco, The Velvet Underground and Nico (1967), notabilizou-se por uma banana na capa (feita por Andy Warhol), e também pelas composições completamente vanguardistas para os padrões da época, tratando de temas como drogas (“I’m Waiting For The Man”), sadomasoquismo (“Venus In Furs”), prostitutas (“There She Goes Again”), e até ocultismo (“The Black Angel’s Death Song”). As vendas do LP, no entanto, foram pífias, mas existe uma lenda na qual quem o comprou montou uma banda após ouvi-lo – por exemplo, artistas como Iggy Pop, David Bowie, Depeche Mode, Joy Division, Sonic Youth, Jesus and Mary Chain, Nirvana e Nine Inch Nails foram influenciados pelo Velvet Underground.
Gravado em poucos dias, “White Light/White Heat” foi lançado no início de 1968. Após esse álbum (que é mais barulhento e tão ousado quanto o seu antecessor, e conta com clássicos como a faixa-título, “Here She Comes Now” e “Sister Ray”), John Cale, responsável pelos experimentalismos musicais, saiu da banda, que passou a ter Lou Reed, de maior apelo artístico e poético, como único líder.
No ano seguinte, veio o 3º álbum, chamado simplesmente de “The Velvet Underground“. Ele expõe um som mais acústico e introspectivo do que os anteriores, e é recheado de ótimas composições como “Candy Says”, “What Goes On”, “Beginning To See The Light”.
O derradeiro trabalho com Lou Reed ainda na banda foi “Loaded“, que conta com três das músicas mais famosas do VU: “Who Loves The Sun”, “Sweet Jane” e “Rock and Roll”. Após a saída do vocalista em 71, a banda ainda continuou na ativa pelos dois anos seguintes e até lançou um LP (“Squeeze”), mas o mesmo sequer é considerado parte de sua discografia oficial.
O ambiente natural de criação e trabalho do VU era a chamada “Factory“, prédio alugado por Warhol e decorado por Billy Name, para reunir seus companheiros exóticos.
Recentemente o Velvet se reuniu para alguns shows, que culminaram num álbum duplo, “Live MCMXCIII”, com as principais músicas da carreira da banda.
O VU sempre foi conhecido pelo som alternativo, desvinculado de interesses comerciais e que focalizava quase sempre temas relacionados ao submundo (narcóticos, prostituição, criminalidade, etc). Demoraram anos para serem reconhecidos pelo grande trabalho, o que só prova o quanto a sonoridade deles estava bem à frente de sua época.
Discografia
- The Velvet Underground and Nico, (1967)
- White Light/White Heat, (1968)
- The Velvet Underground (álbum), (1969)
- Loaded, (1970)
- Live at Max’s Kansas City, (1972)
- Squeeze, (1973)
- 1969: Velvet Underground Live, Vol. 1, (1974)
- 1969: Velvet Underground Live, Vol. 2, (1974)
- 1969: Velvet Underground Live, (1974)
- Live with Lou Reed, (1974)
- The Velvet Underground (Live), (1976)
- VU, (1985)
- Live MCMXCIII, (1993)
The Velvet Underground & Nico é o álbum de estréia da banda de rock norte-americana The Velvet Underground, lançado originalmente no ano de 1967. Este álbum ganhou notoriedade por suas sensibilidades experimentalistas e pelo foco de suas composições ser geralmente material controverso, como na canção Heroin. Embora relativamente um fracasso comercial no lançamento, desde então tem sido considerado um dos álbuns de rock mais influentes e criticamente bem-sucedidos da história, aparecendo em 13º na lista dos “500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos” feita pela revista Rolling Stone.
The Velvet Underground and Nico foi gravado com a primeira formação profissional do Velvet Underground (sendo esta: Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker) junto com Nico, que ocasionalmente ocupava o cargo de vocal principal, graças à insistência do produtor e mentor da banda, o artista pop Andy Warhol. Nico cantou o vocal principal em três faixas (Femme Fatale, All Tomorrow’s Parties e I’ll Be Your Mirror) e o vocal de apoio em Sunday Morning.
O álbum é notável por suas descrições de tópicos como o uso (e abuso) de drogas, prostituição, sadomasoquismo e comportamento sexual alternativo: I’m Waiting for the Man descreve as ações de um homem para obter heroína, enquanto Venus in Furs é quase uma interpretação literal do livro homônimo do século XIX. Run Run Run também tem as drogas como premissa. Uma das canções mais famosas do álbum é Heroin, cuja letra detalha o uso de heroína por um indivíduo e seus efeitos sobre o mesmo.
Lou Reed, que escreveu a maioria das letras do álbum, nunca pretendeu escrever sobre tais assuntos para causar choque. Reed, fã de poetas como William Burroughs e Allen Ginsberg, não via por quê os temas presentes no trabalho dos últimos não poderiam ser adaptados para canções de rock. Embora os assuntos pesados do disco hoje sejam considerados revolucionários, muitas das canções tratam de outros tópicos. Muitas foram escritas como observações de indivíduos da trupe de superstars do movimento Exploding Plastic Inevitable, de Andy Warhol.
A musicalidade do disco foi concebida por John Cale, que estressou as qualidades experimentais da banda. Cale encorajava o uso de métodos alternativos para produzir som na música e acreditava que suas sensibilidades se mesclavam com as de Lou Reed, que, por sua vez, já estava experimentando com afinações alternativas. Por exemplo, Reed criou a afinação “Ostrich” para uma canção que ele compôs, chamada The Ostrich. Tal afinação consiste de todas as cordas da guitarra (ou violão) estarem afinadas na mesma nota. O método foi utilizado nas canções Venus in Furs e All Tomorrow’s Parties. Freqüentemente as canções eram afinadas ainda uma nota a menos, produzindo um som que John Cale achava sexy.
A viola de Cale foi usada em várias canções, notavelmente em Venus in Furs e Heroin. A viola usava cordas de violão e bandolim, e quando tocada em volume elevado, Cale achava que o som se assemelhava ao motor de um avião. Quase sempre, Cale tocava a mesma nota na viola durante a música toda, como em Heroin.
Todas as músicas compostas por Lou Reed, exceto as indicadas de outra forma.
- Sunday Morning (Reed, Cale) (2:56)
- I’m Waiting for the Man (4:39)
- Femme Fatale (2:38)
- Venus in Furs (5:12)
- Run Run Run (4:22)
- All Tomorrow’s Parties (6:00)
- Heroin (7:12)
- There She Goes Again (2:41)
- I’ll Be Your Mirror (2:14)
- The Black Angel’s Death Song (Reed, Cale) (3:11)
- European Son (Reed, Cale, Morrison, Tucker) (7:46)
The Velvet Underground and Nico é geralmente chamado de “álbum da banana”, já que possui o desenho de uma banana feito por Andy Warhol. As cópias iniciais do álbum convidavam o dono a “descascar lentamente e ver” (no inglês, “peel slowly and see”, que viria a ser o nome de uma das coletâneas da banda). Descascando o adesivo, revelar-se-ia uma banana de cor de carne.
No lançamento, o disco foi um fracasso comercial. Os temas controversos levaram-no a ser banido de muitas lojas. Várias rádios se recusavam a tocar as músicas e revistas se recusavam a exibir propagandas para o álbum. Sua falta de sucesso também pode ser atribuída ao estúdio, Verve, que falhou ao promover o álbum com pouca ou nenhuma atenção.
O mundo dos críticos também não notou muito o álbum. Uma das poucas resenhas impressas, na segunda edição da pequena revista de rock Vibrations em 1967, era bastante positiva, descrevendo o som como um “ataque massivo aos ouvidos e ao cérebro” e não deixando de lado os tópicos sombrios presentes na maioria das faixas.
Somente décadas depois o álbum viria a receber louvação unânime pelos críticos, muitos dos quais indicam a influência do disco nas canções de rock modernas.
Frustrado pelo atraso do lançamento em um ano, a relação de Lou Reed com Andy Warhol ficou tensa até que Reed demitiu Warhol do cargo de produtor, substituindo-o por Steve Sesnick. Nico também foi expulsa do grupo, embora ela tenha tido certo sucesso como artista solo, lançando seu álbum de estréia solo, Chelsea Girl em Outubro de 1967. Chelsea Girl inclui cinco canções escritas por membros do Velvet Underground, como Wrap Your Troubles in Dreams, escrita e gravada por Reed em 1965, com a ajuda de John Cale e Sterling Morrison.
- Lou Reed – vocal e guitarra;
- John Cale – viola elétrica, piano, celesta;
- Sterling Morrison – guitarra, contra-baixo elétrico e vocais de apoio;
- Maureen Tucker – percussão;
- Nico – vocal.
Para The Velvet Underground
Para The Velvet Underground
Quando a manhã chegar
Vamos cantar uma canção para o sol.
Toda manhã, toda manhã
Eu vou para os campos
À procura do meu amado
Mas quando o mar arde nos meus olhos
Vou para casa lubridiado.
Um sábio, meu Deus, um sábio
Trouxe para o meu colo
Flores de Teerã.
E eu as plantei no quintal.
Agora os pássaros constroem ninhos
E eles são duradouros.
O mar, meu Deus, o mar
Veio para cá
Com saudades de mim.
Oração perdida
Deus, quero amá-lo, Deus.
Permita-me pedir perdão.
Permita-me a redenção.
Quero tê-lo comigo pelos campos.
Mesmo nas horas mais tristes.
Mesmo quando tocar o sino
E vier a morte numa procissão.
Deus, quero amá-lo, Deus.
Não quero partir.
Vou rezar agora.
Vou dormir agora.
A aurora continuará
Colorindo o céu
Por longos anos.
(07. 02. 10)
[São poemas tediosos que escrevi ouvindo o primeiro disco da banda The Velvet Underground. Grande descoberta]
Museu das falas e andanças
Quando ando pelas ruas e lugares de São Paulo ou quando faço viagens ouço frases, palavras e expressões que adapto para os meus textos. Neste tópico, Museu das falas, vou postar tudo que costumo ouvir e que interessa ao meu trabalho literário.
