Dizer adeus
Esta provavelmente é a minha última publicação nesta página, companheira de tantas horas, gaveta aberta onde desvelei esboços de versos, fragmentos, textos e imagens tantas que moveram a minha pesquisa literária e teatral. Recebi muitas visitas. Agora o tempo é de muita escrita. Estou providenciando outro espaço dedicado ao teatro e à literatura. Depois retornarei aqui para dizer a todos o endereço de minha nova tenda, nova morada.
Utopia e luta a todos.
Rudinei Borges
de manhã o meu suspiro se depara com as rotas do meu coração e disparo a voz do meu crime
Rudinei Borges (30 de maio 2011 – esboço)
tenho ficado sozinho
com meus pastores de vento
deixado rastros de pássaros
voado à noite às vezes
perdido tempo com espinhos roseiras
pedido aos meus fantasmas que me deixem em paz
tenho amado uma estátua de vidro com olhos vendados
chorado à tarde pela manhã
tenho vivido quase sempre como um despatriado
caminhando pelas beiradas duma alameda sem nome
quase sempre diante de satã
quase sempre longe de deus
(Rudinei Borges)
Carta a um amigo
São Paulo, 31 de janeiro 2012.
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Entrevista ao Arteletra Literatura
Compartilho com todos a entrevista que concedi ao programa Arteletra Literatura. Também participa o poeta Felipe Stefani.
Raio
Crônica de ano novo
Por Rudinei Borges
Faz tempo não lembro mais nada. Só o sol azul sobre a parede do escombro misturando-se aos pigmentos de lodo. E uma mulher na janela do sobrado. Toda noite ela diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão. Faz tempo não me lembro de Deus. Na passagem de ano talvez. Um homem velho, à meia noite, acendeu a lareira e desenhou com as mãos cruzes miúdas sobre a testa, os olhos, a boca e o coração. Aquele homem velho fez-me lembrar de Deus.
Mas despois a imagem do fogo corroendo o eucalipto dentro da lareira perdeu-se. Só recordei-me agora e é provável que mais tarde esta mesma imagem se perca entre outras imagens-várias que nunca mais vi: um ciclone, um trem que vai de São João Del Rei para Tiradentes, um acidente de carro, o rosto de Lenin apavorado numa pintura no centro de São Paulo, uma mala pequena que veio da Ilha da Madeira na bagagem de duas portuguesas em 1970, a marcenaria onde comprávamos piões, um ventilador que rosnava à noite, uma carta que nunca enviei, um cavaleiro que jogava xadrez com a morte num filme de Ingmar Bergman, o aeroporto de Itaituba e a última ópera que assisti no teatro municipal. Ou outras lembranças consideradas importantes que desapareceram da minha memória: os olhos do meu pai, a voz do meu pai, o corpo do meu pai, o meu próprio pai. A primeira vez que beijei, a primeira vez que transei, a primeira vez que fui ao cinema, a primeira vez que vi o mar. A primeira vez que viajei para fora do Brasil (eu nunca viajei para fora do Brasil). E outras imagens que não consigo nomeá-las nem lembrá-las. Imagens que nunca existiram, nem existirão. Fantasmas de um tempo que não foi. Ou invenção da minha cabeça.
O fato é: foi na passagem de ano que me lembrei de Deus. E sei que os anos findam e começam. Amontoamo-nos em salas, ruas, igrejas e bares. E celebramos o ano que inicia, despedimo-nos do ano que termina. Porém, não sei por quais razões, não me recordo das passagens dos anos. O que fiz. Onde estava. Pouco importa. Não lembro.
Recordo-me que uma vez chegando a meia noite descobri que cupins alojaram-se em bando nos meus livros antigos e, na mesma hora, tratei de me livrar deles. Assim, de um ano para o outro, a última e a primeira coisa que fiz foi matar cupins. E, desde então, creio, tenho matado cupins.
E Deus? Sei pouco sobre o senhor dos auspícios. O que faz. Onde está. Não sei. Sei apenas que todos os dias, às dez horas da manhã, quando não há chuva, o sol mistura-se aos pigmentos de lodo na parede do escombro e permanece azul quase o tempo todo. E uma mulher na janela do sobrado toda noite diz em alta voz: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Depois liga a televisão.