1. Gosto do céu assim: azuzim-azuzim.
[É a minha frase favorita. Ouvi de uma senhora no ônibus quando viajava para o Pará em dezembro de 2009.]
2. Belezial
[É a expressão de um caminhoneiro. Uma amiga me contou sobre a expressão. Belezial significa um estágio superior à beleza. Ou seja, está tudo muito bem.]
3. A gente tem que lutar com a vida.
[Frase de um pedreiro num domingo ensolarado em Mairinque, interior de São Paulo.]
4. A chuva vai derrubar o mundo todo.
[Ouvi num ônibus em São Paulo em fevereiro de 2010.]
5. Reca
[Significa um grupo com muita gente. Geralmente é usado em Itaituba, no Pará, para se referir aos meninos. "A reca de meninos".]
São Paulo Escola de Teatro
Para a minha alegria nesta segunda-feira, 1 de fevereiro, recebi a notícia que fui um dos 25 aprovados para o Curso de Direção Teatral da São Paulo Escola de Teatro: Centro de Formação das Artes do Palco.
O processo foi longo. Na primeira fase tivemos prova de redação para os candidatos de todos os cursos. Na segunda fase, os candidatos para o Curso de Direção fizeram uma prova específica, a partir da bibliografia indicada, além de apresentarem as suas perspectivas do trabalho como diretor e sobre os caminhos do teatro brasileiro na atualidade. Por fim, uma entrevista que me deixou ansioso, mesmo com a tranquilidade e alegria do diretor Hugo Possolo e do arte-educador Ivan Delmanto.
Aprovados para o Curso de Direção
A lista de aprovados de todos os cursos foi divulgada oficialmente no site oficial da SP Escola de Teatro.
Adalberto Costa
Anderson dos Santos
Antonia Matos
Bernardo Perri
Elizabeth Braz
Felipe Marques
Juliana Caldas
Julio Cezar Souza
Leonardo França
Leonardo de Souza
Luciana Bortoletto
Luciana Ramim
Naloana Costa
Nara Santos
Paula Moreira
Rafael Fabocci
Rafaela Alves
Renato Neves
Rudinei Borges
Sandra Storino
Savina Santos
Thiago Mendonça
Thomas Assoue
Vanessa Sousa
Vanessa Guillen
Sobre a São Paulo Escola de Teatro
A ideia da criação da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, surge em 2005 quando José Serra, durante a Virada Cultural, vai ao Satyros. Ali, Serra fica sabendo que Os Satyros desenvolvem um trabalho de formação de técnicos no Jardim Pantanal e também que há um prédio abandonado na Praça Roosevelt. A partir de então, sugere que Os Satyros pensem num projeto de formação para ocupar o prédio abandonado.
Os Satyros convidam outros profissionais de teatro altamente experientes para pensar em um grande projeto de formação. São eles: Guilherme Bonfanti (Iluminação), Hugo Possolo (Direção), J. C. Serroni (Técnicas de Palco e Cenografia), Marici Salomão (Dramaturgia), Raul Barreto (Humor), Raul Teixeira (Sonoplastia) e Rodolfo García Vázquez (Atuação).
Assim surge a SP Escola de Teatro, uma escola onde artistas formam artistas.
Endereço
SP Escola de Teatro
Avenida Rangel Pestana 2.401 Brás – São Paulo SP
CEP 03001-000
Tel: 11 2292.7988 | 2292.8143
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www.spescoladeteatro.org.br
Dona Zizi Teles
Dona Zizi Teles nasceu no Alto Rio Tapajós. Criou-se na beira do rio. Morou na vila de São Luiz do Tapajós. Mora em Itaituba, interior do Pará.
Quando eu era criança Dona Zizi contava histórias sobre os índios bravos que atacam as vilas ribeirinhas. Ela foi durante muitos anos a guardadora da Capelinha de Nossa Senhora das Graças. Guardadora é um termo que inventei para definir a sua função.
Dona Zizi rezava terços, fazia novenas, organizava festejos para Nossa Senhora. Em 2010 ela vai chegar na casa dos 80 anos. Valha-me Deus. É vida que não acaba.
Comento sobre Dona Zizi no meu primeiro livro “Chão de terra batida” e ela decerto será personagem do meu primeiro romance que tem o título provisório de “Memorial dos meninos”.
Saudações, Dona Zizi.
[A foto acima é antiga-antiga. Consegui na minha última visita ao Pará em janeiro de 2010]
Retornei para Sampa
São Paulo, 28 de janeiro 2010.
Já é quase meia noite. Estou de volta a São Paulo. Retornei para Sampa com um desgosto no coração. Coisa de paixão mal curada. Saudade da minha terra pequena, onde tudo vai devagar. Depois de cinco horas de voo, desci no Aeroporto de Guarulhos. Tive certo medo quando via da janela os automóveis pequeninos se movimentando em ruas iluminadas. Era estranho comtemplar aquela aglomeração de luzes formando rabiscos intermináveis. Meu Deus, é nisto que moro. Neste formigueiro. Uma pessoa aí é só mais uma pessoa. Uma casa aí é só mais uma casa. Era isso que pensei. Mas nestas duas últimas manhãs senti de volta o cotidiano das ruas, as pessoas dentro do ônibus, as pessoas nas estações de metrô, as pessoas nos bancos e nos supermercados. O silêncio no semblante de todos que vi me assustou. O cotidiano é mesmo em qualquer lugar do mundo, em qualquer cidade. Todos dormem, alimentam-se e trabalham. Isto é a vida, meu Deus. Eu não entendo. Não me contento. O que vem depois das imposições do cotidiano? Não tenho como responder, como não sei explicar a minha inquietação. Quando estou aqui sinto saudades da Amazônia; quando estou lá sinto saudades de Sampa. Por um instante perdi o meu interesse pelas cidades. Queria um pouco do silêncio do mato. Queria um pouco de paz para escrever como um louco. No entanto, não consigo escrever sem barulho, sem sussuros e gritos. Ainda não consigo. Em todo caso, estou em Sampa com uma sagacidade gigante à procura da arte dessa cidade, com vontade de levar os meus escritos e ideiais a todos.
Forte abraço,
Rudinei Borges
Carta do poeta Rodrigo Domit
Rio de Janeiro, RJ. 19 de janeiro 2010
Chão de terra batida é, como o título já sugere, literatura sem reboco. Não tem rodeios nem rodopios, nem temperos ou condimentos, é literatura pura e simples, crua. Não se trata da poesia teorizada e lapidada para atingir a perfeição, trata-se da perfeição da poesia vivida.
Rodrigo Domit
Em estanque!
por Assis Benevenuto, poeta de Minas Gerais.
o que mesmo sempre pedia, a mãe,
afiando a faca?
o som depurado em indas e vindas e
o paradeiro nos meus olhossurpresa,
o sol a pino a queimar-me no canto de fora,
no jardim de minhas pernas.
a mãe tocando seu violino e
a galinha em asassufoco,
a faca aguçada,
na orquestra de talheres à mesa.
em estaca!
o que mesmo sempre pedia, eu,
brotando em lágrimas?
Rosto Casto
por Paulo Medeiros, poeta do Amazonas.
Por trás daquele rosto casto
Escondem-se pensamentos insanos
Pensamentos mundanos
Ideias absurdas
Olhos de ressaca num bar oblíquo
Cobertos com o véu da inocência
Escondendo sua indecência
Movimentos de mãos
Gestos indigestos
Suaves e ríspidos
Como as mãos de um maestro
Palavras proferidas
Curando feridas
Promessas de nada
Nada de promessas
Coração leviano…
Coração levitando
Carta do poeta Paulo Medeiros
Manaus, Amazonas. Dezembro 2009
Meu caro amigo Rudinei,
Acabei de ler seu livro Chão de Terra Batida e foi uma viagem a minha infância no interior de Manaus, mas precisamente a casa de minha vó no Careiro da Várzea.
Espero que sua viagem renda muitos textos interessantes.
Um forte abraço do seu amigo amazonense.
Paulo Medeiros
Notícias de Cuiabá
Cuiabá. Mato Grosso. 22 de dezembro 2009.
Saudações a todos.
Estou em Cuiabá, capital do Mato Grosso. Faz um calor infernal, indescritível, daqueles que nem Dante Alighieri saberia explicar. Cuibá tem muitas e muitas casa; poucos edifícios. Acho que aqui odeiam árvore, porque vi poucas. O cenário do estado é marcado por planntações de soja à beira da estrada. Vi um pouco de plantação de cana também. Há umas casas perdidas aqui e acolá entre serras, mas tudo parece plano. E o sol? Parece que a natureza esqueceu a existência da sombra. Só há sol. Muito sol. Como se fosse vários e se espalhassem pelo céu. Ah, nunca vi tanta gente que viaja de ônibus e reclama tanto. Eu já sei como é, por isso fico calado lendo e olhando pela janela. Sempre saio cheio de animação para escrever inúmeras histórias.
Encontrei o mesmo vendedor de passagens de ônibus numa das agências da rodoviária. O mesmo que me vendeu passagem para Itaituba ano passado. Estou usando o mesmo computador, na mesma Lan House que usei em 2008. A diferença é que as letras do declado desapareceram e alguém as cobriu com um esmalte branco. Agora as letras ficaram enormes. O “r” está gigante.
A grande alegria que vivi na viagem de São Paulo para cá foi a minha leitura incessante da biografia de Clarice Lispector. “Clarice” do americano Benjamim Moser é um livro revelador e instigante. Toda a menina Clarice está lá com a sua família e sua história; desde a vinda da Ucrânia. Já estou na parte em que ela chega ao Rio de Janeiro e publica o seu primeiro romance “Perto do coração selvagem”.
Volta e meia mudo de canal e leio com grande alegria a novela “Campos gerais”, a históra do menino Miguilim, do nosso João Guimarães Rosa. Talvez Miguilim se tornará o livro da minha vida. Um amigo quando leu o meu primeiro livro publicado, “Chão de terra batida”, disse que eu deveria ler o livro de Guimarães. Bebi nas fontes do escritor mineiro indiretamente. Cheguei a ele via Adélia Prado e Manoel de Barros, dois poetas que me influenciam profundamente. É uma cosntrução das mais originais da língua portuguesa.
Por fim, também volta e meia leio alguma crônica de Rubem Braga. O livro “200 crônicas escolhidas” é uma espécie de presente para o leitor que viaja, pois dá para relacionar as paisagens citadas por Braga com o que estamos vendo. Sobre o livro encontrei um comentário de Braz Ogleari que afirma o seguinte: “com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta flagrantes da vida cotidiana que ele próprio viveu ou testemunhou”.
Então fica a sugestão dos meus três livros de viagem:
1. Clarice (de Benjamim Moser)
2. Campos gerais (de Guimarães Rosa)
3. 200 crônicas escolhidas (de Rubem Braga)
Hoje à noite parto para Guarantã (ainda no Mato Grosso, este estado que não termina nunca) e de lá vou para Itaituba, a cidade onde nasci no interior do Pará, que a personificação da distância. Aí sim vou encontrar muita lama e poeira na Rodovia Santarém-Cuibá. Espero que a viagem renda boas histórias.
Olha que eu ouvi de uma senhora resmungona. Ela reclamou tanto da viagem, porém quando olhou o céu ela disse: “gosto tanto do céu assim: azuzim, azuzim”. Anotei numa das páginas do livro do Guimarães.
Abraço apertado,
Rudinei Borges
Sobre “Campos Gerais” de João Guimarães Rosa
Disponível na página http://artistasdopovo.blogspot.com
O livro de Guimarães Rosa – Miguilim – contrasta um ambiente pobre num mundo rico – Minas Gerais ou como está no título da novela Campos Gerais. A cidade predominantemente rural e pequena, Mutum é o cenário de toda a história do Miguilim, que é uma pessoa que está lutando para chegar aos seus objetivos.
O autor traça uma história em que uma família simples vive seu dia-a-dia como muitas famílias rurais que ainda existem no Brasil. Guimarães Rosa faz uma imersão neste mundo trazendo a linguagem simples, típica da região com seus costumes e tradições, das pessoas do campo.
Para mim a cidade Mutum é uma crítica social, pois é uma região como várias pelo Brasil, é uma região abandonada pelo poder público onde quem sobrou, isto é, quem vive lá tem que se virar para ter uma vida melhor.
Um exemplo de que Guimarães Rosa cita a cultura da roça é quando o pai do Miguilim sai da fazenda para caminhar pelo mato com seus cachorros para caçar o coelho. Os cachorros são os auxílios da defesa do pai do Miguilim.
A obra tenta captar o cotidiano de um personagem que batalha, pensando que está vivendo em um mundo alternativo, diferente, sonha alto, mas que com ajuda dos outros, primeiramente com o Tio Terêz e depois com o irmão Dito, o Miguilim constrói a sua formação de visão do mundo, onde ele se esfoça e tem um reconhecimento de todos.
Apesar de suas fraquezas, seu aspecto raquítico ele tentou batalhar para conquistar o respeito do pai, que é um sujeito sofrido da vida e acha que todos os filhos tinham que passar o mesmo para se tornar homem de fato.
Miguilim pertence a uma família pobre, simples da roça brasileira em que a família funciona com um sistema patriarcal, isto é o pai é o chefe da família, Nhô Bernardo.
Ele é um pai autoritário que não dá muita atenção para o filho mais novo, o próprio Miguilim, a mãe Nhanina, que é uma submissa ao marido e que passa dias de tristeza numa região vazia e abandonada, acreditando numa vida melhor. A única pessoa com quem respeitava era a Vovó Izidra – a moralista da família.
Tem o Tio Terêz, que no começo era visto por Miguilim como um amigo, que no decorrer da história ele não é visto mais da mesma forma após a morte do pai, porque com o passar da novela, Miguilim desconfia que o Tio Terêz está traindo o pai com a mãe. Tem o braço direito do Miguilim, Dito, que sempre vai dar apoio em todos os momentos, até a morte. Durante a doença de Miguilim, o irmão ajudou na recuperação do protagonista da história com a energia da alegria. Dito é destacado como uma parte importante da novela. Pelo pai, ele é visto como sucessor da liderança da família pela ajuda na roça e por ter amadurecido rapidamente.
Dito ensina o pequeno Miguilim a viver a vida, aplica valores para o amadurecimento do jovem garoto. Apesar da história estar centrada ao redor do Miguilim, Quando Dito estava doente, a família tenta salvar a vida dele por meio de rituais e outros meios demonstrando que o Dito era uma esperança para o desenvolvimento da pequena comunidade.
Na história há vários casos de desrespeito à autoridade e também a repressão da autoridade como o caso que o Pai está batendo na mãe Nhanina por causa do Tio Terêz, em que o suspeita da traição, e o inocente Miguilim tenta defender a mãe entrando no meio da briga em que acaba apanhando.
O ápice da história, quando o Dito morre, Miguilim se sente desprotegido, pois o irmão era um conselheiro para enfrentar os desafios que a vida oferece. O Dito atua como a razão e utiliza o logos que é um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza. Isto é, Miguilim só tomava alguma atitude quando o Dito estava certo e até tentava imitar o irmão, quando ficou doente. O Miguilim era a ação e o Dito a razão, o pensamento.
Além disso, o autor tenta traçar os grupos sociais que vivem em Mutum, como os “vaqueiros”, que ensinam o Dito e Miguilim os conhecimentos sobre a criação de gado, como tirar leite, sarar uma “pisadura” ou então o grupo das “mulheres da cozinha” que citam o dia-a-dia da vida da Rosa, que está limpando as tripas do porco para cozinhar e é incubida as tarefas que tem maior iniciativa e capacidade de cálculo , a Nhanina, que está fazendo sobremesas, Mãitina, uma “negra fugida”, que pode ser até uma referência de escrava, ou sofrida pela vida, que faz os trabalhos mais pesados e que está desapontada por não ter reconhecimento e ainda é maltratada pela Vovó Izidra que a trata como uma “traste de negra pagã”. Tem também a Maria Pretinha que é a auxiliar da Rosa.
Outro ponto forte, que é quando o pai de Miguilim se mata, acontece uma “renovação do poder”, pois quando Nhô Bernardo é substituído pelo Tio Terêz., que tem interesse em se casar com o Nhanina.
Miguilim que era muito dependente para a mãe acaba conquistando sua ‘liberdade” quando um sujeito vem da cidade e dá os óculos para ele pois a grade dificuldade que carregou na história de dele era um problema de visão que criava outras visões outros mundos na personagem.
Os personagens como o Miguilim e Dito tem uma ligação muito forte e destaca a forte relação que os dois tinham de confiança num ambiente em que o pai é uma pessoa ignorante de conhecimento acadêmico, mas sábio com o conhecimento da vida, apesar da violência e da dureza, o pai mostrou seu lado frágil em dois momentos: quando o Miguilim quase morreu e quando o Dito morre.
Pois o pai fica desesperado com a enfermidade do irmão mais velho, a esperança da família para uma vida melhor e o Miguilim em que o pai fica arrependido porque se acha culpado pela doença de Miguilim, que se esforçou demais ao tentar fazer o mesmo trabalho que o irmão fazia. Para mim, a novela identifica muito a comunidades que estão espalhadas por este País, que tem seus laços sociais, familiares, com seus conflitos e rituais.
No final da história, com a “liberdade” conquistada, isto é, os óculos, Miguilim é convidado pelo sujeito que deu a possibilidade de corrigir a visão para viver na cidade, estudar, aprender um ofício e não depender mais da mãe como dependia.
Apesar de todo o sofrimento, a personagem Miguilim sofreu, batalhou, enfrentou desafios e teve uma vitória na vida, conseguindo enxergar e ter a possibilidade de estudar e ser independente para quem sabe um dia voltar a Mutum e ajudar sua família.
Morenidade
Que é que o teu corpo tem que dá vontade de tê-lo perto sempre? Coisa estranha a morenidade do teu corpo. A morenidade de que gosto tanto. E repito aos ares: arte sublime a morenidade. Acerto de Deus que nem escureceu nem clareou. Deixou o teu corpo com o tom da tardinha, quando a noite vem chegando, mas o dia ainda insiste em ficar.
E o teu riso? Quem edificou a candura do teu riso? Quem mensurou esta mistura de dor e alegria numa dose só? E o teu olhar? De onde vem este modo de dizer as palavras em silêncio?
Dá vontade de partir para os campos e levar nas mãos uma gaiola como quem vai procurar passarinhos. Dá vontade de prender o teu corpo. De deixá-lo à vista. De domá-lo. Mas me diz: existe visão mais triste que um passarinho preso? Não há. Por isso, abdico do meu querer, do meu impulso. Vai. Eu me contento em assistir o teu corpo a caminho das ruas, tomando o sol das ruas. E sinto aquele nó.
Queria o teu corpo pra mim.
[por Rudinei Borges]
[Fim de tarde chuvosa em Sampa. 11 de dezembro 2009]
O dia em que meu livro foi rejeitado
Hoje à tarde recebi um NÃO na cara. NÃO com letra maiúscula mesmo. Desses NÃOS que deixam a gente amarelado, vermelho, com uma fontade de xingar a mãe de fulano, o pai de sicrano. Em minha santa ingenuidade inventei de levar para uma pequena biblioteca na Estação Paraíso do Metrô, aqui em São Paulo, o meu primeiro livro, Chão de terra batida. Queria doá-lo para a biblioteca. Esperava um riso da bibliotecária e um possível muito obrigado por colaborar com o projeto inovador de incentivo à leitura. Mas NÃO foi isto o que aconteceu. Ao contrário. Mostrei o livro. Ela olhou e disse: “NÃO posso aceitá-lo. Só nos interessa best sellers. Os livros mais vendidos”. Engoli a notícia. Deu aquele nó na garganta. Aquela raiva. Depois que eu vi a lista dos livros mais emprestados e deu um troço em mim. Aquilo então é que é best seller. Olhei para os lados. Agradeci por educação. Fui embora com o meu livro entre as mãos suadas. Acho que vou odiar para o resto da vida este estrangerismo, best seller. Best seller. Best seller. Best seller. Best seller. Best seller é o diabo.
Carta Erich Decat
Brasília, 3 de dezembro 2009
Meu querido amigo e poeta,
Foi com grande alegria que recebi o seu livro. Li de uma só vez. À medida que lia era remetido às histórias que minha vó contava sobre o início de Brasília, quando eu era criança. Ou seja, os seus versos despertaram sentimentos há muito adormecidos. Gostei muito da simplicidade e da riqueza deles. Em especial, o trecho do poema O poeta, em que você diz: “tece metáforas em silêncio como se contasse segredos a ninguém”.
O seu Chão de terra batida é mágico e encanta a todos.
Forte abraço.
Do amigo Erich.
[Erich Decat é jornalista. É autor do livro Uma carona cultural: destino norte. O livro é resultado de uma instigante viagem de ônibus e barco para a Amazônia]
Antônio Lázaro de Almeida Prado
Nesta noite, passagem de domingo para segunda-feira, ando vasculhando em sites a poesia de Antônio Lazzaro. Aliás, ando vasculhando uma sensibilidade e rigor em falta em nossa poesia. Dá uma saudade quando recito baixinho os versos abaixo. Acho que poeta bom é aquele que consegue com que sintamos saudades de algo inominável. Este é o meu sentimento.
Alvíssaras
Que traz em seu alforje a madrugada?
E o áugure o que lê nas entrelinhas
Das arcanas entranhas do futuro?
Em seu ninho de fogo, generoso,
Que prepara em seu sangue o pelicano?
E Orfeu o que perscruta em sua lira?
Acaso já delira a pitonisa
Em sua embriaguez antevisora?
Qual a safra de sonhos do profeta?
Desvelo em seu tremor estas primícias
Do canto inaugural da Nova Idade,
E posso proferir meus vaticínios:
Haverá tanto amor na virgem Terra
Que seu mêstruo benéfico assegura
A vitória da Ovelha sobre o Lobo.
Tudo mais será escória do Passado,
Voz antiga, insensível, dispensável,
Que o fogo em seu ardor reduz a cinzas…
Embora infante boca do futuro
Já posso pronunciar meu Evangelho:
SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!
Sinfonias possíveis
Trago dentro de mim harmonizados
Muitos sons e canções, que não componho,
Tão vibrantes, coesos, concertados
Que enformam a textura de meu sonho.
Cantigas de ninar, trovas do povo,
Trinados matinais na voz dos ventos,
Capazes de gerar um canto novo
Capazes de aplacar dor ou lamentos.
Na força destes sons me fraternizo
Com a imensa harmonia do universo
Que moldo neste som claro e conciso.
E do instante pungente ou adverso
E de todo o sofrer me imunizo
No resgate eficaz de rima e verso.
Invenção da alegria
Há quem cultive a dor,
Eu invento a alegria.
De todo o meu amor,
Que vale mais que o dia,
Quero legar a história,
Quero deixar ao vento
(sem ais e sem lamento)
Uma justa memória
E enxuta fantasia.
Há quem celebre a morte,
Eu festejo a alegria.
Por graça ou por esporte
Ou mesmo por mania,
Quero inventar a vida,
Quero o melhor carinho
Doar a meu vizinho
Como a melhor partida
De sonho ou de poesia.
Há quem festeje o pranto,
Eu invento a alegria,
Razão maior do canto,
Antes que a cotovia
Arquive o nosso idílio,
Cancele o meu futuro,
Razão maior do puro
Clarão deste meu círio
Votado à alegria.
[Antônio Lázaro de Almeida Prado nasceu em Piracicaba, em outubro de 1925. Poeta, ensaísta, tradutor e jornalista, é Doutor e Livre-Docente em Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1953 a 1958.Transferiu-se para a UNESP (campus de Assis), do qual foi fundador, aposentando-se em 1982. É Professor Emérito da Faculdade de Ciências e Letras, e, ali, depois de Titular Fundador da Cadeira de Língua e Literatura Italiana, passou a Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada. Dentre suas obras publicadas, destaca-se o livro de poemas “Ciclo das Chamas”, lançado, recentemente, pela Ateliê-Editorial, em que se reúne parte de sua produção poética]
Capelinha de Nossa Senhora das Graças
O padre alemão falava enrolado. As meninas rezavam a Ave-Maria em latim. Dona Benedita no alpendre da casa contemplava um beija-flor namorando a roseira. O menino vestido de anjo subia a ladeira da Passagem Dr. Nelson. O rapaz olhava o semblante da moça morena. O homem carpia o terreiro da capelinha. Uma mulher anunciava o fim do mundo. A outra paparicava o marido que veio do garimpo. Um homem de chapéu dizia que não gostava de árvore. A professora contava a história de Francisco Orellana, o desbravador do Rio Amazonas. O sacristão puxava o sino da catedral de Sant’Ana. O velho coronel imaginava atrocidades. Um menino vendia peixe. O outro pescava tucunaré. Uma menina do povo munduruku fazia colares com penas de arara. Um barco partia para Aveiro. A freira dava bolo para as crianças. Um homem descalço suava e chorava. Carregava uma cruz pesada.
E eu nem sabia o que era Sexta-feira da Paixão.
[Publicado no livro Chão de terra batida. All Print Editora 2009]
Livraria da Esquina
*para Luan Dukee
Todos os dias separo os horizontes,
Arrasto as portas,
Conto os meus dedos
Como o herói mais fajunto desta rua.
Sou uma multidão.
Uma estranha multidão
Na livraria da esquina.
Sou esta arma cálida
Disposta a atirar.
Esboço de poema. Escrevi numa quarta-feria de novembro antes da meia-noite na Livraria da Esquina durante a apresentação das bandas “Volver” e “Madame Saatã”.
Barra Funda. São Paulo. SP
Fabiano Calixto
1. “A luz é uma sangria”.
2. “Quando a gente vive com muita pouca grana há uma necessidade atroz de se portar como cristão, de amar o próximo”.
3. “O Viaduto do Chá é uma cadela comendo lixo”.
5. “amor, isto é uma carta/deixe que achem que isto é um poema,/assim podemos dar boas risadas”.
* Versos do livro Sanguínea (Editora 34, 2007)
Fernando Pessoa * Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
Fernando Pessoa escreveu o poema Tabacaria em 15 de janeiro de 1928.
Muitos críticos consideram o maior poema em língua portuguesa do século XX.
Publicado em: Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.
Affonso Romano de Sant’Anna
[O poeta Affonso Romano de Sant'Anna]
O meu livro “Chão de terra batida” chegou às mãos do grande e querido mestre, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Veja o comentário que o poeta fez em seu site.
O mundo visto das montanhas
Aqui, em Friburgo,a lareira acesa (desculpem), no Rio aquele calorão. Acabei de botar um agasalho. (Não me odeiem por causa disto). Flores para todo lado. E choveu, como antigamente, pontualmente, `as cinco em ponto da tarde, aquela hora fatídica de que fala Garcia Lorca, e a hora em que o marido da blogueira cubana desafiou para um duelo verbal, seus opositores.
Mas ligo a televisão.Tem um canal que só pego aqui-TV ESCOLA. E começam a passar um documentário sobre os italianos levados para campos de concentração. Oh! My God! (Sim, Deus hoje fala inglês!).
Deveriam mandar esse filme para o presidente do Irã, com saudações da mais alta (ou baixa) estima e des/consideração. Quem sabe ele se convence da tragédia dos judeus na II Guerra?
E fico sabendo, que os campos, funcionando desde 1933 haviam fulminado antes 500 mil alemães. Como, então, muitos alemães diziam que não sabiam de nada? 500 mil!… só de alemães antes de começarem a coletar ciganos, judeus e outros.
Tenho que aliviar essa carga pesada de informação. Trouxe para ler aquela que é a melhor revista hoje: BRASILEIROS. Procurem na internet e comprem na banca. A capa é esta:
Chega de revistas com notinhas e fragmentos típicos da contemporaneidade.Finalmente, uma revista para se ler e pensar.
E leio o Novel Obs e trouxe as biografias de Rubem Braga e de Clarice Lispector para fazer uma leitura cruzada- o que vai me render uma crônica para o próximo domingo. E trouxe livros de jovens autores para ler: um deles muito curioso – Rudinei Borges (autor de CHÃO DE TERRA BATIDA). Ele saiu lá de Itaituba/Pará e sobreviveu a um curso de filosofia na USP. E leio Fala Brasil – jornal heróico de Rosane Scherer, lá de Porto Alegre,onde colaboro e li hoje, n O Globo, a boa recepção aos livro de Flávio Carneiro, ex-aluno meu e de Marina e amigo nosso. Flávio está arrasando com esse livro policial- O CAMPEONADO( Ed.Rocco).
No mais Luciano Trigo continua aguardando que a imprensa acorde para o seu livro onde discute a arte contemporânea. E vou telefonar pro Roberto da Matta para comentar a homenagem a ele lá no Museu do Jambeiro/Niterói. Depois que saí, soube que ele não resistiu ao apelo e cantou seu repertório de Sinatra. Até os jambeiros se emocionaram…
***
* O comentário acima foi publicado no site de Affonso Romano de Sant’Anna.
Auto do mato
Um dia vi Deus no meio do mato. Ele riu e fez um sinal com a mão para que eu chegasse bem perto dele. Eu deitei no colo de Deus e senti uma saudade forte dum tempo que não sei qual é.
Contei pra Deus que se eu não fosse menino queria ser um boto tucuxi pra ficar o dia todo brincando no rio. Mãe ralhou comigo. Disse que boto tucuxi não brinca o dia todo.
Deus me contou que se não fosse Deus queria ser uma aranha pra ficar o dia todo tecendo teias bonitas. Mãe ralhou com Deus. Disse que aranha não tece teias o dia todo.
*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)
Moacir Dias
O vô tinha jeito de índio. Cabelo de índio. Cor de pele de índio. Mas o vô não sabia o que era oca e aldeia. Acho que o vô era uma mistura de índio com português.
O vô gostava de mato, dos mistérios do mato. Conhecia de longe paca, tatu, caititu, capivara. Já tinha visto onça e gato selvagem. Sabia nome de bicho que ninguém sabe, nome de árvore que ninguém sabe.
O vô também gostava de carpir, preparar a terra, plantar mandioca. Gostava de ver o mandiocal crescer ao redor da casa de barro. Tempos depois o vô arrancava a raiz, deixava a mandioca virar puba e colocava a massa num forno à lenha. Era assim que o vô fazia farinha.
Dava vontade de ter fome sempre.
*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)
A cacimba
A vó tinha um quintal grande. Quintal tomado de árvore: pé de ingá, jambo, mangueira: casa de curió, marimbondo, periquito. No fundo do quintal, perto da cerca que dava com a casa da Dona Paula (uma negra risonha e brava), a vó mandou fazer uma cacimba.
Dentro da terra úmida fi cavam escondidas minas quietinhas e a água da cacimba era clara, fria. Deixava todo mundo arrepiado. Mas das minas saiam muçuns, bicho estranho. Eu tinha medo daquilo. Devia ser coisa do outro mundo. Coisa que aparece só em sonho. Coisa encantada. Mas eu não gostava de muçum. Nem pra fazer judiação. Nem pra levar nas aulas de ciências.
A vó também mandou fazer um jirau e as mulheres do bairro iam lavar as roupas do marido, dos filhos e do patrão. Aparecia roupa de toda parte. Roupa feia e bonita. Roupa rasgada e remendada. Foi lá que a mãe lavou a minha camisa da primeira comunhão. A toalha vermelha de mesa que eu achava bonita – a mãe colocava no natal. Eram tardes inteiras ali. Eu sentava debaixo das árvores e quando a mãe chamava ia com um balde tirar água da cacimba pra colocar numa bacia velha de alumínio.
Foi naquela cacimba que eu li pela primeira vez Fernando Pessoa.
*Publicado no livro “Chão de terra batida” (All Print Editora, 2009)
“O verso é meu ofício” – uma entrevista com Rudinei Borges
por Cristina Lima*
Em 2009, o poeta e escritor paraense Rudinei Borges publicou o seu primeiro livro de poesia, Chão de terra batida (All Print Editora, 2009). Numa entrevista concedida via e-mail, Rudinei conta como a infância no interior da Amazônia influencia a sua criação poética. Acompanhe os principais momentos da entrevista.
Cristina Lima - Apresentação, poema que abre o seu primeiro livro, Chão de terra batida, inicia com o verso que diz “Eu nasci no mato, Joana”. Na parte final do livro em um texto que você nomeou de Autorretrato há outra vez esta afirmação, “sou um poeta do mato”. Por que esta fixação pelo mato? Qual o significado do mato ou da floresta em sua poesia?
Rudinei Borges - Não diria que há uma fixação pela imagem do mato. Mas, em verdade, há um itinerário a ser percorrido em meu primeiro livro e ele parte do tema da infância. Quando recordo os primeiros anos de minha vida, o que tenho guardado na memória são imagens da mata amazônica, da simplicidade do cotidiano, da figura materna e da imensidão das águas. Na Amazônia os rios são imensos. O mato talvez signifique o lugar primeiro. O que Bachelard chama de poética do espaço. É onde nasci e de onde vim. Quando afirmo que sou um poeta do mato não estou delimitando o meu espaço, mas reconhecendo a minha própria origem. Tenho textos e poemas que evocam uma realidade absolutamente urbana, como a vida em uma cidade cosmopolita como São Paulo. No entanto, o meu chão primeiro, a minha manjedoura, é o interior do Pará. E eu quis que o meu primeiro livro fosse impregnado desta saudade do mato, da floresta. É quase como uma tentativa de fundir e confundir a infância com o local onde ela aconteceu.
C. L - Então, conte-nos sobre a cidade onde você nasceu.
R. B. - Eu nasci em Itaituba, cidade do oeste do Pará. Costumo enfatizar que fica às margens do Rio Tapajós, porque é um lugar muito bonito. Nasci na cidade, porém logo fui levado para o interior. Vivi nas rodovias Transamazônica e Santarém-Cuiabá. A minha mãe foi caseira de sítio, cozinheira de fazenda. Itaituba foi e ainda é um município muito grande. Deve ter uns cem mil habitantes. Em geral, é possível conhecer boa parte das pessoas. Foi um lugar famoso pela exploração de ouro. Cresci ouvindo histórias de garimpeiros. Vi mulheres criando os filhos sozinhas, enquanto os maridos desejavam a riqueza no Alto Tapajós. Creio que o ouro não deixou riqueza nenhuma para a cidade. Só a poluição ocasionada pelo uso de mercúrio. Os meus pais são migrantes e foram para o Pará com a abertura da rodovia Transamazônica. Foram acompanhando os meus avós e lá se conheceram. O que acho interessante é que o migrante é sempre tomado de esperança, ele acredita que o lugar para onde vai será melhor. Nem sempre é assim. Alguns chamam a estrada inaugurada pelos militares, que até hoje não foi pavimentada, de transamargura. Um apelido bem apropriado, eu acho. A vida não é fácil naquela parte do Brasil. Penso que o fato de a estrada não ser pavimentada propiciou que eu guardasse uma lembrança, um sentimento forte pelo barro. Na transamazônica há atoleiros gigantescos. Num dos meus versos eu escrevo: “no norte do Brasil há casa de barro em ruas de barro”. Outra vez tento fundir as imagens. As ruas de barro e as casas de barro são a mesma coisa. E termino com “um dia vi Deus empinando pipa”. O que percebo agora ao falar com você é que apesar de um provável cotidiano sofrível eu mantenho as mesmas esperanças do migrante. Tenho a impressão que em Chão de terra batida o cotidiano é cantado com certa ternura. De certa forma eu acredito no cotidiano. O cotidiano da pequena Itaituba e de todas as cidades muito me interessam.
C. L - Quando você veio para São Paulo?
R. B. - Eu mudei para São Paulo nos fins de janeiro de 2003. Tenho este hábito de usar a expressão “fins”. É uma quase certeza de que o fim nunca é um só. Há vários, então. Como deve haver inúmeros começos. Como comentei, eu cresci numa cidade pequena e cresci com o desejo de conhecer outras cidades. Por alguns anos, como muitos jovens, nutri um forte anseio de ir para lugares distantes. Queria viajar pelo mundo. Acho que tem algo haver com a leitura que fiz do diário de viagem de Ernesto Che Guevara ou com a vida de Rimbaud. Aliás, Rimbaud sempre me fascinou muito. Ele também veio do interior como eu. Porém, ainda não alcancei o mundo. O máximo que consegui chegar foi em São Paulo, que é um universo enigmático. Tenho vontade de deixar tudo e partir para uma viagem Brasil adentro, Amazônia adentro. Partir numa caravana como fez Mário de Andrade. Descer o inferno, como Drummond chamou a viagem de Mário. Um dia vi num livro uma foto de Mário de Andrade no porto velho de Santarém. Era uma fotografia antiga. Eu queria ser como aquele poeta que viajava atrás das raízes de seu país. Queria ser como o poeta que escreveu Macunaíma. Quando cheguei em São Paulo fui visitar o túmulo de Mário como um filho perdido que visita o pai distante. Senti alguma emoção. Engraçado, não escondo que sou guardador deste envolvimento familiar com as coisas. Lembro que certa vez peguei um caderno e fui perguntar para a vó o nome de todos os nossos parentes. Queria saber tudo. O nome de todos. Sou uma espécie de filho agarrado-desgarrado. Pareço distante, mas ao mesmo tempo ligado às minhas raízes. Preciso dizer que antes de vir para São Paulo, eu morei um ano em Santarém. Logo completei dezoito anos e terminei o Ensino Médio, em 2001, eu saí de casa. Em São Paulo me formei em Filosofia, comecei a lecionar e atualmente sou mestrando em Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo – USP.
C. L. – Você gosta de São Paulo?
R. B. - Gosto de Sampa. Por vezes, sinto certa aflição. É como se eu sentisse a cidade encravada dentro de mim. Preciso olhar o mar e os rios. O que é mais difícil é que não há um rio como o Tapajós na cidade de São Paulo. Por um tempo, eu achava inadmissível uma cidade que não fosse às margens de um rio. As cidades que são referências para mim estão localizadas às margens de grandes rios, como o Amazonas. Falo de Itaituba, Altamira, Santarém e Belém. Falo de Alenquer, Oriximiná, Óbidos e Monte Alegre. São todas cidades paraenses. Eu só conheci o mar em 2003. Faz pouco tempo. O meu mar era o Amazonas. São Paulo é um mundo misterioso de casas, edifícios, pontes, avenidas e pessoas diferentes. Inusitadas. Você olha para um lado e para o outro e ainda não conhece nada. Lembro que o que mais me impressionou no centro foi o Viaduto do Chá. Até hoje não sei as razões. O Viaduto do Chá esconde uma espécie de magia que eu não entendo. Juro que não entendo. Quando quero me sentir bem e em paz ando por ali. Atravesso o viaduto, contemplo o Vale do Anhangabaú e o Teatro Municipal. É um sentimento sem explicação. Muitos falam e têm razão: tudo acontece em São Paulo. A vida cultural é o que mais me anima. É possível conhecer poetas e escritores. É possível ir às peças de teatro mais experimentais. Tenho uma ligação forte com o teatro. E quando vejo o encontro de teatro e poesia sinto grande alegria. Em Itaituba, eu atuava em performances com poemas na escola, na igreja e até nas praças. Em São Paulo fiz por um tempo o curso do Teatro Escola Macunaíma, mas depois tranquei por falta de dinheiro. O teatro é um sonho que não consigo alcançar. Ora fica perto e ora está distante. Diante destes percalços, prometi que vou escrever peças de teatro, que vou manter uma relação com o teatro de algum modo. Penso que eu escolhi o teatro, mas o teatro não me escolheu. Gosto de atores como Gero Camilo, Marat Descartes. Eles nem sabem que eu existo, mas gosto do trabalho deles. Certa noite, em 2008, vi uma peça em que atuava a atriz Juliana Galdino. Meu Deus, aquilo me levou a uma sensação do sublime que eu nunca havia experimentado. Voltando aos poetas e escritores, deixa-me confessar: desde a adolescência esperava conhecer os poetas Ferreira Gullar e Adélia Prado. Como também o meu mestre, Thiago de Mello, e o poeta Manoel de Barros. Conheci três deles. Faltou o Manoel de Barros. Sou da Amazônia, entretanto foi em São Paulo que pude conversar com o Thiago de Mello. Em São Paulo pude confirmar a sua real existência. Talvez eu leve pela vida toda o peso de não ter conhecido o poeta Manoel de Barros. Não tenho como ir ao estado onde ele mora. Nem tenho os contatos necessários para essa empreitada. Devo dizer também que em São Paulo a vida é cruel e difícil. As pessoas trabalham muito e talvez não vivam com a qualidade necessária. A educação e o transporte público, por exemplo, deixam muito a desejar. Conheci comunidades como Heliópolis. Lá a maior parte do que há para os jovens e as famílias é conquista ardorosa da comunidade e não necessariamente da autoridades ditas competentes. A violência me assusta. Já fui assaltado. A miséria nas ruas também é triste e vergonhosa. Isso é São Paulo.
C. L. - Você citou alguns poetas. Quais poetas mais o influenciam?
R. B. - As minhas influências são um paradoxo. Leio e estudo diferentes expressões da poesia e da prosa. Tudo o que é literatura me interessa, na verdade. No meu primeiro livro, Chão de terra batida, identifico algumas influências claras e até inegáveis. O meu modo de ser poeta em Chão de terra batida resulta da escolha por enxergar o cotidiano com paixão e esperança. O meu objetivo foi cantar e encontrar significado nas pequenas coisas da infância. Quis encher a minha infância e de todos os meninos da Amazônia de um significado universal. Os poemas têm caráter narrativo, por isso a maioria deles foi escrito em prosa. Acredito que essa é uma de minhas principais características nesse meu primeiro empreendimento literário. Essa escolha é o resultado do meu envolvimento principalmente com a poesia de Adélia Prado e Manoel de Barros. E penso que também da leitura de Manuel Bandeira e Mário Quintana. O livro sobre nada de Manoel de Barros me deixou enlouquecido. E Oráculo de maio de Adélia Prado me fez receber multas da biblioteca municipal da cidade onde nasci. Atualmente não consigo desgrudar de Libertinagem e Estrela da manhã de Bandeira. Ninguém consegue. Libertinagem é um clássico de todos os tempos da poesia brasileira. Eu vivo os meus dias convivendo com o porquinho-da-índia, com Tereza e Irene Preta. Fale-me de poema mais extraordinário que Vou-me embora pra Pasárgada? Eu recitava aquele poema para todo mundo. Agora, por exemplo, estou labutando com a poesia completa de Mario Quintana. Foi a leitura de uma antologia de Quintana que me fez decidir por publicar primeiro os poemas de Chão de terra batida. Penso que os poetas que citei têm algo em comum, como o lirismo, a simplicidade disfarçada e um jeito prosaico de escrever os versos. O que eles escrevem parece simples, mas logo numa outra leitura encontramos uma variedade de significados e sugestões. Nos últimos dias li alguns versos de Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais de Cora Coralina. Causa fascinação versos como “vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo”. O que mais gostei foi do famoso Poema do milho e, em particular, quando em certa altura do poema, Cora escreve: “Em qualquer parte da terra um homem está plantando, recriando a vida. Recomeçando o mundo”. Quero beber da simplicidade grandiosa desses poetas.
C. L - E os outros poetas e escritores? De quem você gosta em particular?
R. B. - Passei a minha adolescência inteira lendo Drummond. E Drummond pesa nos ombros, porque é extraordinário. É muito difícil esquivar-se da influência do poeta mineiro. Tenho paixão pelo Drummond de Rosa do povo. Da mesma forma amo o Gullar do Poema sujo e o Thiago de Mello de Faz escuro mas eu canto. A poesia compadecida pela miséria humana me interessa. Escrevi um poema longo de caráter social. Ainda não o publiquei e nem sei quando o tornarei público. Chama-o provisoriamente de Carne hostil. Eu o escrevi em 2005. Não o concluí. Ele surgiu depois de dois anos morando em São Paulo, num período em que eu ia de ônibus para a faculdade. Saía cedo de casa. Ia do extremo da zona sul para o Ipiranga. A vida das pessoas indo para o trabalho foi o que me motivou. Retornei a labutar com o Carne hostil em 2009. Porém, eu o acho um tanto panfletário. Outros escritores causaram tempestades em minha busca literária. Posso citar T.S. Eliot, Federico García Lorca, Rainer Maria Rilke, Bukowski, Tagore, Tristan Corbière, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa e Rimbaud. De todos estes que elenquei creio que os que mais leio são T.S. Eliot, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Rilke. Não tenho nenhum receio em dizer que os meus poemas de cabeceira são A terra desolada de Eliot; Tabacaria e Guardador de rebanhos de Pessoa; Divã do Tamarit de García Lorca; Os primeiros poemas de Rilke; Dispersão de Mário de Sá. Também todo o livro Libertinagem de Bandeira. É evidente que são os meus poetas de agora. Outros vão chegar. Leio Folhas de relva de Walt Whitman aos pedaços. Aos pedaços também leio Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa, que é verdadeira poesia. Aos pedaços leio Assim falou Zaratustra de Niezsche e o teatro de Samuel Beckett. Este ano li alguns livros do poeta Roberto Piva. Não posso esquecer outros textos que estão sempre comigo como Chove nos campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir. A minha vida seria uma chatice sem essa gente toda. Também guardo algumas fotografias. Elas me ajudam a escrever.
C. L. - Você cita Dalcídio Jurandir na epígrafe de seu livro. Por que todo este carinho por esse escritor?
R. B. - Porque devo muito do que sou à leitura de Chove nos campos de Cachoeira e de outros romances de Dalcídio Jurandir. Se eu fosse para uma ilha deserta levaria esse livro. Talvez você não compreenda, mas Dalcídio conseguiu traduzir em seu primeiro romance muito da alma amazônica, da infância dos meninos da Amazônia. Não posso negar que sou ou fui uma espécie de Alfredo, o personagem principal de Chove nos campos de Cachoeira. Sempre com o desejo árduo de partir, de ir para além dos campos molhados. Dalcídio conta a história de famílias da vila de Cachoeira, que hoje é uma cidade da Ilha do Marajó. Acho que Dalcídio se quisesse poderia trocar o nome de Alfredo pela palavra liberdade. Teria o mesmo sentido. Eu li este livro com dezessete anos, numa viagem de barco para Belém. Foram três dias olhando as margens do rio Amazonas e lendo as páginas de Dalcídio. Aquilo me encantou de tal modo que não sei o que deu em mim. Foi a partir deste fato que me entendi como sujeito amazônico, como parte de uma gente, de uma região do Brasil. O que é a Amazônia? As pessoas não sabem. Não nos compreendem. Não nos conhecem. A Amazônia é a parte esquecida da família. E a literatura amazônica? Quem sabe o que se escreve ali? Dalcídio foi um dos maiores prosadores brasileiros do século XX e poucos críticos e estudiosos o conhecem. Fico com a triste sensação de que a literatura amazônica tende a ficar no ostracismo. Espero que isto mude com o advento da internet, com os avanços tecnológicos dos meios de comunicação. A literatura é a alma de um povo. É um dos modos mais significativos para expressar o que um povo é. Eu creio nisso.
C. L. - O escritor paraense Edilson Pantoja, em um comentário sobre o seu livro Chão de terra batida, afirma que as principais referências de seus poemas são femininas, como a mãe e a avó. Ele também afirma que essas referências femininas parecem constituir figura da própria Amazônia. Como você recebeu este comentário?
R. B. - O Edilson Pantoja é da nova geração de escritores paraenses. Faz pouco tempo ele lançou o romance Albergue Noturno. Não o conheço pessoalmente. Mantenho contato com Edilson através da internet. Pantoja, decerto, fez uma leitura atenta de meu texto. Ele notou algo que tomei consciência após escrever a maioria dos poemas de meu livro. Isto que ele chama de referência feminina. Essa referência se deve em grande parte à minha própria história. Fui criado por minha mãe, pois o meu pai se desgarrou de nossa família muito cedo. Cresci sem pai e a figura de minha mãe tem um sentido todo especial em minha criação. Minha mãe foi e é para mim um grande exemplo coragem e persistência. Ela é destas mulheres brasileiras tomadas de uma força inacreditável mesmo nos momentos mais difíceis. Minha mãe trabalhou duramente para que eu pudesse estudar. Ela sempre me incentivou a escrever, sempre gostou de me ouvir recitar. Na verdade, a minha mãe cresceu ouvindo poemas de cordel. Era comum em Ananás, Tocantins, cidade onde ela nasceu, a leitura de romances de cordel. Talvez por isso ela admirasse tanto o filho que se dizia poeta. Mas nunca escrevi poemas de cordel. Lembro de certa tarde quando a minha mãe chegou do trabalho com um calhamaço sobre o romantismo. Devorei aquilo no mesmo dia. Admirava os poemas de Fagundes Varela para o filho morto. Acho que daí vem esta referência. A própria floresta amazônica lembra um grande útero onde estão presentes várias formas de vida.
C. L. – A religiosidade é outro tema frequente em seu livro. Em poemas como Auto do Mato, você apresenta a figura de Deus com certo humanismo. Há uma tentativa de humanizar o divino em sua poesia? Outra questão interessante é da referência aos santos, comum na cultura popular brasileira.
R. B. – Como já comentei, eu nasci no interior do Pará, numa região de muitos migrantes vindos do nordeste e sul do Brasil. Todos eles levaram para as fazendas e sítios, às margens da rodovia Transamazônica, elementos típicos de sua religiosidade, fé e crenças. Mas também as cidades ribeirinhas do Tapajós e do Amazonas são marcadamente caracterizadas pelos festejos de seus santos padroeiros, por procissões belíssimas. É o que acontece com o Círio de Nazaré em Belém. Uma vez participei do Círio de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santarém. Eu fiquei impressionado com as ruas enfeitadas e com a quantidade de pessoas caminhando numa manhã ensolarada. E não vou esquecer por nada neste mundo das procissões de Sant’Ana, padroeira da cidade onde nasci. A procissão acontece em julho. Faz alguns anos que não participo. Em verdade, eu cresci meio às pequenas comunidades eclesiais de base da Amazônia que surgiram na década de 1970. Cresci meio às rezas das capelinhas, meios às novenas dos santos. Por isso, quando retomo o tema da infância em Chão de terra batida, retomo também a religiosidade característica da região de onde vim. Que não é uma religiosidade institucional. Acredito que o modo como o povo vive a sua fé transcende às instituições. Deste modo, quando penso a figura de Deus eu o apresento como um amigo de infância, como um menino. Não tenho pretensões de adentrar questões teológicas ou filosóficas. O meu desejo foi reaver a minha maneira contraditória de significar a vida e a fé. Acho que é isso.
C. L. - Você citou que mantêm contato com outros escritores pela internet. Qual a relação de um poeta que se denomina do mato com o este meio de comunicação? Como você avalia os blogs e sites de literatura?
R. B. - Utilizo o computador e a internet com freqüência. Nos fins de 2007 criei um blog, depois o abandonei. Agora disponibilizo alguns textos num blog chamado A rua sétima. A internet é um instrumento muito importante a serviço dos escritores. Assim, os novos poetas podem divulgar poemas e outras criações. Publicar um livro no Brasil, principalmente de poesia, é uma batalha homérica. E nem todo mundo tem condições de arcar com os custos de uma publicação independente. Pela internet tenho conquistado novos leitores e o que escrevo pode chegar a todas as regiões do Brasil. Os sites e portais que publicam textos de novos escritores são relevantes. Posso citar o site Jornal de Poesia, o Recanto das Letras e o Portal Literal. Lembro que os primeiros poemas que li de Lêdo Ivo, por exemplo, eu os encontrei no Jornal de Poesia. Depois passei para os livros. Já li bons textos na rede. Outros nem tanto. O leitor precisar ficar atento. Precisa ser seletivo. Talvez o mal da internet seja o imediatismo. Muitos esquecem a lição de João Cabral, da necessidade de lutar com as palavras e de que a boa poesia e a boa prosa resultam de um trabalho constante de seus autores. Não existe mágica. A literatura de qualidade não cai do céu. Isso não implica que devemos abandonar a sensibilidade. Encontro muitos desabafos em blogs e sites, mas precisamos ir além disso. Uma obra literária não pode ser sustentada somente com comentários sobre a festa do último domingo. É preciso muito mais. Com o computador adquiri novos hábitos. Antes escrevia só em blocos de papel. Agora produzo no próprio computador. Mas quando saio às ruas ou ando de ônibus sempre estou com um pequeno caderno para anotações. Por vezes, nasce de repente uma frase ou um verso. Também há um movimento interessante que é o da poesia virtual, ligada à animação, ao web desing. Preciso experimentar isso.
C. L. – Você termina o poema Apresentação com uma síntese de seu trabalho como poeta. Você escreveu: “O verso é meu ofício”. Como é o seu processo de criação?
R. B. – O meu processo de criação é vagaroso, porém constante. Eu escrevo com certa voracidade, mas misturo os projetos. Não sou muito organizado. Estou tentando priorizar o que vou escrever. Como inicio vários textos num mesmo período, demoro a conclui-los. Já iniciei romances, novelas e contos. E não levei nenhum projeto adiante. Perco com esse processo. Sem esquecer as idéias que surgem na rua ou no meio da noite e não tenho onde anotá-las. Elas também se perdem. Já escrevi vários poemas que estão longe de uma qualidade desejável. Nem tudo que escrevemos deve ser publicado. Sou exigente. Mas escrevo com leveza. Acredito que estou começando a me entender como escritor, como poeta. Aos poucos estou deixando nascer um certo Rudinei Borges, que é a soma de inúmeros livros lidos, a soma de muitas vozes e histórias ouvidas nas ruas. No entanto, o meu maior instrumento de trabalho é a minha memória. Por vezes, tenho a impressão que há uma sina da qual não poderei me livrar, a sina de memorialista. Eu estou impregnado das imagens do passado. Estou impregnado de minha própria infância e dos personagens daquela época. Sim, o verso é meu ofício. A memória é minha sina. Não quero perder isso.
*Cristina Lima é estudante do Curso de Letras da Universidade de São Paulo, USP.
O menino perdido
(Por Rudinei Borges)
Sou o menino do beco.
Tenaz. Cavo.
O menino perdido.
Três dias esquecido na mata.
O menino encontrado morto.
O menino encontrado vivo.
Colecionador de oráculos.
Guardador de árvores.
Feito de remos e barcos.
Tábuas partidas e canoas.
Sou o pastor inefável do fundo do rio.
O velho violeiro do cais.
O pescador de lampreias.
Nas mãos o rastro das foices
Desenha canteiros de açucenas.
Nos pés a aurora campeia
Rumo às colinas.
Sou o amor que rebenta na tarde.
O filho mais velho do vento.
O filho mais novo do tempo.
O irmão do meio da noite.
Tudo em mim é porto.
Barcos imaginários.
Trens imaginários.
Casas e homens de barro.
Rostos e mãos tecidos de luz.
Carta de Maria Clara Spinelli sobre o livro “Chão de terra batida”
“Eu quero viver.” (Chico Mendes)
Rudinei Borges,
O que dizer agora que terminei de ler o seu livro – Chão de Terra Batida – e estou tão tocada… Assim como em toda a leitura, eu me emocionei…
Dizer que me identifico muito com você? Com sua história? Com sua Vida?
Dizer que a dor e delícia de existir são universais?
Dizer que também sou do interior, (e sonho) e penso no caminho que você está trilhando em uma das maiores metrópoles do mundo. Como é difícil. Como é bonito. Como é corajoso. Como é grande. Como é solitário.
E fico feliz por você realizar o que eu ainda não tenho. (E talvez nunca terei). E viver…
Acho que seu livro é um pouco de mim também. Ou muito.
Eu… Sou uma pessoa em construção.
Muito obrigada, Rudinei.
Seguimos…
Beijos e Rosas,
Maria Clara17.nov.09
Fotos de Sampa
Outro dia saí por aí tirando fotografias do velho centro de São Paulo. Comecei no Mosteiro São Bento e fui terminar na Av. Paulista. Depois posto as fotos.
Carta de Maria Clara Spinelli

A atriz Maria Clara Spinelli
Não publique cartas. É demasiadamente pessoal. Mas ontem recebi estas breves palavras da atriz Maria Clara Spinelli por quem nutro enorme carinho e não pude deixar de compartilhar com todos. Maria Clara está no filme brasileiro Quanto dura o amor. Grande abraço a todos. Muito grato, Maria Clara. Um dia escrevo um texto de teatro para você. (Rudinei Borges)
Rudinei,
Recebi ontem, surpresa, seu livro de presente: Chão de terra batida.
Fiquei muito feliz pelo carinho e gentileza, obrigada!
Lerei com carinho também… e depois comento contigo.
Beijos e rosas,
Maria Clara.
Assis, SP. 28 de outubro 2009
Vocabulário
As palavras dos poemas em prosa de Albano Martins (1930), poeta português. Uma agradável descoberta. Uma janela aberta para o que é lírico e terno. Abaixo reuni alguns vocábulos que ando invetigando no longo poema Rodomel Rodoendro.
A morte chega ao pôr-do-sol, agarrrada aos pulsos, aos joelhos.
Lúbricos gladíolos
Carbúnculos
Giestas
Caruma
Lucilações
Rododentros
Fuligem das casas
Vagares e desoras
Rés da neblina
Amarfanhado
Furtivas
Salitre
Oblígua
Aloendro
Interstícios
Estorninho
Dardo
Diques
Algures
Epiderme
Surdina
Enfloram
Bivalves
Algures
Corolas
Capitéis
Abóbodas
Ameias
A voz rouca do cuco
Abjeções do real
Aspereza do aguilhão
Vertigem dos cumes
Incólume
Rizomas de aço
Ardósia do vento
O vôo raso do melros
Castanhas glaucas
Aninham as cordonizes
Alcatruzes
Hausto
Pressurosas e maternas sulfamidas
Surda alcatéia
Espaço esventrado
Trnaslúcidos retábulos de seda
Vinho esfusiante
Esgares e soluços
Mochos
Eiras de trigo vermelho
Longe o trilo dos pardais
Almofada do feno
Os tordos que adormeciam sob as folhas sangrentas
Ébrios
Aurora borel
Serôdias primícias
A modéstia do lume crepitando
Ao zênite oporás o nadir
Fosso
Saia cerzida das maçãs camoesas
O que é aparente é que é real.
Há um rio correndo entre as falanges dos dedos.
A verdade da vida não é a própria vida, mas o que nela se vela ou se esconde.
Voz emuldecida
Pitonisa
Velas pandas
Frutos do solstício
Bojo estival
Substantivo epiceno
Flor do hibisco
ECLIPSE “Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.”
Poema de amor
por Rudinei Borges
Mania feia esta de dizer eu te amo.
Vício ignóbil de linguagem.
Amor é coisa sagrada.
Não se pode invocar em vão.
É como o nome de Deus.
Não adianta chamar toda hora.
O amor é surdo.
É mistério que ninguém consegue expressar em palavras.
Nem com a conjugação correta dos verbos.
Nem com prosopopéias e metáforas.
Arrojos. Acrobacias. Subterfúgios.
Devaneios. Solilóquios. Sussurros.
Amor é bicho difícil de domesticar.
Espírito encantado das colinas.
Pluma que se perde ao vento,
mas por vezes cai em nossas mãos.
É grão de mostarda. É mar morto. Capadócia.
Amor é viagem que a gente imagina.
Sonho em madrugada fria.
É sobrado velho pintado com as cores do inefável.
Por isso, é bonito. Cega a vista. Cega a alma.
Deixa a gente louco. Estarrecido. Calado.
Cheio de lágrimas no canto dos olhos.
Amor é canção de roda. Esconde-esconde.
É o amigo invisível dos meninos que correm na praça.
Carta amarelada das mulheres no alpendre.
Rosto na janela.
É pão sobre a mesa.
Risada interminável.
Amor é gesto. É corpo.
São olhares que se entrecruzam de manhãzinha.
Não é dizer. Não é conversa.
É ato abrupto. Abraço apertado.
Amor é silêncio.
Menção Honrosa
Hoje à tarde tive a alegria de receber esta notícia: recebi uma menção honrosa no Concurso Nacional de Poesia da Secretaria de Cultura do Paraná. A menção se deve ao poema Meninos da Sétima Rua que publiquei no meu primeiro livro, Chão de terra batida (AllPrint 2009). Abaixo apresento o poema, que é uma referência à rua da minha infância, a Sétima Rua. Lugar até hoje cheio de barro e lama no bairro onde eu cresci, Liberdade. É interessante que A Sétima Rua também é o nome que dei a esta minha página na internet.
O concurso recebeu 3285 poemas de todo o país.
Creio que o meu poema é singela homenagem a todos os meninos da Amazônia e da cidade onde nasci, Itaituba, no interior do Pará.
Meninos da sétima rua
Tenho saudades do que é breve
e vai para além dos barcos.
Esvai com a alvorada.
Saudades do menino cálido
que se perdeu nos campos
entre o cais e o beco
e a tenra ilusão dos fósseis.
Saudades daquele menino
amante das ruas,
andarilhos das tardes.
O meu menino.
Eu mesmo.
As poesias vencedoras do Prêmio Helena Kolody
Como está a produção poética brasileira atual? A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná divulgou na segunda-feira (19) a relação dos vencedores do Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody. Aqui, agora, as três poesias vencedoras que ajudarão você a julgar como está a produção poética brasileira atual. O juri foi formado pelo escritor paranaense Domingos Pellegrini, o poeta gaúcho Fabricio Carpinejar e a escritora e músicista paranaense Estrela Leminski.
Em primeiro lugar Andreza Silva Pereira, de Cuiabá – MT, com a poesia:
Sal-dor
Sal-dor
Lágrima por mais que doa, voa
E deixa sal de conservar caminho
Em segundo lugar, Claudia Schroeder, de Porto Alegre – RS, com a poesia:
Jantar
A música estranha
o vinho pálido-branco
o aspargo
a couve-chinesa
(o menu para um a francesa).
Ah, como são tristes
os pratos
de porção única
quando há espaço
para dois
na mesa.
Em terceiro lugar, Valberto Cardoso da Silva, de João Pessoa – PB, com a poesia:
Pré-destino
Guardados fiquemos
Do útero ao túmulo
Por enquanto monólogo
Depois silêncio
Entre as 12 menções honrosas do concurso, apenas dois do Paraná: Carlos Barbosa Junior, de Curitiba e Rodrigo Domit, que nasceu em Curitiba, criou-se em Londrina, mas atualmente mora no Rio de Janeiro.
Eis todas as menções honrosas:
Inscrição nº: 020
Autor: Marcos Antonio de Oliveira Ferreira – Recife PE
Poesia: QUASE-CRÔNICA DO ADEUS
Inscrição nº: 1438
Autor: Valeria Mares Alvares – Belo Horizonte MG
Poesia: A POESIA
Inscrição nº: 2466
Autor: Rodrigo Domit – Rio de Janeiro RJ
Poesia: CURIOSA
Inscrição nº: 3138
Autor: Marcus Vinicius Quiroga – Rio de Janeiro RJ
Poesia: DA ARTE DE SE OLHAR NO ESPELHO
Inscrição nº: 2213
Autor: Rodrigo Fernandez Pinto – Maceió AL
Poesia: O ODOR DAS COISAS EM PÂNICO
Inscrição nº: 2500
Autor: Carlos Barbosa Junior – Curitiba PR
Poesia: MANHÃ
Inscrição nº: 0435
Autor: Ricardo Luiz de Souza Thomé – Rio de Janeiro RJ
Poesia: JURAS E PROMESSAS
Inscrição nº: 1084
Autor: Eduardo Dominguez Trindade – Rio de Janeiro RJ
Poesia: AUSÊNCIA
Inscrição nº: 2391
Autor: João Goulart de Souza Gomes – Salvador BA
Poesia: PLUVIAL
Inscrição nº: 2868
Autor: Rafael Alexandre Gomes dos Prazeres – Salvador BA
Poesia: HIPERTEXTO DE FIDELIDADE
Inscrição nº: 2317
Autor: Rudinei Borges – São Paulo SP
Poesia: MENINOS DA SÉTIMA RUA
Inscrição nº: 3130
Autor: Germana Lima de Almeida – Fortaleza CE
Poesia: NÓS
Poema
por Rudinei Borges
Tenho saudade ínfima infinita
Não sei de quem
Não sei de que
Agora você dorme
Tenho saudade de um rosto perdido
Numa rua que dá com o Viaduto do Chá
Um rosto ofuscado embassado
Um rosto sem nome
Ninguém
(Vai até aí. Não sei o que escrever)
Noite de 20. 10. 2009
Chão de terra batida – Lançamento dia 7 de novembro 2009

Chão de terra batida
CHÃO DE TERRA BATIDA
por Rudinei Borges
Lançamento dia 7 de novembro, às 19h.
All Print Editora e Gráfica Ltda.
Espaço Cultural Antonio Adolpho
Rua Ibituruna, 550 – Jd. Saúde – São Paulo – SP
(próx. Estação Saúde do Metrô)
Fone: (11) 2478-3413
*
O CHÃO DE RUDINEI BORGES
por Edner Morelli
A literatura de Rudinei Borges impressiona pela sua simplicidade, comprovando que a boa obra literária nem sempre precisa se apoiar num hermetismo estético que, muitas vezes, não diz nada. Por meio de uma prosa memorialista, algo que transita entre o regional e o universal, o autor, com invejável tom poético, apresenta-nos uma revisitação de seu espaço primeiro, no caso, o interior do Pará. Ao optar pela primeira pessoa, a obra adquire certa atmosfera autobiográfica, porém, nunca se esquecendo da possibilidade de representação que as imagens literárias nos proporcionam.
O texto de Rudinei, materializado em seu primeiro livro Chão de terra batida, beira o relato pessoal, misto de crônica e conto fragmentado, com perdão da redundância. Obviamente, por trás dessa economia de meios de linguagem, os textos desse livro guardam uma potencialidade infindável de sugestões poéticas, como verificamos no texto abaixo, que vai do tom impressionista-cotidiano à surpreendente reflexão existencial-filosófica:
Altar
Mãe rezava o rosário inteiro
antes de dormir.
E eu baixinho repetia
as palavras da mãe:
amar significa olhar para as coisas
sem sentir saudades delas.
Rudinei cria, ou melhor, re-cria sua própria mitologia, ao recuperar as figuras familiares mais íntimas, os espaços mais longínquos de sua infância-raiz, apontando para um movimento curioso de representação, que abrange o lado interior e exterior do poeta. Como uma fotografia em prosa, Rudinei nos oferece uma visita ao seu mundo particular, pois só ele esteve in locus nessas reminiscências, que esse livro possui a pretensão literária de eternizá-las.
*
REPERCUSSÃO
“Chão de terra batida é um microcosmo onde o leitor caminha pelas terras e sente os cheiros e os sabores da infância, as brincadeiras de criança, as travessuras de menino levado, aquele tempo que não morre e que nos acompanha durante toda a vida e nos dá conforto quando há solidão”. (Felipe Garcia de Medeiros)
“Chão de terra batida é um livro mítico. Ele remonta ao barro primitivo para tocar no mistério da gênese. Não da Phýsys enquanto mundo objetivo, mas do Cosmos subjetivo da poesia de Rudinei Borges. Narrativa em que as principais referências são femininas: a mãe, a vó, a Amazônia, grande ventre do qual aquelas parecem constituir figura. O livro conta, em instantâneos plenos de beleza e encanto, a conformação da poesia e do poetar na alma do menino. E, não obstante, na subjetividade do processo, uma viva comunicação se estabelece. O leitor se vê no poeta: Mistério da poesia!” (Edilson Pantoja)
“Os poemas de Chão de terra batida possuem uma propriedade peculiar: conseguem nos impregnar da mesma nostalgia de seu autor, como se odores, sabores e outras sensações que percorrem o livro se integrassem às lembranças de cada leitor. Epifanias que eclodem de cenas cotidianas revelam um universo repleto de singelas riquezas, para o qual somos transportados, por força do claro estilo de Rudinei Borges. A propósito deste estilo, o rigor de quem procura a palavra exata e a simplicidade derivada da opção por prescindir de efeitos vazios se encontram em medidas precisas na escrita de Rudinei, o que nos faz crer estarmos diante de um poeta destinado a se consolidar entre os melhores”. (Carlos Alberto Rodrigues Pereira)
“Chão de terra batida é um mergulho nas águas densas das sensações, as mesmas águas em que navegam as pequenas embarcações que os olhos do menino avistavam do cais. Entre ruas e personagens, Rudinei Borges se debruça sobre o passado, resgata impressões do cotidiano e irrompe o universo cultural de sua terra, a Amazônia. O que mais agrada em Chão de terra batida é a capacidade do autor em olhar o passado sem distanciar-se do presente e correlatamente projetar o futuro. A maneira como Rudinei interage com a temporalidade torna este livro imprescindível”. (Sidnei Ferreira de Vares)
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